AWAKENING de Weronika Anna Rosa no Hotel Tivoli

Por Susana Jacobetty

Fotografia João Bettencourt Bacelar

AWAKENING
Weronika Anna Rosa x Tivoli Avenida Liberdade
13 de março — 31 de agosto

No lobby do Tivoli Avenida Liberdade, encontramos um conjunto de formas suspensas que lembram sombras de plantas ampliadas para uma escala quase arquitetónica. A instalação AWAKENING, da artista Weronika Anna Rosa, parte de um território onde se cruzam arte contemporânea, investigação científica e memória botânica, para propor uma reflexão discreta mas insistente sobre a fragilidade do mundo natural.

O projeto nasce de um trabalho prolongado de observação e arquivo. A artista recorreu a herbários históricos, estudos de campo e dados da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas para identificar plantas que desapareceram ou estão em risco em Portugal. A partir dessa investigação, constrói imagens de grande formato, pintadas sobre tecido, onde as espécies surgem reduzidas a silhuetas depuradas, quase espectrais. Suspensas no espaço, estas figuras transformam-se em presenças silenciosas que suscitam um olhar para aquilo que normalmente permanece fora do campo de atenção.

“Criei peças contemplativas para se pode parar e refletir sobre o presente”.

Weronika Anna Rosa

Sem recorrer a qualquer discurso didático, AWAKENING aproxima-se de um gesto de cuidado. O desenho, a pintura e a ampliação das formas funcionam como estratégias de registo e de preservação simbólica. Em vez de representar a natureza como cenário, Weronika Anna Rosa trata cada planta como um retrato, sublinhando a singularidade de espécies cuja existência está hoje ameaçada. O resultado é uma instalação que oscila entre o rigor científico e uma dimensão quase onírica, onde o espaço do hotel se converte num jardim suspenso, feito de transparências, sombras e sobreposições.

A intervenção foi pensada em diálogo direto com a arquitetura do edifício. Para o muxarabi foi criada a maior obra realizada pela artista até ao momento, uma pintura sobre tecido com mais de cinco metros de altura inspirada numa espécie considerada regionalmente extinta em Portugal. A imagem, colocada como um véu translúcido, deixa passar a luz e reforça a ideia de presença ausente que atravessa toda a instalação.

No lobby e no átrio principal, outras peças formam um percurso irregular, distribuído em diferentes alturas. As telas, realizadas em algodão orgânico português com tramas distintas, permitem jogos de transparência que fazem variar a perceção das formas conforme o movimento do visitante. A escolha de uma paleta contida, próxima de tonalidades naturais e terrosas, aproxima estas imagens de registos paleobotânicos ou de impressões fossilizadas, sugerindo um tempo longo, anterior à escala humana.

“Dependendo da intensidade da luz, e aqui a luz natural é muito importante, vemos uma transferência nos tecidos que permitem transpassar uma sombra para outra. A perceção das obras depende da intensidade do sol e do momento do dia”. 

Weronika Anna Rosa

O projeto inclui ainda desenhos preparatórios e estudos cromáticos que revelam a importância do desenho no método de trabalho da artista. Para Weronika Anna Rosa, desenhar não é apenas um passo intermédio, mas uma forma de compreender a estrutura e o comportamento das plantas, quase como um exercício de observação científica. Essa dimensão analítica convive com uma abordagem sensível, onde cada espécie é tratada como um organismo individual, com história própria.

AWAKENING prolonga a investigação que a artista tem vindo a desenvolver em torno das relações entre botânica, memória e crise ambiental, apresentada recentemente no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa. A nova instalação reforça essa linha de trabalho, deslocando-a para um contexto inesperado, o de um hotel histórico e, transformando um espaço de passagem num lugar de contemplação.

Nascida em Varsóvia em 1990, Weronika Anna Rosa vive em Lisboa desde 2016. Formada em História da Arte nas universidades de Varsóvia e de Lisboa, completou estudos artísticos em França e em Portugal, na Ar.Co e na Faculdade de Belas-Artes. A sua prática combina formação académica e influência de um ambiente familiar ligado à investigação científica, o que se reflete numa abordagem onde a observação rigorosa da natureza convive com processos de abstração e ampliação de escala.

Ao longo dos últimos anos, o seu trabalho tem sido apresentado em instituições como a Fundação Oriente ou a Society of Botanical Artists, em Londres, e tem explorado de forma consistente a relação entre representação artística e consciência ecológica, questionando a forma como o Antropoceno redefiniu a hierarquia entre o humano e o vegetal.

A exposição integra o programa Tivoli Art Collection Make Room for Masterpieces, iniciativa que desde 2022 tem vindo a convidar artistas a intervir no Tivoli Avenida Liberdade com projetos pensados para o espaço. Depois de nomes como Márcio Vilela, Esther Mahlangu, Bela Silva, Ana Trancoso ou Jorge Feijão, a instalação de Weronika Anna Rosa confirma a intenção de transformar o lobby do hotel num lugar de contacto direto com a criação contemporânea, sem perder a sua função quotidiana.

Em AWAKENING, esse encontro faz-se de forma silenciosa. Entre hóspedes, visitantes e transeuntes, as plantas suspensas permanecem imóveis, lembrando que a memória da natureza não desaparece de um momento para o outro, apenas se torna mais difícil de ver.