Festa da Santa Cruz

Na pequena povoação da Aldeia da Venda, no concelho de Alandroal, sobrevive uma das mais singulares expressões da religiosidade popular portuguesa: o Cântico ao Horto das Oliveiras, núcleo central das Festas da Santa Cruz, que constitui um ritual comunitário de grande complexidade simbólica, onde se cruzam tradições pré-cristãs, devoção católica e antigas formas de organização social rural. Celebrada todos os anos no mês de maio, a cerimónia mantém uma estrutura rigorosa, transmitida oralmente ao longo de gerações, e raramente alterada apesar das profundas transformações do mundo rural alentejano.

Grupo: Mordoma, cantadeiras, madrinhas e Cuca Roseta como Madanela. Fotografia Susana Jacobetty, 2026

A festa apresenta características que apontam para uma origem anterior à plena cristianização da região. A tradição popular associa o ritual a antigos ritos de passagem juvenil, nos quais rapazes e raparigas em idade de casar se apresentavam publicamente perante a comunidade.

As raparigas surgiam vestidas de branco, sinal de pureza e disponibilidade para o matrimónio, enquanto os rapazes empunhavam armas cerimoniais, símbolo de força e virilidade. Com o tempo, este modelo foi reinterpretado à luz da narrativa cristã, conservando a estrutura original mas substituindo o seu significado por uma dramatização de penitência e redenção.

Sofia Roques, Madanela 2026. Fotografia João Bettencourt Bacelar

No centro desta continuidade está Balbina Bexiga, atual ensaiadora e guardiã da tradição. Antiga cantadeira, participou ativamente entre os 15 e os 20 anos, integrando desde cedo o núcleo vivo da festa. A sua trajetória acompanha a própria evolução do ritual, de participante a responsável máxima pela sua encenação. Quando a figura da ensaiadora desapareceu, Balbina assumiu, quase por inevitabilidade orgânica, essa função, assegurando até hoje a transmissão rigorosa de gestos, cantos e códigos, numa lógica de preservação que é simultaneamente resistência e reinvenção.

Chegada do grupo da Mordoma ao “largo do encontro”. Aldeia da Venda, 1985. Livro: Religiosidade Popular no Alentejo de J. A. David de Morais, Edições Colibri, 2010

A sua memória fixa também um tempo em que a chamada “Casa da Cruz” se erguia dentro de uma habitação particular, transformada anualmente por um labor coletivo intenso. “Montava-se o céu”, recorda-se, forravam-se as paredes com colchas antigas, organizava-se o espaço com uma minúcia quase cénica. Era um trabalho exigente, concentrado nos dias que antecediam a festa, mobilizando a comunidade num esforço partilhado que transcendia a dimensão religiosa.

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Festa da Santa Cruz, em Ferreira de Capelins, década de 40, século XX. Grupo da Madanela e grupo da Mordoma, empunhando a Santa Cruz, acompanhadas pelas madrinhas, cantadeiras e atiradores. Livro: Religiosidade Popular no Alentejo de J. A. David de Morais, Edições Colibri, 2010

Essa dimensão coletiva era, aliás, uma das marcas estruturantes da celebração. Até há poucos anos, rapazes e raparigas participavam em conjunto, num sistema de complementaridade simbólica e prática.

Os primeiros, vestidos de fato e um grande laço branco com flores de laranjeira na lapela, empunhavam armas cerimoniais carregadas com pólvora e confetis, um elemento de forte carga performativa e ancestral, enquanto as raparigas assumiam o protagonismo vocal e coreográfico, de branco e a ouro, cozido no próprio dia aos vestidos, por suas mães. A prática, conhecida das autoridades e historicamente pacífica, assentava numa tradição consolidada e num saber empírico transmitido entre gerações.

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Grupo de atiradores, década de 80, século XX.

O laço que os atiradores usam na lapela é sempre oferecido pelas cantadeiras, um por cada uma e, pela Mordoma e Madanela, que oferecem dois cada.
Mariana Montalto, Mordoma com a Santa Cruz, dois atiradores e Teresa Moreira, bandeira. Década de 80, século XX, Aldeia da Venda.

A relativamente recente intervenção de uma autoridade local, invocando a legislação sobre armas, veio, contudo, alterar esse equilíbrio. O afastamento dos rapazes rompeu uma dinâmica comunitária antiga. Mais do que uma questão de segurança, trata-se aqui de uma fratura simbólica, a interrupção de um sistema ritual onde cada elemento desempenhava um papel específico na construção do significado coletivo. Hoje os rapazes foram substituídos pelos pais das raparigas.

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Chegada do grupo da Mordoma ao “largo do encontro”. Aldeia da Venda, 1985. Livro: Religiosidade Popular no Alentejo de J. A. David de Morais, Edições Colibri, 2010

O etnógrafo J. A. David de Morais, na obra Religiosidade Popular no Alentejo, refere que a Festa da Santa Cruz chegou a realizar-se em cerca de quinze aldeias do Alentejo profundo, subsistindo actualmente apenas na Aldeia da Venda, onde teria atingido a sua forma mais elaborada. O elemento central da encenação é a conversão de Maria Madalena, figura representada localmente pela designação popular de Madanela, personagem que conduz a parte penitencial do ritual.

Mordoma com a Santa Cruz, Madanela com o Sudário, madrinhas e cantadeiras, Aldeia da Venda, 2026. Fotografia João Bettencourt Bacelar

Segundo a tradição oral, ao ver Cristo a caminho do Calvário, Madalena limpa-lhe o rosto ensanguentado com um pano onde fica impressa a sua face. O gesto desencadeia o arrependimento da pecadora, que passa a acompanhar simbolicamente o sofrimento de Cristo, pedindo perdão pelos seus pecados. Este episódio estrutura todo o cerimonial, que se desenrola pelas ruas da aldeia em forma de dramatização cantada, marcada por versos tradicionais transmitidos de geração em geração.

O ritual é executado por dois grupos simétricos, compostos por raparigas e rapazes da comunidade. Num dos cortejos surge a Mordoma, vestida de branco, transportando a Cruz, no outro segue a Madanela, trajada de negro, levando o Sudário com a imagem de Cristo. Cada grupo integra cantadeiras, madrinhas e atiradores. As cantadeiras marcam o ritmo com pandeiretas ornamentadas, enquanto os disparos pontuam o percurso com uma solenidade que oscila entre a festa e a liturgia.

A oposição cromática reforça o simbolismo, flores, ouro e cores vivas acompanham a Cruz, tons escuros e prata seguem a Madanela, sinalizando o contraste entre alegria e penitência.

CÂNTICOS:

“Vai a Senhora Mordoma

Buscar a cruz ao altar

Façam as três reverências

Que Deus lhas há-de pagar”

“…Aqui vai a Madanela

Com o seu cabelo pelas costas

Vai pedir a deus perdão

De joelhos e mãos postas”

O cortejo da Mordoma parte da chamada “Casa da Cruz”, situada na zona mais alta da aldeia, enquanto o da Madanela inicia o percurso no extremo oposto. Ambos convergem para o local conhecido como “Encontro”, espaço que simboliza o Calvário. Aí ocorre o momento central do ritual, o beijar da Cruz e a troca entre a Cruz e o Sudário. O gesto representa a absolvição da pecadora, que, purificada, regressa transportando a Cruz, sinal de reconciliação e redenção.

O nome Madanela, forma popular de Madalena, tem um registo antigo na literatura portuguesa, surgindo em textos de autores como Gil Vicente, Luís de Camões ou, já no século XX, em “Terras do Demo” de Aquilino Ribeiro, o que sugere uma origem erudita posteriormente assimilada pelo uso popular.

Maria Tecla Nobre, Madanela, década de 40, século XX. Aldeia da Venda e Emerenciana Leitão, Mordoma, década de 60, século XX. Aldeia da Venda

A complexidade cénica do Cântico aproxima-o mais de um teatro ritual do que de uma simples procissão. Casas decoradas, altares improvisados, mastros, bandeiras, anjos e ruas cobertas de rosmaninho transformam a aldeia num espaço simbólico temporário. A Casa da Cruz, ornamentada com colchas antigas, tecidos brancos e imagens devocionais, funciona como centro sagrado, preparado segundo regras transmitidas pelas chamadas mestras, mulheres que conservam a memória e a disciplina da tradição. A presença de crianças vestidas de anjos, a distribuição de pétalas ao longo do percurso e a divisão rigorosa entre os dois cortejos reforçam a dimensão ritual, onde cada gesto possui significado preciso e cada participante desempenha uma função definida.

Mariana Montalto, Mordoma, década de 80, século XX.
Cantadeiras, madrinhas, Mordoma e Madanela. Laura Padilha, 17 anos (cantadeira), Carlota Rodrigues, 14 anos (madrinha), Catarina Fialho, 15 anos (madrinha), Leonor Antunes, 18 anos (cantadeira), Sofia Roque, 21 anos (madanela), Leonor Rocha, 20 anos (mordoma), Débora Reis, 17 anos (cantadeira). Casa da Santa Cruz, Aldeia da Venda. Fotografia Susana Jacobetty, 2026

A presença de crianças vestidas de anjos, a distribuição de pétalas ao longo do percurso e a divisão rigorosa entre os dois cortejos reforçam a dimensão ritual, onde cada gesto possui significado preciso e cada participante desempenha uma função definida.

O Cântico ao Horto das Oliveiras continua a ser o momento mais esperado das Festas da Santa Cruz e um dos exemplos mais completos de religiosidade popular ainda vivos no Alentejo. Investigadores e visitantes deslocam-se todos os anos à Aldeia da Venda para observar uma tradição que, apesar do despovoamento rural e das mudanças sociais das últimas décadas, permanece praticamente intacta.

O Cântico ao Horto das Oliveiras continua a ser o momento mais esperado das Festas da Santa Cruz e um dos exemplos mais completos de religiosidade popular ainda vivos no Alentejo. Investigadores e visitantes deslocam-se todos os anos à Aldeia da Venda para observar uma tradição que, apesar do despovoamento rural e das mudanças sociais das últimas décadas, permanece praticamente intacta.

Mais do que uma celebração religiosa, trata-se de um ritual identitário. A cada maio, a comunidade repete uma encenação que atravessou séculos: dois cortejos que partem separados, encontram-se no centro da aldeia e regressam unidos. Nesse movimento circular reconhece-se não apenas a narrativa cristã da redenção, mas também a persistência de uma memória coletiva que continua a dar sentido à vida comunitária no interior do Alentejo, afirmando-se como património vivo.