Antiga Atualidade por José Luís Peixoto

Eram as revistas da atualidade. Era a atualidade. Neste momento, há revistas esquecidas em casas de estores fechados, onde só se vai no verão. Debaixo dessa sombra, o tempo parece não passar. Nessas divisões, há grãos de pó que pairam devagar, perturbados por nada, todos os ruídos vêm lá de fora, do mundo que nunca para, continua sempre. Também neste momento, há ainda algumas dessas revistas em mesas de salas de espera, vão-se aguentando entre outras, a sua sobrevivência é mais difícil, passam por dezenas de mãos e, a pouco e pouco, perdem páginas, desprendem-se dos agrafos. Mesmo assim, nesse tumulto, podem durar anos.

As revistas velhas contêm uma sabedoria rara. A matéria essencial do jornalismo é o presente. No início de cada dia, os jornais propõem uma atualização do mundo. As notícias são aquilo que mudou. Nos cabeçalhos dos jornais, não faz sentido dar conta do que permaneceu. Tudo isso se tem por adquirido. Só faz sentido chamar a atenção para aquilo que se considera novo e relevante.

Custa pouco discernir a novidade: não existia e passou a existir. Já a relevância depende da avaliação que se for capaz de fazer do futuro. No presente, com as ferramentas e as proporções do presente, falta perspetiva.

Ainda assim, não se creia que a distância é sempre útil para uma melhor compreensão do tempo e das suas marcas. Muitas vezes, olhando para trás, temos dificuldade de perceber como fomos capazes de ser alguma coisa que, no seu tempo, era inequívoca. Como pudemos escrever aqueles bilhetinhos para alguém que, por fim, tanto nos dececionou? Anos depois, custa tanto a entender que, contra a memória, queremos acreditar que aquela não era a nossa caligrafia.

Há uma certa dimensão do presente que só pode ser entendida no exato momento em que acontece. Mais tarde, a informação suplementar que se possui pode favorecer o enquadramento, a compreensão teórica, mas nunca será suficiente para se conseguir apreender com total discernimento o que foi estar lá.

É por isso que as revistas velhas possuem uma sabedoria própria, que só pode ser encontrada nelas e que, por esse motivo, é rara. Eram as revistas da atualidade. Era a atualidade. Nas revistas velhas, ficou cristalizada a vivência do presente que se conseguiu retratar. Só naquele momento poderia ser captada daquela forma. Os penteados são apenas uma das múltiplas atrações dessas páginas. Os valores ficaram expressos na maneira como se escreveram certas frases, na escolha de adjetivos. E há os nomes de pessoas desconhecidas que são apresentados como importantes, como cultura geral; e há a autoconfiança das fotografias, rostos famosos que nunca vimos, a ostentarem uma eloquência invulgar. Folhear essas revistas, mostra-nos que uma parte da verdade daquele tempo nunca se concretizou.

Quando aquelas páginas chegaram à tipografia, havia certezas gigantes, sólidas como aço, e que, mesmo assim, se dissolveram na passagem dos anos. Essa é a sabedoria das revistas velhas: um dia, todas as certezas que nos rodeiam serão relativizadas. Um dia, seremos desconhecidos até de nós próprios. Estamos aqui, isto é tudo e, no entanto, alguém está a ver-nos de longe, com nostalgia, curiosidade e incompreensão.