
A noiva avança pela estrada e lembra-se da sua avó, muitos anos antes, a contar-lhe histórias, a cantar-lhe canções e a dizer-lhe, com voz clara de avó, que muitos nomes serão necessários para explicar tudo aquilo que irá sentir perante a derrota. Nessas tardes, a avó já tinha visto muitas pessoas a nascer e muitas pessoas a morrer. Conhecia o lugar de cada uma delas e, quando falava para a neta, esse conhecimento coberto de anos era como se fizesse parte dela, como os seus dedos a segurarem a mão da neta quando iam ao mercado.
A noiva avança pela estrada. O seu vestido arrasta-se pela terra e o branco transforma-se em terra. Os seus pés descalços tocam a terra. O céu é imenso. Seria possível deslizar-se pelo céu. Essa seria a imagem leve da felicidade. A noiva pára o seu corpo fino e branco. Uma aragem toca-a. A noiva olha para o céu e tem a certeza de que existem anjos felizes no céu, mas tem de continuar. O caminho à sua frente é longo. A tarde é um incêndio porque as copas das oliveiras na berma da estrada são feitas de chamas, e a terra e a estrada são feitas de chamas, e são brasas as pedras que os seus pés descalços pisam. É sol o sol.

A noiva dá passos e sabe que não pode olhar para trás. O vestido suja-se de terra. As suas mãos seguraram flores que caíram no momento em que, sem sentir, perdeu as forças nos dedos. A noiva era a neta que tentava aprender os olhos grandes da avó. Ficavam juntas em manhãs enormes. A neta não sabia que aquelas manhãs eram feitas de tempo. Era enganada pelas folhas das laranjeiras que, no verão e no inverno, mantinham a mesma sombra na terra varrida do quintal. A avó passava devagar. A neta acreditava que o tempo era igual aos gestos e às palavras eternas da avó. Agora, a noiva avança pela estrada. Levantam-se as vozes de cigarras que, à noite, se transformarão em estrelas. Ninguém pode saber aquilo em que a noiva pensa. Se existissem pessoas à sua volta, pessoas a preocuparem-se, pedir-lhe-iam para desistir. No entanto, ninguém poderia saber o que estaria a pedir-lhe. Segurar-lhe-iam no braço, dir-lhe-iam “desiste”, apenas porque o seu rosto é feito de pedra e de mágoa, apenas porque avança indiferente ao fogo dos campos e, na compreensão simples das pessoas, só avançam assim, sem medo, os loucos, os sábios e os suicidas. As pessoas têm medo, mas as pessoas não existem. E a noiva avança pela estrada. Sem olhar para trás, vê a memória diante de si.

É quase de noite e, no quarto, a mãe penteia-se em frente do espelho. A filha fica encostada à porta, sem entrar, a ver. Sentada numa cadeira, a mãe fica mais nova. A luz atravessa os estores da janela e o tempo é como areia que escorrega e escorre para dentro de uma cova aberta. A escova passa pelos cabelos da mãe. A filha fica parada. Nos seus olhos, há brilho que cresce e diminui, brilho que se move como a luz sobre as águas do rio. Existem barcos nesse rio longínquo. Existe uma mulher que mergulha a ponta dos dedos nessa água e que toca o brilho descuidadamente. No quarto, o tempo é fresco e parado, como o fundo de água limpa que ficou esquecido no fundo da bacia de esmalte do lavatório. No quarto, o tempo poderia ser chuva a subir da terra para o céu. Qualquer coisa invisível e fresca a subir do chão e dos tapetes para o teto e para o candeeiro de lágrimas. A filha fica encostada à porta, sem entrar, a ver. Dentro do espelho, diante da mãe, existe outro mundo: a verdade que só os mortos sabem. E a noiva avança pela estrada. A sua pele, sob o sol, continua a sinceridade da cal nas paredes distantes das casas. Distante, como uma fonte. Distante como o horizonte que a noiva não vê enquanto caminha. A cada passo, mais perto e mais longe. Na berma da estrada, as ervas secas resignam-se. Os cardos são feitos de papel velho e tremem, moribundos e cansados. Seria verdadeiro se pétalas brancas pousassem sobre o pescoço da noiva, mas o mundo não é verdadeiro em todos os momentos.
O pescoço da noiva aguarda o toque de uma pena que desça do céu apenas para tocá-lo, impercetível. Essa pena, esperada, lógica, perfeita, nunca cairá. A noiva sabe que não pode olhar para trás. O seu pescoço desejou beijos, sentiu-os em sonhos, mas esses beijos foram esquecidos porque os sonhos misturaram-se com as pedras da estrada e com a terra e com o sol a queimá-la.

A noiva era a filha que seguia a voz da mãe. Era a mãe que pousava as mãos sobre o peito para falar-lhe. A cor da eternidade. A mãe ficava sentada numa cadeira. A filha sentava-se sobre as pernas dobradas. Os seus joelhos de menina apareciam ao fundo da saia. As suas mãos ficavam pousadas uma sobre a outra. A mãe dizia palavras para lhe ensinar que muitos nomes serão necessários para lhe explicar tudo aquilo que irá sentir perante a derrota. A filha ouvia com um temor em que não acreditava de verdade. Chegaram os dias. A noiva pára o seu corpo num passo que escolheu entre muitos passos iguais. Levanta o olhar ao céu. O seu rosto foi uma criança. E continua a avançar pela estrada.
Os seus pés descalços. Por detrás do seu olhar suspenso, existem todas as prateleiras da biblioteca. As suas mãos passavam por todos os livros arrumados nas prateleiras da biblioteca. Sentada no cadeirão, sentia a capa grossa de um livro e ouvia os passos da mãe e da avó no andar de cima. Era assim estar descansada e imaginar que o mundo não pode mudar num momento. Um momento igual a todos os outros, escolhido entre muitos momentos iguais. As palavras dos livros levantavam sombras sobre os tapetes da biblioteca. Sozinha, nunca conseguiu imaginar que era dentro dessas sombras que havia abrigos, como grutas. E a noiva avança pela estrada, procura e encontra os nomes necessários para explicar tudo aquilo que sente perante a derrota.


