

© João Mariano – Fotografias do livro Guerreiros do Mar. Photographs from the book Guerreiros do Mar
Já passaram quase 33 anos desde aquele dia 5 de outubro de 1990, quando fomos (Teresa Cruz e João Castro) fazer as primeiras observações sobre os percebes nas rochas do Cabo de Sines. Este dia representa o início da prática de investigação do CIEMAR e dos estudos que neste laboratório temos feito sobre o percebe. Um amigo, colega e mentor permitiu este arranque: Jorge Araújo. O primeiro sonho com o CIEMAR foi do Jorge. Percebe é nome vulgar. O nome científico da espécie é Pollicipes pollicipes. Um crustáceo cirrípede, como as cracas e outros percebes. Não temos nome vulgar em português para este grupo de crustáceos, designado em inglês como “barnacles”. Um dos cientistas mais conhecidos em todo o mundo, Charles Darwin, estudou este grupo durante nove anos, a meio da sua vida (os “barnacle years”), e publicou quatro monografias 1,2 que ainda hoje são fundamentais para o estudo dos cirrípedes.

© Inês Lopes
No CIEMAR, os “barnacle years” duram desde aqueles idos anos 90 e culminaram na publicação de um artigo científico de revisão sobre o género Pollicipes3, que coordenámos e foi publicado em 2022. Este artigo foi também uma homenagem a uma cientista britânica, Margaret Barnes, que, em 1996, publicou uma extensa revisão sobre este género4 e que, no início do CIEMAR, nos apoiou, motivou e acarinhou. Durante estes nossos “barnacle years”, outro cientista britânico foi fundamental nos caminhos trilhados no CIEMAR, Stephen J. Hawkins, o Steve. E o que sabemos sobre o percebe? E o que não sabemos? O artigo de 2022 é precisamente sobre isto e levou-nos a uma viagem à volta do mundo, com início há milhões de anos.

Desenho a cores das quatro espécies de Pollicipes de Cristina Espírito Santo. Espécimes preservados em álcool de Pollicipes elegans (Ñuro,Peru) e de Pollicipes caboverdensis (Tarrafal, Santiago, Cabo Verde), espécime congelado de Pollicipes pollicipes (Berlengas, Portugal) e uma foto de um espécime fresco de Pollicipes Polymerus (Califórnia, EUA) foram utilizados para os desenhos.
Os primeiros fósseis de Pollicipes datam de há 80 milhões de anos, são do Cretácico Superior.
Hoje, sabemos que existem quatro espécies de Pollicipes, duas presentes no leste do Oceano Pacífico (P. polymerus – do Alasca, EUA, à Baja California, México, e P. elegans – da Baja California, México, até ao Peru) e duas no leste do Oceano Atlântico (P. pollicipes – do SW de Inglaterra e Bretanha, França, até Dacar, Senegal, e P. caboverdensis, endémica das ilhas de Cabo Verde). A espécie de Cabo Verde foi descrita por nós em 2015, numa descoberta fantástica.
Desde a lista e descrição original de Darwin das espécies de Pollicipes que não havia algum acrescento de uma nova espécie. Porém, ali estava, uma espécie nova, apanhada por pescadores, vendida no mercado e consumida em restaurantes, e afastada da espécie europeia e de África continental (P. pollicipes) há milhões de anos. Todos os percebes têm uma vida dupla, uma vida larvar, livre e à mercê das correntes, e uma vida séssil e agarrada às rochas. O último estado larvar (cypris) fixa-se às rochas pela cabeça, através de um cimento produzido pelas antenas, e sofre uma metamorfose, transformando-se em percebe juvenil. Podemos, assim, dizer que os percebes e as cracas passam a sua vida séssil a fazer o pino.

Ilustração Alexandra Grelha e Inês Lopes
No corpo do percebe (séssil) identificamos duas partes principais: a unha, com várias placas calcárias esbranquiçadas, e o pedúnculo, de cor castanho-escuro. É um corpo hermafrodita, com os dois sexos em simultâneo: a parte feminina está dentro do pedúnculo, enquanto a masculina está na unha. Dentro da unha, também é fácil observar apêndices articulados equivalentes às patas de outros crustáceos, designados como cirros, que não servem para andar ou nadar, mas para apanhar a comida (exemplo: plâncton) em suspensão na água do mar.
Os percebes fazem uma espécie de cópula, têm um pénis extensível que penetra na unha de outros percebes vizinhos e que fazem de “fêmea”. Mas essas “fêmeas” podem agir também como “machos” e, na espécie P. polymerus, já foi observada a cópula recíproca. Em resultado da cópula são produzidos milhares de ovos que ficam umas semanas dentro da unha do percebe “fêmea” até eclodirem em larva e iniciarem a sua vida planctónica. Quando regressam às rochas, as cypris fixam-se com elevada abundância a outros percebes (sobretudo no pedúnculo) e formam as típicas pinhas de percebe, que podem ser consideradas florestas animais. Se quisermos observar as florestas de percebes, temos de ir para locais muito agitados e expostos às ondas, e esperar pela baixa-mar para os podermos ver fora de água, ou então, mergulhar. Sabemos hoje que todas as espécies de percebe são pescadas e esta apanha é uma atividade de risco, com registos de morte de apanhadores e acidentes graves.

A intensidade da exploração varia com as espécies e os países. A gestão desta pesca também varia muito, desde uma ausência total de informação e de gestão (exemplo: Equador) a sistemas de cogestão sofisticados (exemplo: ilha de Vancouver, Canadá). A espécie mais explorada é P. pollicipes, um recurso económico muito importante, sobretudo em Espanha e Portugal. Há muitos anos que estudamos a pesca desta espécie em Portugal e discutimos a sua gestão. Recentemente, participámos num projeto europeu, “PERCEBES”, onde estudámos aspetos fundamentais da biologia dos percebes à escala europeia, e onde partilhámos conhecimento e experiência com cientistas, pescadores e técnicos da administração das pescas de Portugal, Espanha e França. Segundo os pescadores, a maior ameaça a este recurso é o furtivismo. Furtivismo consiste em pescar sem licença, ou com licença e sem cumprir as regras.
A maior esperança num sistema de gestão que permita uma apanha sustentável é a cogestão, gestão partilhada entre pescadores, cientistas, administradores e ONG. O melhor conhecimento que temos dá-nos esta esperança, com exemplos de boas práticas que chegam sobretudo da Galiza, mas também das Astúrias.

Percebe por Mafaldamg, Cascais, 2023. Fotografia João Bettencourt Bacelar.
A cogestão é também o sistema que melhor parece combater o furtivismo. Em Portugal, a primeira pescaria a ser cogerida é a apanha do percebe na Reserva Natural das Berlengas, tendo o CIEMAR/MARE participado em todas as etapas deste processo, desde os primeiros estudos no início deste século, até à integração, em representação da Universidade de Évora, no Comité de Cogestão desta pescaria (Portaria 309/2021, de 17 de dezembro). É um trabalho continuado, desafiante, de reunião e discussão, de resistência e não desistência, de partilha e procura de consenso.
Move-nos, como nos move o muito que ainda não perebemos.

© Inês Lopes


