Antes, no tempo das minhas primeiras memórias, as bonecas ocupavam uma prateleira do móvel branco da sala. Eram uma espécie de família grande. Entre elas, recordo-me, por exemplo, da curiosidade das sete saias nazarenas. Essa boneca tinha um chapéu preto na cabeça, um fio de ouro, ouro de plástico, tinha uma camisa de quadrados pescadores, um avental e, claro, tinha sete saias que eu contava com a ponta dos dedos. A minha mãe explicava-me os detalhes e esse, as sete saias, é um dos que recordo até agora, até este momento. Agora, neste momento, a coleção da minha mãe já conta com centenas de peças: bonecas e bonecos. Continuam na sala, mas a minha mãe arranjou-lhes um móvel só para essa multidão colorida. Ocupam as vitrinas com as suas melhores roupas e são um pequeno mundo.
Cada boneco chegou de um ponto do espaçoe do tempo. Têm tamanhos diferentes, têm expressões diferentes no rosto e, para não se esquecer de todos os detalhes, a minha mãe já adquiriu o hábito de fazer anotações nas bases onde esses bonecos se sustentam.

Não sei que conversa poderá ter a boneca da Croácia com o casal de mexicanos, grandes sombreros, a irem ou a virem de uma festa de mariachis. Também não sei qual será o assunto entre os bonecos da África do Sul e da Finlândia, entre os índios dos Estados Unidos e a alentejana que segura uma pequena espiga de trigo, mas sei que a multidão de olhares fixos e alinhados na sala da minha mãe é um coro de significados. Às vezes, ela tem de desarrumá-los para limpar o móvel. Segura- lhes pela cintura com o indicador e o polegar e espalha- -os pela mesa, pelas cadeiras, por todo o lado. É difícil não acreditar que os bonecos apreciam essa pequena liberdade. Cada um deles fez uma viagem grande até chegar aqui, a esta sala de Galveias, e ficar a assistir à passagem dos dias. Acredito que, chegando de lugares tão distantes entre si, partilhem essa história.
A minha mãe não foi a todos esses países e, no entanto, imaginou-os através da sua coleção. Conheço-a, sei que não quereria deslocar-se a todos eles. Em muitos casos, basta-lhe a viagem que faz a olhá-los e a imaginar.
As minhas irmãs e eu trouxemos uma boa parte desses bonecos e, de cada vez que lhe entregamos um, temos consciência de que essa pequena figura, vestida com roupas novas, é o certificado que a nossa mãe esteve lá connosco porque somos uma extensão dela. Nascemos dela para sermos um pouco daquilo que ela é.

Essa coleção conta alguma coisa da minha mãe e eu, às vezes, penso no que acontecerá a todas aqueles bonecos quando ela lhes faltar. As minhas irmãs e eu teremos de tomar conta deles, teremos de dar-lhes o carinho e o sonho que a minha mãe lhes dá.
Não teremos dificuldade de fazê-lo. Nascemos dela para sermos um pouco daquilo que ela é.
Escrevo estas palavras em Seul. Pela janela, avisto enormes filas de trânsito. Acabou de escurecer e, por isso, os carros que se afastam são um manto de luzes vermelhas, os que vêm nesta direção são um gigante clarão branco. Há alguns dias, em Busan, comprei duas bonecas com hanbok, o traje tradicional coreano.
Por causa delas, aqui, imagino-me lá, a chegar a casa, a entregá-las à minha mãe, a vê-la sorrir.



