Antiga Atualidade por José Luís Peixoto

Eram as revistas da atualidade. Era a atualidade. Neste momento, há revistas esquecidas em casas de estores fechados, onde só se vai no verão. Debaixo dessa sombra, o tempo parece não passar. Nessas divisões, há grãos de pó que pairam devagar, perturbados por nada, todos os ruídos vêm lá de fora, do mundo que nunca …

O Fundo do Lago por José Luís Peixoto

Mergulhada na água do lago, a mão continuava a descer. A água era uma superfície lisa de brilho, não era alterada pelo braço que entrava cada vez mais no seu interior. Sentado na parede baixa do lago, granito e musgo seco, o homem sentia a frescura da água a envolver-lhe devagar o braço. Era como …

Mais ou Menos como Sísifo por José Luís Peixoto

Talvez dependam de nós os pesos que temos de carregar. É mais fácil escrever esta frase do que acreditar nela, aceitá-la em todos os momentos e viver segundo o que implica. No início, antes de cada decisão, o tempo diante de nós parece um enorme bloco de granito. Os gestos são impossíveis no seu interior. …

Bonecas Que Não São Apenas de Plástico por José Luís Peixoto

Antes, no tempo das minhas primeiras memórias, as bonecas ocupavam uma prateleira do móvel branco da sala. Eram uma espécie de família grande. Entre elas, recordo-me, por exemplo, da curiosidade das sete saias nazarenas. Essa boneca tinha um chapéu preto na cabeça, um fio de ouro, ouro de plástico, tinha uma camisa de quadrados pescadores, …

Edificação do pôr-do-sol por José Luís Peixoto

por José Luís Peixoto Temos estas palavras. Agora, é aqui que estamos. Reparaste que utilizo a primeira pessoa do plural, nós, refiro-me, claro, a ti e a mim. Talvez haja outras pessoas a ler este texto mas, agora, neste preciso agora, só podemos ter a certeza de nós, somos os únicos aqui. Eu sei que os …