Até abril e uma vez por mês, «Música no Museu» traz concertos e recitais ao espaço expositivo do MAC/CCB, antecedidos sempre de uma visita guiada. Apresenta-se como um convite sonoro a redescobrir Uma deriva atlântica: uma exposição permanente em permanente transformação.


Depois do recital de piano de Ana Telles, Silêncio em três tempos surreais, Seguiu-se Sonatas e Interlúdios, de John Cage, interpretada por Elsa Silva — uma obra para piano preparado que transforma o som em paisagens sonoras inéditas. Criada entre 1946 e 1948, explora as emoções humanas segundo a filosofia indiana do rasa, combinando rigor formal e liberdade tímbrica.


Sonatas e Interlúdios é considerada uma das obras-primas de John Cage e um marco na história da música do século XX. Composta entre 1946 e 1948, a obra é escrita para piano preparado — um piano de cauda no qual parafusos, porcas, borrachas e outros objetos são inseridos entre as cordas para alterar, radicalmente, o seu som, desvendando sonoridades inesperadas que em grande parte evocam o gamelão balinês e os tambores africanos.


Cage concebeu a obra como uma exploração das emoções humanas, inspirando-se na filosofia indiana, especialmente nos conceitos do rasa, que descrevem vários estados emocionais — o Erótico, o Cómico, o Patético, o Furioso, o Heroico, o Terrível, o Odioso e o Maravilhoso. Após saborear estes oito rasas, podemos finalmente experimentar o nono rasa: a Tranquilidade. Essa transição pode ser sentida ao longo da obra — de momentos rítmicos e mecânicos a trechos de marcada delicadeza e introspeção.

A estrutura segue uma forma simétrica: 16 sonatas (divididas em quatro grupos de quatro) intercaladas por quatro interlúdios. Embora o termo «sonata» remeta para o passado, Cage reinventa a forma, combinando rigidez estrutural com liberdade tímbrica e experimentalismo.

Mais do que apenas uma experiência auditiva, Sonatas e Interlúdios é uma escuta meditativa na qual o som se torna objeto de contemplação e descoberta. A obra desafia a noção tradicional de música como melodia ou harmonia, convidando o público a perder-se na textura, na cor e no silêncio.


Texto: MAC/CCB, fotografia João Bettencourt Bacelar


