
por RUI ARIMATEIA
Túlio Espanca nasceu em Vila Viçosa, numa casa da Rua do Angerino, no dia 8 de Maio de 1913. Filho de José de Jesus da Rocha Espanca (sapateiro de profissão) e de Maria Rosa Alberto. Nasceu na mesma casa onde a sua prima e madrinha, Florbela Espanca, tinha nascido em 1894. A casa referida é hoje inexistente, foi demolida por volta de 1940.
Em Vila Viçosa viveu temporariamente com a sua avó Joana Fortunata Espanca, numa casa do Largo Mariano Prezado, até à altura em que foi viver para Évora, com sete anos de idade. Muito importante é o pequeno excerto da autoria de Túlio Espanca retirado dos seus “Diários” ou “Memórias”, hoje integrados no seu espólio depositado na Biblioteca Geral da Universidade de Évora. O texto à frente apresentado é um depoimento escrito por um jovem, que na altura dos escritos tinha uma idade compreendida entre os 17 e os 22 anos, possuidor de reduzidíssimos estudos académicos, o que demonstra um aturado trabalho de leituras e de um exercício persistente da escrita.
É extremamente interessante acompanhar a evolução da linguagem escrita do autor, de ano para ano, observando nós a progressiva complexificação do seu pensamento e da sua escrita a par de um gradual desaparecimento de erros ortográficos e de palavras inventadas e por vezes sem nexo. A riqueza do seu depoimento e da sua visão é extraordinária e única para compreendermos o Alentejo dos inícios do século XX. Contudo, Vila Viçosa nunca deixou de estar bem instalada emotivamente no coração de Túlio Espanca, conforme podemos constatar pelo escrito de 1937:


DIA 16. Férias acidentadas.
Embarcados na camioneta da Empresa Martins, às oito e meia prefixas rodamos normalmente até Vila Viçosa o burgo natal e quartel -general das nossas pesquisas e aventuras. Eu e Sócrates íamos na perspetiva de visitar os locais arrabaldinos interessantes e todas as demais povoaçoes circunvizinhas com caracteristicas ou monumentos históricos dignos de apreço.
Achegados ao formoso vale viçoso que numa azáfama se elevava com permanentes melhoramentos e, após os cumprimentos protocolares absolutamente indispensáveis, munidos dum potente binóculo que pertencera ao Ministério do Ar Francês e duma máquina fotográfica «Nagel», rompemos pelos rochosos caminhos do Paraíso onde descansamos na veneranda ermida do Seculo XVI, contemplando a montanha agreste de penedos, ante o sussurro cristalino das águas do seu imenso vale. Descidos ás ruínas inermes do antigo convento dos Capuchos sob um calor abrasador, em respeito quási cenobítico perante umas paredes denegridas e robustíssimas na sua vetustez, evocamos a caridade simples dos monges anacoretas e o contraste das maldades dos terrenos.
Regressados, com demora nos revelins do Castelo, entrados pela Porta de Olivença e, olhando os pórticos ogivais de mármore branco do há muito derruído Paço do castelo de Homenagem, dos primeiros Duques de Bragança, abancamos na casa do tio João Maria defronte duma deliciosa sopa de tomate, seguindo-se variadissimas espécies de frutas.

Após uma hora de repouso, fomos visitar o velho Álamo, viveiro afamado e mui querido do Apeles e da Florbela, não o conhecendo meu irmão e, na volta, com o Porfírio Teotónio percorremos minuciosamente o Bairro Operário feliz criação dum grande homem – Ramalho Ortigão – presidente da câmara de Vila -Viçosa.

De volta a casa tivemos a agradável surpresa de encontrar o nosso grande amigo Manuel Cordeiro, furriel – mecânico do Grupo de Aviação Républica, Amadora, que também se encontrava de licença em casa dos pais, humildes pessoas de bem.
Deliberado sem delongas um passeio pedestre a Borba, ridente vila transtagana, cognominada a Sintra do Alentejo, comendo velozmente uns feijões com batatas, partimos numa admirável disposição de espírito, não sem termos subido ao cômoro e ermida de São Bento, despedir da velhinha terra dos nossos avoengos.
Atalhando caminho pela Tapada -Real, admirando o monumental pórtico da mesma, do tempo de D. João V, metemos à estrada e, sem novidade de maior entrámos na pitoresca povoação afamada pelos seus vinhos, seus arrabaldes e pela sua fonte das Bicas.
DIA 17.
Hás oito e meia eu e Manuel entramos no lago dos Agostinhos tomando a banhoca matinal. O Sócrates alegando imperícia em natação ficava como sempre, admirando os nossos mergulhos de peixe. Estava um dia lindíssimo duma visibilidade rara, apenas prejudicada pelo calor quási canicular. Com dois jumentos aparelhados e apetrechados para longa caminhada, iniciámos a marcha para Jerumenha, antiga vila e praça forte na idade-média, términus da nossa excursão.


