Os Últimos Poetas do Alandroal

No panorama literário português, a vila de Alandroal raramente aparece ligada aos circuitos da poesia erudita, mas mantém uma tradição poética singular assente na oralidade e na vida comunitária. Ao longo de gerações, a expressão poética no concelho desenvolveu-se sobretudo através da décima popular, dos desafios cantados e do improviso, formas transmitidas em convívios, festas e encontros rurais. A própria autarquia reconhece esta herança como um dos traços identitários mais marcantes da região. Para o presidente da câmara, João Maria Grilo, a persistência de poetas populares justifica a designação simbólica de “Terra de Poetas”, sublinhando a importância de preservar uma tradição que continua viva fora dos meios literários formais.

Manuel josé Valadas “Mancha”. Fotografia João Bettencourt Bacelar, Alandroal 2026

Entre os nomes recordados pela memória local destaca-se Anastácio Francisco Pires, poeta popular do século XX ligado à prática da décima, a par de outros autores que mantiveram a poesia ligada ao quotidiano, ao humor e ao comentário social. Também Vítor Pisco identifica o Alandroal como zona de confluência de tradições do cante alentejano, onde poesia e música surgem frequentemente associadas. A existência, no século XVIII, do pensador Bento de Sousa Farinha recorda que o concelho produziu igualmente cultura erudita, mas o que o distingue é a continuidade de uma poesia comunitária num tempo em que a literatura se concentra nas cidades. Nomes como Joaquim José Pacheco, Domingos José Pinto, Manuel José Cotovia, Moisés José Ramalho, António João Padilha, Francisco Ferreira Moreira, Inácio José Melrinho, António José Carmona, José António Patacho, Raúl Mendes Grilo, Manuel José Valadas, João de Jesus Veva, Manuel Inácio Leitão, António Romão Potra, Jacinto José Cotovio, Inácio Marcos Leitão, António Maria Serra, Joaquim António Ramalho e Sebastião Inácio Grilo, testemunham uma rara permanência cultural onde a poesia continua a existir como voz coletiva e não apenas como literatura escrita.

Manuel Inácio Leitão “Pisco”e João António Carriço Grilo “Carriço”.
Fotografia João Bettencourt Bacelar, Hortinhas, Alandroal 2026