Presentes para o Natal

Por Susana Jacobetty

O luxo Sensorial de Anne Semonin
Quando a vela se torna cultura

Vela perfumada

Num tempo em que o consumo acelerado tende a esvaziar os objectos do seu significado, há gestos que resistem pela via da subtileza. A vela com aroma de Anne Semonin Paris inscreve-se nesse território discreto onde o luxo não se afirma pelo excesso, mas pela coerência entre tradição, conhecimento técnico e sensibilidade cultural.

Anne Semonin é um nome historicamente associado à alta cosmética francesa, com raízes numa ideia de cuidado que cruza ciência, ritual e prazer sensorial. A transposição desse universo para o domínio da fragrância de interiores não é um exercício decorativo, mas uma extensão lógica de uma visão: o espaço como prolongamento do corpo e da experiência íntima. A vela aromática surge, assim, não como um acessório, mas como um dispositivo de atmosfera.

A composição olfativa, limpa, equilibrada, sem exuberâncias artificiais, reflete a herança parisiense da marca, marcada por um classicismo contemporâneo que evita tanto a nostalgia como a moda efémera. Há notas que evocam serenidade, conforto e ordem sensorial, pensadas para acompanhar o tempo, e não para o dominar. A queima é regular, o aroma difunde-se com contenção, respeitando o espaço e quem o habita.

Num contexto cultural cada vez mais atento às experiências domésticas, a vela de Anne Semonin afirma-se como um objecto de mediação: entre o cuidado pessoal e o ambiente, entre o design funcional e a memória sensorial. Não pretende transformar o quotidiano, mas afiná-lo. E é precisamente nessa recusa do espectáculo que reside a sua força.

Para um olhar crítico, habituado a distinguir entre marketing e substância, esta vela representa um exemplo raro de continuidade cultural no universo do lifestyle: um produto que não simula profundidade, mas que a constrói a partir de uma identidade sólida, fiel à tradição francesa de elegância discreta e rigor sensorial.

Ouvir como Método

A Beleza das Pequenas Coisas, de Bernardo Mendonça

A Beleza das Pequenas Coisas
Bernardo Mendonça
Oficina do Livro

Quando Bernardo Mendonça criou A Beleza das Pequenas Coisas no Expresso, em 2015, o podcast afirmava-se ainda como um território experimental no jornalismo português. O tempo veio confirmar a intuição inicial, havia espaço e necessidade para conversas longas, exigentes e sem urgência noticiosa imediata. O livro agora publicado pela Oficina do Livro fixa esse percurso, reunindo 50 entrevistas que testemunham uma década de escuta atenta e pensamento partilhado.

Mais do que uma simples transposição de conteúdos, este volume funciona como um documento editorial sobre uma forma de fazer jornalismo. As conversas abrangem um espectro amplo da vida pública e cultural, da política à literatura, da ciência à filosofia, do jornalismo à justiça, do teatro à música, da arquitetura ao cinema, do humor à sexualidade, compondo um retrato plural da sociedade portuguesa contemporânea. A diversidade de áreas não fragmenta o livro, pelo contrário, reforça a ideia de continuidade entre campos do saber que raramente dialogam em profundidade no espaço mediático.

Bernardo Mendonça assume aqui o papel de mediador mais do que de protagonista. A sua escrita preserva o ritmo da conversa e respeita a singularidade de cada voz, evitando a tentação de uniformizar discursos ou de forçar leituras conclusivas. Há método na forma como conduz as entrevistas, mas há sobretudo atenção: às pausas, às contradições, às pequenas revelações que não cabem em títulos nem em respostas rápidas.

O título do livro revela-se, assim, menos metafórico do que operativo. A “beleza” a que se refere não está apenas nos temas abordados, mas no próprio ato de ouvir, de permitir que o pensamento se desenvolva sem pressa. Num contexto mediático marcado pela aceleração e pela fragmentação, “A Beleza das Pequenas Coisas” afirma-se como um gesto de resistência cultural, valorizar o tempo da conversa como espaço de compreensão.

Este livro consolida um projecto que já era referência no panorama dos podcasts em Portugal e confirma Bernardo Mendonça como uma das vozes mais consistentes na prática do jornalismo de entrevista. Não pela espectacularidade, mas pela capacidade rara de criar condições para que o outro pense em voz alta, e para que o leitor, agora, possa continuar essa escuta em silêncio.

Leme – Perfumes com Estória

O perfume como discurso cultural

Coffret Leme tema Lisboa
Perfume e gel de banho Lisboa

A Leme nasce num território pouco explorado pela perfumaria contemporânea, o da construção consciente de discurso. Em vez de recorrer ao imaginário do luxo, do conforto ou da evasão sensorial, a marca posiciona o perfume como um meio de expressão intelectual, capaz de articular identidade, pensamento e memória colectiva.

O conceito de “perfumes com estória” não se traduz numa narrativa ilustrativa ou emocionalmente óbvia. Trata-se antes de um exercício de edição, seleccionar referências, depurá-las e transformá-las em matéria olfativa. Cada criação assume-se como uma tomada de posição, recusando a neutralidade estética e o apelo fácil. O perfume deixa de ser um complemento e passa a funcionar como linguagem.

A Leme trabalha a composição com uma lógica próxima da escrita ou do ensaio, há ritmo, tensão, silêncio e estrutura. As fragrâncias não procuram seduzir de imediato, nem se esgotam na descrição das notas. Exigem contexto, interpretação e, sobretudo, disponibilidade. São perfumes que se constroem no tempo, em oposição à lógica da gratificação instantânea que domina o mercado.

Num momento em que o perfume é frequentemente instrumentalizado como marca social ou assinatura identitária rápida, a Leme propõe um gesto mais exigente, usar o aroma como forma de pensamento. Não pretende representar quem o usa, mas dialogar com ele. E é nesse espaço, entre cultura, autoria e sensorialidade crítica, que o projeto encontra a sua singularidade.

Inspira-se nas viagens dos Descobrimentos, evocando através do aroma as sensações únicas que caracterizam cada território, prestando homenagem a todos os que viajam para novos destinos.

Coffret Lema tema Lisboa
Creme de mãos e sabonete

Aprender a Crescer

Os Livros Como Exercício de Curiosidade

101 Coisas e Meia para Fazer Antes de Crescer
101 Palavras e Meia para Saber Antes de Crescer
Isabel Zambujal
Pedro D’Aguiar
João Bacelar
Oficina do Livro

Num mercado editorial infantil frequentemente dominado por fórmulas pedagógicas rígidas ou por entretenimento descartável, “101 Coisas e Meia para Fazer Antes de Crescer” e “101 Palavras e Meia para Aprender Antes de Crescer”, de Isabel Zambujal, Pedro D’Aguiar e João Bacelar, afirmam-se como propostas que devolvem inteligência e autonomia ao leitor mais novo. Publicados pela Oficina do Livro, estes títulos recusam a ideia de infância como território menor e tratam-na, antes, como um espaço de experimentação, pensamento e descoberta.

A estrutura fragmentada, listas, entradas breves, sugestões abertas, funciona como estratégia editorial consciente. Não há aqui um percurso imposto nem uma moralização explícita. Cada “coisa” e cada “palavra” surgem como convite, não como instrução. O livro constrói-se na relação com quem o lê, estimulando a curiosidade, a interpretação pessoal e a vontade de explorar o mundo para além da página.

Isabel Zambujal, com a sua experiência no jornalismo e na escrita para públicos diversos, assegura clareza e rigor na linguagem, assim como  Pedro D’Aguiar. introduz uma dimensão visual que não ilustra o texto de forma redundante, mas dialoga com ele, ampliando sentidos e abrindo novas leituras. João Bacelar, introduz uma dimensão visual que não ilustra o texto de forma redundante, mas dialoga com ele, ampliando sentidos e abrindo novas leituras.

O resultado é um equilíbrio raro entre acessibilidade, exigência e identidade gráfica, que funcionam em vários níveis: como objectos de leitura partilhada, como ferramentas de conversa entre gerações e como estímulos à construção de um pensamento crítico desde cedo. Em vez de preparar a criança para “crescer” num sentido normativo, estas obras propõem algo mais ambicioso: aprender a observar, a nomear e a agir com consciência.

Num tempo em que a infância é frequentemente apressada ou excessivamente programada, “101 Coisas e Meia para Fazer Antes de Crescer” e “101 Palavras e Meia para Aprender Antes de Crescer” defendem uma ideia simples e necessária: crescer não é cumprir etapas, mas desenvolver curiosidade, linguagem e relação com o mundo. E é nessa abordagem lúcida e culturalmente informada que estes livros encontram a sua relevância editorial.

Rosarinho Cruz
Entre a Jóia e a Aguarela

Rosarinho Cruz ocupa um território singular no panorama criativo português, onde a joalharia contemporânea e a aguarela coexistem como linguagens complementares. O seu trabalho revela uma abordagem autoral consistente, assente na observação paciente da natureza, na atenção ao detalhe e numa relação muito direta com o gesto manual.

As joias que cria afastam-se deliberadamente da ideia de ornamento exuberante. São peças de escala contida, formas depuradas e materiais trabalhados com contenção, onde o desenho é tão importante quanto a matéria. Cada anel, colar ou brincos nasce de um processo próximo do desenho e da escultura, mais próximo da reflexão plástica do que da moda. Há nelas uma procura de equilíbrio entre organicidade e estrutura, que remete para elementos naturais, folhas, ramos, sementes, linhas de água, sem nunca cair na representação literal.

Esse mesmo olhar atravessa a sua prática como aguarelista. As aguarelas de Rosarinho Cruz distinguem-se pela leveza cromática e pela economia de meios. A água, o papel e o pigmento são usados com precisão, deixando espaço ao silêncio visual e à respiração da imagem. Tal como nas jóias, o que interessa não é o efeito imediato, mas a permanência de uma atmosfera, de um ritmo, de uma sensação.

Existe entre ambas as práticas uma continuidade evidente. As aguarelas funcionam muitas vezes como campo de experimentação formal e sensorial para a joalharia, enquanto as joias parecem condensar, em matéria durável, a mesma delicadeza transitória da pintura. Não se trata de disciplinas paralelas, mas de um mesmo pensamento criativo que se expressa em suportes distintos.

Num contexto marcado pela aceleração e pela produção seriada, o trabalho de Rosarinho Cruz afirma-se pela recusa do excesso e pela valorização do tempo. As suas joias e aguarelas propõem uma relação mais atenta com os objetos e com as imagens, uma relação onde o gesto, a matéria e o olhar se encontram num espaço de intimidade e rigor.

Três Amigos e Um Desejo

A Infância como Espaço de Escuta e Decisão

Legenda:
Três Amigos e Um Desejo
Benedita de Albuquerque
João Bacelar
Oficina do Livro

“Três Amigos e Um Desejo”, de Benedita Albuquerque, com ilustração de João Bacelar, inscreve-se numa linha de edição infanto-juvenil que recusa simplificações narrativas e aposta numa relação inteligente com o leitor. O livro parte de uma situação reconhecível, a amizade, o desejo, a escolha, para construir uma história que privilegia a escuta, o diálogo e a responsabilidade emocional, sem recorrer a lições explícitas.

A escrita de Benedita Albuquerque é contida e precisa. O texto avança, confiando na capacidade do leitor para interpretar silêncios, intenções e consequências. O desejo que estrutura a narrativa não surge como fantasia escapista, mas como motor de reflexão, querer implica ponderar, negociar e, sobretudo, compreender o impacto das escolhas nos outros.

As ilustrações de João Bacelar não funcionam como mero complemento visual. Há nelas uma dimensão narrativa autónoma, que amplia o texto e introduz subtis deslocações de sentido. A relação entre palavra e imagem é construída por aproximação e contraste, criando um espaço de leitura onde a atenção se distribui e se aprofunda. O traço, deliberadamente depurado, reforça a atmosfera de intimidade e concentração que atravessa o livro.

Do ponto de vista editorial, “Três Amigos e Um Desejo” destaca-se pela coerência entre forma e conteúdo. A estrutura narrativa, o ritmo da leitura e a composição gráfica convergem para uma experiência que respeita o tempo da infância, sem o infantilizar. Trata-se de um livro que pode ser lido de forma autónoma ou partilhada, abrindo espaço à conversa e à interpretação conjunta.

Num contexto em que muitos livros para crianças privilegiam o efeito imediato ou a moralização directa, esta obra propõe uma alternativa mais exigente: pensar o desejo como acto relacional e a amizade como exercício contínuo. É nessa abordagem lúcida e sensível que Três Amigos e Um Desejo afirma a sua relevância cultural e pedagógica.

Presentes com Património
O Natal nas Lojas dos museus e Monumentos de Portugal

Nesta quadra natalícia, as lojas dos Museus e Monumentos de Portugal afirmam-se como lugares de escolha para quem procura presentes com densidade cultural e sentido de pertença. Longe da lógica do consumo indiferenciado, estes espaços oferecem objetos pensados a partir das coleções museológicas e do património histórico nacional, convocando memória, conhecimento e identidade.

A oferta articula-se como uma extensão natural da visita: livros, edições especiais, cadernos, lápis, cerâmicas, sacos, jóias e réplicas de peças do acervo transportam consigo o caráter de cada museu, monumento ou palácio. São objetos que não se esgotam na função decorativa ou utilitária, antes prolongam a experiência cultural para o quotidiano.

Com uma seleção maioritariamente de produção nacional, estas lojas valorizam o saber-fazer contemporâneo em diálogo com a herança patrimonial. Num tempo em que o presente tende a ser efémero, propõem uma alternativa informada e consciente: oferecer cultura como gesto duradouro.

Descubra as Lojas nos Museus e Monumentos de Portugal

Rita Ferro

Escrever a Partir da Escuta

O Surpreendente Silêncio dos Homens
Rita Ferro – Dom Quixote

Rita Ferro ocupa um lugar singular no espaço cultural português, construído menos pela exposição pública do que pela consistência de um percurso atento às relações humanas, à linguagem e às zonas de silêncio que atravessam a vida contemporânea. “O Surpreendente Silêncio dos Homens”, editado pela D. Quixote, inscreve-se nesse trajecto autoral, mais como continuação de uma reflexão do que como ruptura ou gesto circunstancial.

Com formação e prática no jornalismo, Rita Ferro desenvolveu ao longo dos anos uma escrita marcada pela observação rigorosa e pela capacidade de escuta, qualidades que atravessam os seus livros, ensaios e colaborações na imprensa. A sua abordagem evita a retórica estridente ou o comentário imediato, privilegiando antes a análise ponderada, a nuance e a complexidade dos comportamentos humanos. Há, no seu trabalho, uma recusa clara da simplificação.

Enquanto autora, Rita Ferro interessa-se sobretudo pelas dinâmicas invisíveis: aquilo que não é dito, o que permanece suspenso nas relações, os mecanismos subtis de poder, afeto e incompreensão. Essa atenção ao não-dito não resulta de uma estratégia literária, mas de uma ética de escrita que valoriza a observação prolongada e a responsabilidade do discurso. Escrever, no seu caso, é um exercício de mediação entre experiência pessoal, contexto social e reflexão crítica.

A publicação de “O Surpreendente Silêncio dos Homens” pela D. Quixote — uma editora historicamente associada ao pensamento ensaístico e à literatura de intervenção, reforça esse posicionamento. O livro surge num catálogo que privilegia autores com voz própria e capacidade de leitura do seu tempo, e integra-se de forma coerente num percurso marcado pela seriedade intelectual e pela independência de pensamento.

Num momento em que o debate público tende a favorecer respostas rápidas e posições ruidosas, a escrita de Rita Ferro destaca-se precisamente pelo contrário: pela contenção, pela atenção ao detalhe e pela convicção de que compreender exige tempo. Mais do que afirmar certezas, o seu trabalho propõe espaço para pensar e, sobretudo, para escutar.