Por Susana Jacobetty
Fotografia Maria Jacobetty Bacelar e João Bettencourt Bacelar


No décimo aniversário do MAAT, a moda e a arte encontram-se numa exposição que aproxima o legado de Valentino Garavani da linguagem de Joana Vasconcelos.
Valentino Garavani entendia a moda como construção de imagem. Joana Vasconcelos trabalha a arte a partir da mesma consciência do poder da forma. VENUS – Valentino Garavani pelo olhar de Joana Vasconcelos, que inaugura a 2 de Outubro no MAAT, parte desse ponto de contacto.
A exposição, originalmente apresentada em Roma pela Fondazione Valentino Garavani e Giancarlo Giammetti, chega a Lisboa transformada pela escala e pela arquitectura do museu. Não é uma transposição: é uma nova leitura.
Mais de 40 criações de Valentino, entre alta-costura e prêt-à-porter, são colocadas em relação com obras de Vasconcelos. Algumas pertencem ao seu repertório mais reconhecível; outras foram concebidas especificamente para este projecto.



No centro está Valkyrie Venus de 2025, uma escultura têxtil monumental que concentra a ideia de legado que atravessa a exposição. O tecido, matéria fundamental da moda, deixa de vestir o corpo para ocupar o espaço.
A aproximação prossegue em Venus, da série Pinturas em Croché, também de 2025, inspirada num motivo de Josef Hoffmann presente numa colecção Valentino Garavani Haute Couture de 1989-90. E em Sacro Cuore, escultura têxtil suspensa.
Ao lado destas obras surgem Marilyn, os monumentais sapatos construídos com panelas e tampas, Jardim do Éden e Coração Independente #3. São obras que exemplificam uma prática fundada na transformação de objectos comuns em imagens de grande escala e imediata presença.









É nessa diferença de métodos que a exposição se torna particularmente interessante.
Valentino trabalhava a contenção através da construção perfeita da peça. Vasconcelos opera frequentemente pelo excesso, pela repetição e pela ampliação. Um pertence ao território do luxo; a outra apropria-se do quotidiano. Ambos, porém, compreenderam que a forma pode ultrapassar a função e tornar-se símbolo.
O MAAT oferece a este encontro uma arquitectura à altura da sua ambição. Nas Galerias 1 e 2, roupa e escultura deixam de ser objectos isolados e passam a ser elementos de uma composição espacial. O visitante percorre uma exposição em que o corpo, vestido, representado ou convocado pela escala, é uma medida constante.












A escolha de VENUS para abrir a programação do décimo aniversário do MAAT é igualmente significativa. Desde a sua inauguração, em 2016, o museu tem trabalhado na intersecção entre arte, arquitectura, tecnologia e cultura visual. A chegada de Valentino acrescenta a esse território uma disciplina que o museu raramente aborda de forma tão directa: a moda como património cultural e como linguagem artística.
Para Vasconcelos, o projecto inscreve-se numa carreira internacional marcada por grandes instituições e contextos arquitectónicos. Para Valentino, constitui mais uma leitura de um legado que continua a ultrapassar o universo estrito da moda.
O interesse de VENUS está precisamente aí. Não procura provar que moda e arte são a mesma coisa. Coloca-as no mesmo espaço e deixa que as diferenças façam o trabalho.
Em Lisboa, Valentino é visto através de Joana Vasconcelos. E Vasconcelos, confrontada com Valentino, revela uma outra dimensão da sua própria linguagem.
VENUS – Valentino Garavani pelo olhar de Joana Vasconcelos
MAAT, Lisboa
2 Outubro 2026 — 22 Fevereiro 2027

