Pavia: Vila de S. Paulo, Terra dos Coutinho

Localizado junto ao porto da ribeira de Tera, o primitivo recinto pré-histórico não foi aquele que deu origem ao atual núcleo urbano de Pavia. A fortaleza medieval implantou-se noutro outeiro vizinho, também perto da ribeira e dominante ao território envolvente. Desse primeiro núcleo acastelado medieval, que a tradição fez senhor o italiano Roberto de Pavia, nada resta, tal como da primitiva igreja ainda de evocação mariana, pertencente à Ordem de Avis nesses primeiros séculos cristãos. A povoação passou à posse da Coroa como terra reguenga e teve a primeira carta de foral outorgada pelo rei D. Dinis, em 1278. Em 1434, por carta régia de D. Duarte, o concelho e homens bons de Pavia, viram expressa a confirmação de todos os seus privilégios foros, liberdades e bons costumes de que sempre usaram. Em 1482, a vila será doada por D. João II ao fidalgo do seu conselho e alcaide-mor de Serpa, D. João de Melo, para pouco tempo depois (1486) o mesmo rei a doar a D. Vasco Coutinho, então Conde de Borba. Esta titularidade será posteriormente confirmada por D. Manuel I, em 1500, ano em que D. Vasco Coutinho, abdica do senhorio de Borba a favor do Duque de Bragança, D. Jaime I, por troca do título de Conde de Redondo e Senhor de Pavia.

Do senhorio de D. Vasco Coutinho será decerto a reconstrução do perímetro fortificado da vila, já de desenho ortogonal, bem como a reforma da ermida gótica, tendo por modelo construtivo a ermida de São Brás de Évora. O tipo de arquitetura militarista do templo e a sua sintonia de alinhamento com a planta da fortificação parece indicar uma mesma contemporaneidade construtiva.Dessa fortificação tardo-gótica ainda se conservavam em 1758, segundo as memórias paroquiais, quatro portas (…) com os arcos das portas de pedra de cantaria lavrada ao picão (…) e por estas portas entrava o povo assim para ir à igreja como para ir ao Passo do Conde. À reforma da matriz de Pavia deve corresponder a nova evocação, no passo da conversão de São Paulo a caminho de Damasco, imagem que se mandou pintar ao eborense Francisco João, à volta de 1585.

A matriz de São Paulo demorou largos anos a ser concluída. Em 1534, o visitador do bispado de Évora encontrou a igreja ainda em obras de cobertura, pois não estava ainda em partes a abóbada cerrada de todo. Esta evolução estrutural tão distendida no tempo pode comprovar-se pelo desencontro dos botaréus circulares que envolvem as paredes exteriores da nave com a localização das mísulas de suporte da abóbada, pois se fossem soluções coetâneas o mais lógico seria a coincidência dos pontos de descarga dos tramos da abóbada com os contrafortes exteriores. Coincidente com o início da reforma da igreja de São Paulo é a emissão do foral de Pavia, em 1516. Esta carta de privilégio emitida pela chancelaria régia, mas paga pelos cofres municipais, antecede 7 anos a confirmação da posse do senhorio e alcaidaria de Pavia de D. João Coutinho. De facto, é durante este senhorio (1523-49) que Pavia se reforça do ponto de vista urbano com a finalização da matriz, o melhoramento do paço e fortaleza e a construção da ponte da ribeira de Tera. Estes melhoramentos justificam a presença de D. João III em Pavia no final de maio de 1536, vindo de Tomar.

O paço dos Coutinho, senhores da terra, constituía então o mais importante núcleo residencial de Pavia, decerto o mais monumental da vila na centúria de Quinhentos. Ainda na segunda década do século XVII aí se documentam os Condes em estadias demoradas, mas no século seguinte já acusava ruína, como refere o padre João Evangelista da Veiga nas suas memórias paroquiais: tem (o paço do Conde) as paredes mestras e abóbadas direitas e no mais esta demolido. Atualmente, desse primitivo edifício restam apenas algumas abóbadas de cruzaria nos pisos térreos. A ponte sobre a vizinha ribeira de Tera é a obra pública de maior monumentalidade no território de Pavia. Não existia em 1516, aquando da redação do Foral, mas dela se faz menção em 1621 quando se registou o óbito de um Gaspar Soeiro, falecido no monte alem da ponte. Já a Torre do Relógio, que, segundo a tradição, foi estalagem dos freires da Ordem de Avis, repete soluções comuns na época e tem na vizinha vila do Vimieiro um equivalente conhecido.

Igreja Matriz de São Paulo (Igreja Paroquial): Templo do século XVI com traços
de arquitetura manuelina e mudéjar regional

Do lado oposto, a igreja da Misericórdia é obra instituída cerca de 1563 e onde já se dava sepultura aos irmãos na década seguinte (1576). Na envolvente do largo da Câmara também se situava o hospital, primeira instituição local dedicada ao tratamento de doentes acamados e que perduraria nos séculos seguintes. Neste largo situava-se ainda o pelourinho, símbolo da autoridade do senhor da terra (mais do que do município), e decerto obra manuelina erguida no contexto da publicação do foral da vila. Foi apeado em 1873, tendo os seus degraus e fuste marmóreos sido reaproveitados nas obras de beneficiação da Fonte da Vila realizadas três anos depois.

A matriz de São Paulo, centro de celebração da vida, da exaltação da fé, e da aceitação da morte. Um ciclo que começa na pia batismal, passa pelo altar e termina numa cova no interior da igreja, no adro da igreja ou até Porta do Sol. Nesse tempo morria-se cedo. A mortalidade infantil era elevadíssima e a morte de “anjinhos” (crianças ainda de colo) era bastante frequente. A morte por vezes aparecia de forma “súbita” ou “apressada”, em regra motivada por doenças infeciosas para as quais não havia ainda profilaxia disponível. Morria-se de acidentes no trabalho, na lavoura, nos fornos da cal, ou até nos pegos da ribeira. E como ninguém celebrava o seu aniversário é muito comum nos registos da época a expressão pouco mais ou menos para fixar a idade.

Nos registos de batismo, casamento e óbito encontram-se os protagonistas desse quotidiano quinhentista. Os nomes repetem-se, ao ponto de aí se mencionarem, por manifesta economia textual, os indivíduos associados a grupos familiares numerosos: os Vidigal, os Conde (de alcunha), os Arnau, os Guisado, os Vieira, os Carrasco, os Prata.

Muitos moravam em montes e herdades, sem variação toponímica ao longo dos séculos. Outros, a maioria, viviam na malha urbana extramuros, alguns “junto ao muro”, outros “ao postigo de Avis”, na Estalagem, na Rua Velha e na Rua Nova. Uns tinham cargos respeitados, como era o caso de Francisco Rodrigues, “mestre dos meninos” (professor primário); outros eram apenas conhecidos pela alcunha, como o Balancia ou o Espicha; outros, ainda, tinham funções muito particulares e decerto socialmente muito estimadas, como um certo mestre estrangeiro de nome Joanes Elabian, relojeiro, já no final desse século (1595). Prova ainda esta dinâmica vivida em Pavia no século XVI o facto de existirem em 1551 três confrarias instituídas na vila com capelão próprio – a de Nossa Senhora, a do Mártir São Sebastião e a do Santo Sacramento. A devoção observada na matriz não parou de aumentar durante todo o século XVI, assim justificando a provisão do Arcebispo de Évora, D. Teotónio de Bragança, para que a igreja de Pavia tivesse ao seu serviço um “cura coadjutor” a partir de 1597. Assim era então Pavia, vila de S. Paulo, terra dos Coutinho.