
Gosto de estar sozinho no monte. Sento-me numa cadeira debaixo do telheiro. À minha frente, as árvores crescem. Lembro-me do dia em que as plantei. Abri filas de buracos na terra, vim a este telheiro, bebi água e olhei para a terra com buracos e pequenos montes de terra ao lado, se tivessem sido medidos, não estariam mais certos. Uma geometria de terra, de mãos cheias de terra. Lembro-me de ter comprado na feira os pés para plantar. Eu a escolhê-los um a um. O homem a dizer-me para levar um pé de laranjeira que era torto e enfezado, e eu a levar outro que era firme e onde a seiva corria rija. Lembro-me de ter voltado a pisar a terra. Aconcheguei cada raiz, cobri cada raiz de terra, como se fossem crianças que deitasse a dormir.
Já ao fim da tarde, voltei para o telheiro, afiei um lápis com a navalha, agarrei uma folha de papel e fiz um desenho. Tentei desenhar aquela oliveira velha e a terra que continua depois, como se um pardal se levantasse a voar desde a oliveira até lá ao fundo dos campos, até lá ao último cabeço antes do horizonte, como se um pardal se levantasse a voar dentro do papel e se afastasse entre os riscos do lápis e o branco do papel amarelecido sob o sol morrente. Lembro-me que, nesse dia, andava à minha volta a voz de uma mulher.

Gosto de estar sozinho no monte. Sento-me numa cadeira debaixo do telheiro. Ponte de Sor, lá ao fundo, é a minha vida à distância. Em pedaços de estrada, vejo passar carros que não ouço, porque estão longe. Imagino que nesses carros estão pessoas que não sabem que estou aqui, longe, a vê-los passar. Olho para Ponte de Sor. Fixo-me numa casa e imagino que nessa casa, entre tantas, estão pessoas, imagino as suas vidas. Às vezes, lembro-me do tempo em que ia à cidade, comprava ferramentas, comprava pequenas manias, passava na papelaria da avenida, ouvia os velhos à porta do café a remoer as notícias. Agora, já quase não vou e, talvez por isso, me pareçamais distante do que nunca.

Nunca tinha trabalhado a terra, nem sabia por onde começar. Quando decidi que ia recuperar o monte, não tinha planos, apenas vontade. Muita gente estranhou: diziam que aquela vida não era para mim,que ia desistir no primeiro inverno. Mas, a pouco e pouco, começaram a perceber. O monte mudou, eu também mudei com ele, devagar, à velocidade da terra.
Gosto de estar sozinho no monte. Sento-me numa cadeira debaixo do telheiro. Ouço as cigarras e uma aragem que vem do calor. O sol deixa-se cair inteiro sobre a terra. O céu é um lugar infinito presente sobre todas as coisas. Estou perto de mim. Sento-me numa cadeira debaixo do telheiro e fico, fico como se ficasse para sempre, porque agora sou capaz de ver as árvores a crescerem. Ali, entre a sombra do sobreiro e o som do mundo a abrandar, sei que há uma forma de estar no tempo que já não se aprende.



