A Senha da Liberdade por Ana Paula Amendoeira

Foi com enorme honra que propus, enquanto diretora regional de cultura do Alentejo e em conjunto com o Município de Grândola, a classificação de dois conjuntos de fonogramas relativos à senha do 25 de abril de 1974, que designei por “Senha da Liberdade”. São constiuídos por um total de 3 bobinas de fita magnética pertencentes à Fundação Mário Soares e Maria Barroso e à Rádio e Televisão de Portugal. Esta proposta que fui entregar pessoalmente com o Senhor Presidente da Câmara de Grândola no dia 29 de novembro de 2023 na Direção Geral do Património Cultural, Palácio Nacional da Ajuda, tinha também o objetivo simbólico de vir a ser classificada durante o ano de 2024, nos 50 anos do 25 de Abril.

Ilustração: Gabriel Sousa Fialho

Devido a atrasos que se prenderam também com todas as alterações que, entretanto, ocorreram no âmbito da administração pública da Cultura, nomeadamente com a extinção de organismos e a criação de outros, não foi possível que tal tivesse ocorrido. Foi, no entanto, e felizmente, possível que simbolicamente esta proposta desencadeasse a abertura de procedimento de classificação publicada em Diário da República de 25 de Abril de 2024! Entretanto este património viria a ser classificado oficialmente quase dois anos passados, com a publicação em Diário da República no passado dia 16 de fevereiro o Decreto 6/2026 que classificou estes bens móveis como “tesouros nacionais” também simbolicamente no ano em que passam 50 anos da nossa Constituição democrática.

Estes bens agora classificados são compostos por (a) uma bobina de fita-magnética (áudio) correspondente à gravação do programa Limite, da Rádio Renascença, que na madrugada de 25 de Abril de 1974 deu início às movimentações militares que culminaram no golpe de estado que pôs fim à ditadura; (b) duas bobinas, de fita-magnética (áudio) com a gravação do Primeiro Encontro da Canção Portuguesa, realizado a 29 de março de 1974, no Coliseu dos Recreios, cuja importância reside em contextualizar a escolha de Grândola, Vila Morena, de José Afonso, como senha da revolução.

O documento fonográfico (a) pertence à Fundação Mário Soares e Maria Barroso e foi ali depositado pelo seu autor, sonoplasta, Manuel Tomaz, é a gravação da secção do programa “Limite” que serviu de senha para o início das movimentações militares do golpe de Estado de 25 de abril de 1974 com o seguinte conteúdo por ordem sequencial: 1. Leitura da primeira quadra da canção “Grândola, Vila Morena”; 2. reprodução da canção Grândola, Vila Morena; 3. Leitura da primeira quadra da canção Grândola, Vila Morena; 4. Efeitos sonoros a acompanhar a leitura, feita por Leite de Vasconcelos, de dois poemas de Carlos Albino (“Geografia” e “Revolução Solar”); 5. Canção Coro da Primavera de José Afonso. A senha tem um total de 11 minutos e 33 segundos. A bobina de fita magnética é a que foi usada na emissão há 52 anos.

O documento fonográfico (b) pertence à RTP, foi também gravado por Manuel Tomaz, técnico de som com a colaboração de José Videira e Jean Benoit. É constituído por duas bobinas com a gravação sonora integral do “Primeiro encontro da Canção Portuguesa” acima referido e permite enquadrar a escolha da canção Grândola, Vila Morena para “ Senha da Liberdade”.

Cartas enviadas por José Afonso à Direção da SMFOG aceitando o convite
e dando indicações sobre a sua participação. Arquivo Municipal de Grândola

Iniciei e desenvolvi este processo com o objetivo, conseguido, de que o Estado Português reconhecesse estes bens, um conjunto de gravações originais, únicas, portadoras de memórias coletivas que representam e testemunham factos nacionais relevantes, constituindo bens culturais móveis, primeiro património fonográfico nacional no âmbito da nossa Lei de Bases do Património Cultural (artigos 55 e 89). O Estado Portugues reconheceu o elevado interesse patrimonial deste conjunto de bens, detentor de memória, autenticidade, raridade, singularidade e qualidade intrínseca que justificaram plenamente a sua classificação.

Cartas enviadas por José Afonso à Direção da SMFOG aceitando o convite
e dando indicações sobre a sua participação. Arquivo Municipal de Grândola

A gravação do primeiro encontro da canção portuguesa em 29 de março de 1974 justifica-se aqui por enquadrar a escolha de Grandola Vila Morena como senha. Durante esse encontro agentes da PIDE estavam na sala do Coliseu e assistiram ao momento emotivo em que se cantou esta canção de José Afonso com grande emotividade e força, mas não intervieram visto que esta canção não constava da lista das obras censuradas pelo regime. E foi justamente porque Grândola Vila Morena não estava censurada que veio a ser escolhida para senha do 25 de Abril em vez da primeira escolha Venham mais cinco também de José Afonso e que, essa sim, estava proibida. Por testemunhos de vários protagonistas entre os quais o Comandante Almada Contreiras (entretanto falecido), nas vésperas do 25 de abril foi decidido que finalmente a canção escolhida seria Grândola, Vila Morena que tão importante tinha sido no encontro de 29 de março e não levantaria suspeita por não estar proibida.

Cartaz de divulgação da participação de José Afonso na sessão incluída nas comemorações do 52º aniversário da SMFOG em 1964

Esta era a Senha que Fernando Salgueiro Maia esperava ouvir, em Santarém, naquela madrugada, para sair com a sua coluna para Lisboa com o objetivo de terminar com “o estado a que isto chegou”. O que tem a Senha da Liberdade a ver com o Alentejo? Tudo. Em 1964, José Afonso é convidado para participar em espectáculo de aniversário dos 52 anos da Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense (Música Velha) conforme cartaz que aqui se reproduz, bem como as cartas de José Afonso que constam do arquivo municipal.

Após o concerto, que decorreu com muita participação e emoção e onde também participou Carlos Paredes, José Afonso escreve uma carta de agradecimento à direção da SMFOG e oferece aos seus sócios, nessa carta, o poema Grândola Vila Morena, terra da fraternidade, devido ao nome da sociedade musical fraternidade operária.

Ilustração: Gabriel Sousa Fialho

Só sete anos depois esse poema seria musicado e gravado em Paris com a produção e arranjos de José Mário Branco e a participação de Francisco Fanhais, Carlos Correia (Boris) e José Afonso. O que é gravado em Paris, em 1971, é já a terceira versão do poema inicial e este é transformado em moda alentejana por sugestão e preparação de José Mário Branco que a adapta com a estrutura do cante.

É por essa razão que a Senha da liberdade é uma moda do Alentejo, é Cante, património da Humanidade, que Salgueiro Maia, um alentejano de Castelo de Vide, esperava ouvir naquela madrugada que todos esperavam em conjunto com Sophia e que hoje é património fonográfico de todos nós. O primeiro!

Que a Liberdade seja sempre um valor maior!

As Portas que Abril Abriu (2024)
Mestre Xico Tarefa, conceituado e carismático Mestre Oleiro de Redondo e de Portugal foi por mim convidado a elaborar uma obra que materializasse os valores democráticos através do seu talento artístico como forma de comemorar os 50 anos da revolução de Abril. Esta obra integrou a Exposição “Saber Fazer Abril Sempre”, Alexandre Correia