O Fundo do Lago por José Luís Peixoto

Mergulhada na água do lago, a mão continuava a descer. A água era uma superfície lisa de brilho, não era alterada pelo braço que entrava cada vez mais no seu interior. Sentado na parede baixa do lago, granito e musgo seco, o homem sentia a frescura da água a envolver-lhe devagar o braço. Era como …

Como crescem as Árvores por José Luís Peixoto

Gosto de estar sozinho no monte. Sento-me numa cadeira debaixo do telheiro. À minha frente, as árvores crescem. Lembro-me do dia em que as plantei. Abri filas de buracos na terra, vim a este telheiro, bebi água e olhei para a terra com buracos e pequenos montes de terra ao lado, se tivessem sido medidos, …

A NOIVA E SEU CAMINHO por José Luís Peixoto

A noiva avança pela estrada e lembra-se da sua avó,muitos anos antes, a contar-lhe histórias, a cantar-lhe canções e a dizer-lhe, com voz clara de avó, que muitos nomes serão necessários para explicar tudo aquilo que irá sentir perante a derrota. Nessas tardes, a avó j á tinha visto muitas pessoas a nascer e muitas …

NASCEU por José Luís Peixoto

POR JOSÉ LUÍS PEIXOTO ILUSTRADO POR MARIÚJO (MARIA EMÍLIA ARAÚJO) ANTES Elas conheciam todos os segredos da paciência. Possuíam certezas dentro de um mundo que não podiam partilhar com ninguém. Aceitavam cada injustiça e cada contrariedade porque conheciam o preço de cada alegria. Conheciam o valor das palavras e dos instantes em que eram ditas. …

Mais ou Menos como Sísifo por José Luís Peixoto

Talvez dependam de nós os pesos que temos de carregar. É mais fácil escrever esta frase do que acreditar nela, aceitá-la em todos os momentos e viver segundo o que implica. No início, antes de cada decisão, o tempo diante de nós parece um enorme bloco de granito. Os gestos são impossíveis no seu interior. …

UM FILHO QUE DESENHA POR JOSÉ LUÍS PEIXOTO

Pedia-me sempre as canetas mais finas. Eu ainda não precisava de óculos para ver os desenhos que fazia no interior de outros desenhos, detalhes emaranhados e ínfimos. Em papelarias, quando lhe comprava as canetas, tomavam-me por profissional. Essa parecia ser a razão evidente para pedidos tão específicos, os bicos mais finos, o ar de entendido. …

Bonecas Que Não São Apenas de Plástico por José Luís Peixoto

Antes, no tempo das minhas primeiras memórias, as bonecas ocupavam uma prateleira do móvel branco da sala. Eram uma espécie de família grande. Entre elas, recordo-me, por exemplo, da curiosidade das sete saias nazarenas. Essa boneca tinha um chapéu preto na cabeça, um fio de ouro, ouro de plástico, tinha uma camisa de quadrados pescadores, …

Corrente por José Luís Peixoto

POR JOSÉ LUÍS PEIXOTO. IlUSTRAÇÃO RICARDO LADEIRA Estava nu, estavam todos a olhar para ele, mas não era isso que o incomodava. Havia anos que se tinha habituado aos olhares, a que analisassem cada pormenor do seu corpo, nem demasiado magro, nem demasiado gordo. Tinha alguma gordura na zona da barriga, mas aprendera a aceitá-la …

O Anjo por josé Luís Peixoto

Diz-me uma história, pediu a criança. Queres uma história de quê?, perguntei como se respondesse. Quero uma história de anjos, disse a criança e, nos seus olhos, vi o reflexo da história que comecei a contar. Era um céu que poderia ser feito de mármore, mas que era feito de nuvens. A sua superfície era …

Manifesto Amador por José Luís Peixoto

Antes de tudo, é preciso fazer. Olhar para as mãos e suspirar, queixar-se da vil intempérie, pedir clemência aos deuses, é indigno de quem pode ser tantas coisas. Deitar-se na cama morna da loucura, só telemóvel noite e dia, fazer tudo, mesmo tudo, por um like,é indigno de quem pode ser tantas coisas. Comer papas …