Festival Internacional de Jardins de Ponte de Lima ou a Arte de Cultivar o Tempo

Por Susana Jacobetty
Fotografia João de Bettencourt Bacelar

Carlos Lago, João Mimoso de Morais, Paulo Barreiro de Sousa, Pedro Machado, Francisco de Calheiro e Menezes, Gonçalo Rodrigues e Lucia Soares Pereiras

Os jardins na mais antiga vila de Portugal, ocupam um lugar de destaque na paisagem, fazem parte da própria identidade do território. Enquanto muitas localidades portuguesas cresceram em torno da arquitetura, da indústria ou da expansão urbana, Ponte de Lima construiu uma relação rara com a ideia de jardim como expressão cultural.

Celebrar o Dia Internacional dos Jardins Históricos é, neste contexto, mais do que assinalar uma data. É recordar que os jardins pertencem à mesma família patrimonial das bibliotecas, dos museus ou dos monumentos. Mudam apenas os materiais. Em vez de pedra, utilizam árvores. Em vez de tinta, trabalham com flores, água, sombra e estações do ano.

Existe uma tendência para olhar os jardins como cenários agradáveis ou espaços de lazer. No entanto, os grandes jardins sempre foram lugares de pensamento. Cada época projetou neles as suas ambições, os seus ideais de beleza e a sua relação com a natureza. O jardim renascentista procurava a ordem. O jardim romântico celebrava a emoção. Os projetos contemporâneos interrogam-se sobre ecologia, biodiversidade e sobrevivência climática.

É precisamente essa evolução que torna o Festival Internacional de Jardins de Ponte de Lima um fenómeno singular. Ao contrário de muitos eventos culturais que vivem da repetição, aqui o jardim surge como território de experimentação. Todos os anos novas ideias ocupam o espaço, transformando a paisagem numa espécie de laboratório ao ar livre onde arquitetura, ciência, arte e ambiente dialogam sem fronteiras rígidas.

Entre os projetos apresentados no Festival, este ano com o tema Jardins de Sonho, o SPONGE Garden – Smart Permeable Oasis Nurturing Green-Blue Ecosystems, concebido por Cristina Calheiros, em colaboração com a arquiteta Maria Luís Antas de Barros e, com as investigadoras Isabella Pereira da Costa e Bilge Bas, sintetiza de forma particularmente eficaz uma das grandes preocupações do nosso tempo, a água.

O nome remete para o conceito de Cidade Esponja, desenvolvido para responder aos efeitos das alterações climáticas e à crescente pressão sobre os sistemas urbanos. Mas aquilo que poderia ficar reduzido a um exercício técnico ganha aqui uma dimensão sensorial. O visitante atravessa estruturas, percorre zonas húmidas, observa jardins de chuva, superfícies permeáveis e vegetação adaptada aos ciclos naturais da água.

O mais interessante não é a tecnologia implícita no projeto, mas a forma como essa tecnologia desaparece para dar lugar à experiência.

Os melhores jardins sempre funcionaram assim. Ensinam sem parecer que ensinam. Transmitem conhecimento sem recorrer ao discurso expositivo. A aprendizagem acontece através do percurso, da observação e da descoberta.

Talvez seja essa a razão pela qual os jardins continuam a resistir ao tempo, permanecem entre os poucos lugares onde o ritmo é determinado pela natureza e não pela velocidade da informação.

Ponte de Lima compreendeu isso há muito tempo. E é precisamente essa relação persistente entre cultura e paisagem que distingue a vila no panorama português. Não apenas pela beleza dos seus jardins, mas pela capacidade de reconhecer que um jardim nunca é apenas um jardim. É uma forma de imaginar o território. E, em última análise, uma forma de imaginar o futuro.

Cristina Calheiros, Pedro Machado, Francisco Calheiros, Paulo Barreiro de Sousa, Maria Luís Antas de Barros e Susana Jacobetty

Maria Luís Antas de Barros e Cristina Calheiros

Francisco Caldeira Cabral

Corina Porro