

TODA A OBRA CRIATIVA É O RESULTADO DE UMA VISÃO PESSOAL, DE UM PONTO DE VISTA, DE UM “ÂNGULO” ATRAVÉS DO QUAL O ARTISTA ABORDA AS TEMÁTICAS QUE MOVEM A SUA OBRA. REALIZADORES, ENCENADORES, ACTORES, MÚSICOS, ARTISTAS, BAILARINOS, COREÓGRAFOS SÃO CONVIDADOS A DISSERTAR SOBRE O QUE OS INCLINA A FAZER O QUE FAZEM, COMO O FAZEM, PARA QUEM E PORQUÊ.

Como abordas um guião? Como o Anthony Hopkins que o disseca até à exaustão, lendo-o mil vezes e depois mais mil, garantindo que encontra sempre algo novo? Lês uma vez e com essa primeira impressão lanças-te logo numa pesquisa externa de google e livros e músicas e história e sensações? Ou assim que sabes que papel vais desempenhar, sem ainda ler o argumento, olhas primeiro para dentro, para ver se a personagem já te habita? Nada disto? Tudo isto?
Na verdade é um pouco de tudo isso. Eu sou muito intuitiva e gosto de explorar esse lado. A primeira vez que leio um guião deixo que a minha intuição lidere, e vou anotando quais foram as primeiras sensações, ideias, sentimentos. Não que isso signifique que seja o resultado final, de todo, mas sim o ponto de partida para uma construção que vai evoluindo. Depois entra a fase de pesquisar sobre a personagem e ao mesmo tempo ler o guião essas mil vezes. E é super interessante pois à medida que vou descobrindo a personagem internamente, e explorando o seu universo, essas camadas de informação vão acrescentando algo novo a cada nova leitura do guião. E cada nova leitura traz-nos sempre novas descobertas sobre a história e sobre as personagens. Por isso disseco o guião, até tudo estar esclarecido na minha cabeça e as minhas escolhas terem sido feitas.
E depois vem a outra fase, que é a fase de ensaios e rodagem onde tudo acontece. Porque as minhas escolhas e propostas vão encontrar um outro lugar quando acontece a partilha com o realizador e com os outros actores. O nosso ofício é como um jogo de ténis, eu vou atirar a bola com as intenções que preparei, mas a forma como a recebo de volta, ou seja o que o outro actor me dá, vai influenciar a minha resposta e essa é a magia do nosso jogo.É extremante importante estar muito bem preparado, mas é também muito importante estar disponível para o que acontece em cena.

Para quem olhas para cima? Quem são as tuas referências, musas e musos, inspirações do passado, presente e futuro?
Felizmente tenho muitas referências, pessoas que admiro e de quem acompanho carreiras, trabalhos e personagens. Tive a sorte de no início da minha carreira, no meu primeiro projecto, trabalhar com o nosso grande actor Ruy de Carvalho, que me ensinou muito sobre a arte de representar mas também sobre como estar nesta profissão. Não chega teres talento, tens que ser preparado e dedicado, altruísta na cena, ser generoso com os colegas e respeitar toda a equipa pois este é um trabalho que não se faz sozinho. Essa foi a grande lição que me passou.
Depois tenho várias referências de actrizes como Meryl Streep, pela sua versatilidade, detalhismo, talento e pela forma como se transforma fisicamente nas suas personagens. Ela é o espelho da metamorfose, como se cada papel fosse um novo idioma que aprende de dentro para fora. A sua carreira é repleta de personagens diferentes e isso sempre me fascinou porque ela tem o dom de ser real em todas as suas versões. A Cate Blanchett também é uma das minhas preferidas. É uma força da natureza, ela transforma qualquer texto em energia viva, e atravessa tantos universos sempre com a mesma verdade e propriedade. Em cada papel ela traz sempre uma energia diferente, e tudo parece tão natural, a forma como ela habita cada personagem, acho-a incrível. A Ingrid Bergman fez-me apaixonar por cinema pela sua verdade nua e sem artifícios.
A Julianne Moore inspira-me profundamente pela sua subtileza. Eu adoro representar nos silêncios e ela fá-lo como ninguém. E a Tilda Swinton que eu simplesmente adoro, a sua ambiguidade é a sua linguagem e acho maravilhoso porque eu não a vejo representar, eu vejo-a sempre como se estivesse apenas a viver uma outra forma de ser. Acho que vou ficar por aqui, mas ficaria horas a falar de tantos outros actores e actrizes que admiro e são referências como Frances McDormand, Daniel Day-Lewis, Joaquin Phoenix, Isabelle Huppert e tanto outros, não sairíamos daqui…

E como definirias a tua abordagem às diferentes personagens que vais encarnando?
Penso que ao longo da minha carreira sempre fui muito curiosa artisticamente nas minhas escolhas, sempre me fascinou explorar diferentes universos e personagens. O que sempre procurei foi uma transformação e não apenas uma interpretação, talvez por isso elas sejam grandes inspirações para mim, porque esse é o tipo de escolhas que faço. Sempre quis viver personagens diferentes umas das outras para me ir descobrindo e experimentando enquanto actriz. Eu tenho a vontade e o prazer da metamorfose. Acho que há aqui um eco das várias das referências que mencionei acima. Preciso da versatilidade, de me recriar a cada novo papel, de uma nova música interior a cada nova personagem.

O teu projecto de sonho como seria? Que história? Que época? Que personagem? Realizado por quem? Contracenando com quem? Com música de quem? Sonha alto e não deixes que o pormenor de alguém já não estar vivo te condicione.
Que convite maravilhoso! Vamos lá! Escolheria fazer um filme com o John Cassavetes de quem sou grande fã. Queria ser filmada assim, com essa inquietação, sem um guião fixo deixando o impulso do momento acontecer. Adorava ser dirigida por ele, sempre no limite entre o caos e a verdade. Deixando o silêncio existir, a imprevisibilidade e a imperfeição existirem e a cena acontecer com a sua verdade emocional.
Escolheria uma personagem intensa, complexa e cheia de camadas por explorar, à semelhança de Mabel, no filme “Uma mulher sob influência”. Seria uma história da vida comum, de relações profundamente humanas e caóticas, sobre uma família que atravessa um drama. Claro que a minha irmã seria a Gena Rowlands. (esqueci-me de mencioná-la em cima mas é sem dúvida uma das minhas actrizes favoritas) Um drama cru, real e cheio de poesia, bem ao estilo de Cassavetes.

Nada mais único que os rituais, as superstições, as manias. São pessoais mas espero que não intransmissíveis e por isso pergunto: quais os teus?
Sou uma pessoa muito supersticiosa. Na vida profissional gosto de me preparar e estar pronta para a escuta e troca por isso tenho o hábito de meditar antes de entrar em cena ou antes de começar o dia de filmagens. Isso faz-me sentir presente e centrada, desperta para o que acontece à minha volta e aberta para essa escuta. Depois gosto de ouvir a música da personagem, colocar o seu perfume ou seja acessar todas as portas que criei para entrar na minha personagem. E tenho uma frase que digo ou penso sempre que me preparo para começar mas essa é segredo… E depois no final do dia escrevo sempre uma frase sobre o que o dia me fez sentir sobre a personagem, porque vivê-la traz-me sempre descobertas. Na verdade é a existir que ela se mostra. Pessoalmente, tenho sempre sempre comigo a minha medalha da Nossa Senhora na carteira, rezo antes de viagens, e depois aquelas pequenas superstições como por exemplo não passar debaixo de escadas e esse tipo de coisas que na dúvida de ser verdade ou não, prefiro não fazer.


Continuando naquilo que é único, o que é que o cinema te dá que não encontras noutro lugar? E o teatro? E a televisão?
Cassavetes dizia “O cinema é o lugar onde as pessoas tem coragem de serem elas próprias, porque é mentira, e por isso é verdade.” E eu acho que é isso mesmo, é a arte da intimidade, é ver o que se passa por dentro e não se diz. Essa é a sua magia e o que me apaixona. O teatro traz a magia do presente, do que está a acontecer no momento em que tudo é vivo e único em cada apresentação. A conexão imediata com o público, a possibilidade de viver e experimentar essa história com o público criando uma ligação de cumplicidade. E na televisão fascina-me a possibilidade de viver tanto tempo aquela personagem, de desenvolver as suas nuances por longos períodos permitindo uma constante descoberta e apropriação da personagem.

Da cantora pimba Liliane Marise à Rainha Santa Isabel, de mulher de empresário corrupto em O Mecanismo a Inspectora da Polícia em Rabo de Peixe, de espia a Vera Lagoa em Três Mulheres. Tens tudo isto e muito mais no teu curriculum. O que é que ainda te falta fazer como actriz?E o que é que queres ainda fazer criativamente? Realizar? Escrever?
Eu sinto sempre que ainda tenho muita coisa para viver enquanto actriz. Esta minha vontade de versatilidade e a minha curiosidade enquanto actriz levam-me sempre para um lugar e querer fazer mais e diferente, de me surpreender e saír do lugar seguro. Mas há algo que sinto que falta explorar mais na minha carreira que é o teatro. Quero muito voltar a fazer teatro e, por isso, estou neste momento a produzir uma peça com uma amiga, que planeamos estrear em 2026. Além disso, também no próximo ano, vou dar um passo novo e muito especial. Inserida no projeto “ Contado por mulheres” vou realizar o meu primeiro filme. Estou super entusiasmada, este é um desafio que me inquieta, no melhor sentido, porque estou a abrir uma porta totalmente nova para mim. Realizar representa a possibilidade de criar um universo inteiro e não apenas a minha personagem como sempre fiz. Significa de ter uma voz activa em cada escolha artística e permite-me experimentar e crescer de formas que vão muito além da representação. Vai ser uma bonita descoberta, que me vai permitir transformar o meu olhar numa linguagem.
Fotografia João Bettencourt Bacelar, styling Susana Jacobetty, cabelos Pedro Ferreira, maquilhagem Lucília Lara, vestido Gabriel Silva Barros, saia Cecilia Prado, brincos, Rosarinho Cruz.


