ANTES
Elas conheciam todos os segredos da paciência. Possuíam certezas dentro de um mundo que não podiam partilhar com ninguém. Aceitavam cada injustiça
e cada contrariedade porque conheciam o preço de cada alegria. Conheciam o valor das palavras e dos instantes em que eram ditas.
Elas sabiam já que serão atravessadas por um vulcão. Através dos seus corpos, um vulcão. Hão de ter os olhos fechados e, assim, hão de assistir em silêncio a explosões até ao horizonte. Estarão paradas, de boca aberta e, mesmo que o mundo inteiro grite, esse será um grito calado, menos do que um sussurro, menos do que um murmúrio perante o incêndio de sangue, chamas, brasas, perante a vida. Elas tinham raízes de árvores cravadas no ventre. Ramos estendiam-se para um futuro que ninguém conhecerá, mas que existia já, existia porque elas o têm carregado dentro de si durante nove meses, durante o tempo necessário, a distância necessária, o sofrimento necessário.
Aquela era uma sala cheia de mulheres grávidas a esperar. Os seus corpos existiam como montanhas. Os seus olhos eram poços à noite, eram galáxias, eram constelações de certezas límpidas. Os seus olhos eram caminhos, estradas que poderiam continuar para sempre, destinos perpétuos. Os seus olhos eram segredos simples e infinitos.
Aquela sala cheia de mulheres grávidas a esperar era o centro do mundo.
AGORA
A força da sua mão é comovente. Agarra-se ao meu indicador. O desenho fino dos seus dedos e da sua mão inteira é apenas suficiente para cobrir metade do meu indicador. Talvez como veludo, a palma da sua mão é morna e suave.
Lentamente, acorda. Começa a mexer os braços. Leva as mãos à cara. Passa os punhos redondos, magros, pequenos pelo nariz, pelos lábios, pelas faces, pelos olhos fechados. Faz a expressão de uma pessoa grande, não tem vontade de acordar, mas tem de acordar, e culpa o tempo, culpa os outros ou o destino por ter de acordar.
Levanto-o da cama de ferro onde a enfermeira o trouxe. Sustenho o seu corpo sobre as minhas duas mãos abertas. As suas costas pousadas sobre as palmas das minhas mãos. Os meus dedos seguram-lhe a nuca, o peso da cabeça. Sinto os seus cabelos, talvez como veludo, a fazerem-me festas nos dedos. E existe um instante especial: ele abre os olhos, esse instante,
e volta a fechá-los.
Depois, em tentativas, abre e fecha os olhos, novos instantes, outros instantes, abre e fecha os olhos até deixá-los apenas abertos. Digo-lhe palavras, olha muito sério para a minha voz. Olhamo-nos. Uso um toque delicado para sentir
a ponta dos seus lábios, os seus futuros beijos pousam na ponta do meu dedo. Aproximo-o do peito.
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