Por Susana Jacobetty

Há peças que se limitam a representar o mundo. E há outras que o interrogam. Um Julgamento, apresentado no Centro Cultural de Belém, integra essa rara categoria de espetáculos que recusam oferecer respostas fáceis e preferem colocar o espectador perante as suas próprias convicções.
Na conferência de imprensa que antecedeu a estreia, estiveram presentes a encenadora Christiane Jatahy e os três atores em palco, Wagner Moura, Júlia Bernat e Danilo Grangheia, num encontro que acabou por revelar muito da filosofia que sustenta a criação deste projeto.
Inspirado em Um Inimigo do Povo, de Henrik Ibsen, o espetáculo não pretende adaptar o clássico, mas prolongá-lo. Como explicou Christiane Jatahy, trata-se de “um novo texto”, construído a partir da pergunta: o que acontece depois da história de Ibsen? Dessa premissa nasce um tribunal onde o próprio público é chamado a decidir o destino de Thomas Stockmann.
É talvez esse o gesto mais ousado da peça. Em cada apresentação, onze espectadores são escolhidos aleatoriamente para integrar um júri que, no final, decide se a personagem é culpada ou inocente. O resultado nunca é previsível e transforma cada sessão num acontecimento único.
Na conferência, Serge Rangoni diretor artístico do CCB, resumiu a essência do espetáculo ao afirmar que a obra vive de “uma série de diálogos interligados” e que, mais do que oferecer respostas, coloca “as perguntas necessárias”. Essa ideia atravessa toda a encenação. O conflito deixa de ser apenas entre personagens, instala-se dentro da própria plateia.
Wagner Moura regressa ao teatro depois de mais de quinze anos afastado dos palcos. Explicou que continua a considerar-se “um ator de teatro” e confessou que cada regresso representa uma espécie de reencontro consigo próprio:
“Quando volto ao teatro, é como se tivesse um reboot no meu HD. Entendo outra vez porque comecei a fazer isto.”


Júlia Bernat, Danilo Grangheia, Christiane Jatahy e Wagner Moura. fotografia João Bettencourt Bacelar
A sua interpretação evita qualquer heroísmo simplista. O Stockmann que constrói é um homem que insiste na verdade, mas confrontado com dilemas sociais, económicos e ambientais que tornam impossível qualquer julgamento linear.
Ao longo da conversa com os jornalistas, Wagner Moura insistiu numa ideia que parece resumir o espírito da peça: “A verdade acabou.” A frase que surge também no principio da peça, é uma provocação e diagnóstico de um tempo em que factos, narrativas e redes sociais competem permanentemente pela autoridade sobre a realidade.
Também Cristiane Jatahy recusou transformar o espetáculo num manifesto político. Pelo contrário, explicou que o objetivo era “trazer as perguntas” e ouvir “como o público hoje dialoga e reage a esse texto”. Todos os lados do conflito encontram argumentos, nenhuma posição é apresentada como absoluta.
Júlia Bernat, que interpreta Petra, filha de Thomas Stockmann, destacou precisamente essa dimensão coletiva da criação, sublinhando o diálogo permanente entre atores, dramaturgia e espectadores. Já Danilo Grangheia explicou que o processo de ensaios procurou equilibrar discursos opostos sem caricaturar qualquer das posições, permitindo que o debate permanecesse vivo até ao último instante.
Visualmente, Um Julgamento combina teatro e linguagem cinematográfica de forma orgânica. A imagem em direto, as câmaras e os dispositivos audiovisuais deixam de ser meros recursos técnicos para funcionarem como elementos dramáticos, quase como provas apresentadas perante o tribunal.
Mas a verdadeira força do espetáculo está fora da tecnologia. Está na coragem de devolver ao público a responsabilidade da decisão. No final, percebe-se que Thomas Stockmann talvez nunca tenha sido o verdadeiro réu. Quem acaba verdadeiramente julgado é cada espectador, confrontado com as suas ideias sobre democracia, verdade, justiça e responsabilidade coletiva.
Num tempo dominado pela polarização e pela velocidade da opinião, Um Julgamento recorda que o teatro continua a ser um dos poucos lugares onde ainda é possível pensar em conjunto. Último reduto de resistência à Inteligência Artificial e, talvez seja precisamente essa a sua maior vitória, transformar uma sala de espetáculos num espaço de escuta, dúvida e reflexão. O teatro permanece a única plataforma onde não há algoritmos capazes de substituir a presença. O improviso ou a emoção irrepetível que nasce do encontro entre atores e público.
Respondendo diretamente à questão colocada pela A MAGAZINE a Christiane Jatahy e Wagner Moura, sobre a forma como o público tem reagido ao julgamento que encerra cada apresentação. A encenadora explicou que os veredictos variam consoante a cidade, revelando diferentes sensibilidades perante os dilemas éticos da peça. Ainda assim, recusou atribuir um significado definitivo aos resultados, defendendo que o espetáculo só cumpre plenamente o seu propósito quando o público entra na sala sem respostas pré-fabricadas e aceita confrontar-se com as suas próprias convicções.
Wagner Moura respondeu que nunca dissociou a criação artística da sua visão do mundo. “Não gosto da palavra carreira. É a minha vida. Faço o que me move”, afirmou. Para o ator brasileiro, a arte continua a ser um espaço de intervenção e reflexão, mas também de liberdade, onde os projetos nascem tanto do compromisso com determinadas causas como do desejo genuíno de contar boas histórias. “Eu sou todas as personagens que interpreto, até Pablo Escobar”.




Júlia Bernat, Danilo Grangheia, Christiane Jatahy e Wagner Moura. fotografia João Bettencourt Bacelar
Video, Maria Jacobetty Bacelar

Wagner Moura. fotografia João Bettencourt Bacelar
UM JULGAMENTO – Depois do Inimigo do Povo, de Henrik Ibsen,
um projeto de Christiane Jatahy e Wagner Moura
Conceção e Direção Christiane Jatahy
Texto Christiane Jatahy, Lucas Paraizo e Wagner Moura Com Wagner Moura, Danilo Grangheia e Julia Bernat
e no filme Marjorie Estiano, Jonas Bloch e Salvador Moura
Participação Online Tatiana Henrique
Participação na apresentação portuguesa Cleo Tavares
Crianças no filme Antonio Falcão, Henry Soares Paes Leme e José Moura
Cenografia, Iluminação e Colaboração Artística Thomas Walgrave
Criação de Sistema de Vídeo Julio Parente
Desenho de Som e Mixagem Pedro Vituri
Operação de Som Diogo Magalhães
Operação de Vídeo Diego Avila
Direção Técnica Mickäel Marchadier
Coordenação de Produção e Digressão Henrique Mariano
Administração Lison Bellanger e Charlotte Pesle Peal (EPOC Productions)
Produção Axis Productions
Coprodução Centro Cultural de Belém (Lisboa, Portugal), Holland Festival (Amsterdão), Festival d’Avignon (França), Edinburgh International Festival (Escócia) e DeSingel (Bélgica)
Apoio UCLA’s Center for the Art of Performance e Instituto Guimarães
Rosa – IGR – Ministério das Relações Exteriores do Brasil

