O Fundo do Lago por José Luís Peixoto

Mergulhada na água do lago, a mão continuava a descer. A água era uma superfície lisa de brilho, não era alterada pelo braço que entrava cada vez mais no seu interior. Sentado na parede baixa do lago, granito e musgo seco, o homem sentia a frescura da água a envolver-lhe devagar o braço. Era como se mergulhasse o braço na boca de um monstro adormecido. Tocou o fundo do lago com a ponta dos dedos e sentiu os limos frios e escorregadios. Sentiu também a camada flutuante de algas miúdas, como pó debaixo de água, que se agitou num ciclone de pequeno caos. Eram algas pequenas. Eram pontos verdes que enverdeciam toda a água e que eram cruzados por raios de sol que caíam oblíquos e queclareavam riscos de verde. O seu braço, dentro da águaverde do lago, era tocado por esses riscos de luz.

A filha do homem era uma menina, teria talvez oito anos, nove anos, ela sabia a sua idade ao certo. Olhava o pai com os olhos molhados, com a tristeza suspensa no rosto, a abrandar ligeiramente, sem saber se podia abandoná-la ou se, pelo contrário, deveria voltar à tristeza, entregar-se definitivamente a ela. A menina estava magoada ainda. Revivia o acidente vezes e vezes na memória. Sentia ainda nos dedos a maneira como se baralharam uns nos outros, o pequeno indicador a tropeçar no pequeno polegar e, logo depois, o som do pequeno objeto a cair na água, o brilho a desaparecer na água, a afundar-se. A menina sentiu o aperto de um choque até ao momento em que o pai se aproximou, passos rápidos, promessas, calma, calma, a voz serena que usava para resolver problemas.

Debaixo do olhar da filha, debaixo o silêncio, o pai estava inclinado sobre o lago, com o braço mergulhado até depois do cotovelo. Aquela era uma manhã de domingo, havia tempo e havia as cores de toda a gente que, àquela hora, chegava ao jardim. Os movimentos debaixo de água eram lentos. A mão a procurar em volta. A mão a escorregar brevemente no fundo do lago e, após instantes de cegueira, a tocar os ângulos do brinco dourado e, nesse mesmo instante, a fechá-lo na palma da mão.

O homem levantou a mão mais depressa porque foi como se tivesse agarrado uma certeza. A mão fez um barulho de água quando rasgou a superfície lisa do lago. Cada gota que levantou com a mão, cada gota que lhe pingou pelo cotovelo, alargou um círculo que avançou pela água até ser demasiado fraco e morrer. O homem segurava o brinco de ouro fechado na mão e olhava para a filha. Sorriam por fim, os seus olhos grandes tinham dentro de si a paz cristalizada daquele domingo e daquele lago. Foi então que o homem segurou a mão molhada com a mão que estava seca e, olhando a menina e sorrindo, abriu as duas mãos para mostrar o brinco dourado, lavado pela água e brilhante.A menina sorriu e olhou-o. Era o sol brando que a iluminava, o sol dos domingos.

Lentamente, as mãos do pai dirigiram-se à orelha da menina. Com as costas dos dedos de uma mão, afastou-lhe os cabelos. Sol e dourado eram o toque leve daqueles cabelos. Com toda a delicadeza da ponta dos dedos, segurou-lhe o lóbulo, procurou o pequeno furo e, com muito cuidado, acertou a ponta do brinco. Em silêncio, fechou o brinco e recolheu as mãos. O pai não tinha maneira de saber se aquele instante de domingo era iluminado pelo sol ou pelo sorriso da filha. Então, sentado na parede baixa do lago, o pai esqueceu-se das mãos. Os passos da menina correram pelo caminho de areia do jardim. Ao lado, canteiros de flores e mantos de relva. O homem olhava a menina a afastar-se. Dentro dele, como um brinco no interior de um lago, o amor.