
Maria Emília Araújo, com o nome artístico de Mariaújo, é uma ceramista portuguesa cujo trabalho é reconhecido a nível nacional e internacional.

Auto-retrato. Cerâmica. Mariújo, 1965. Fotografia João Bettencourt Bacelar






Nascida a 6 de agosto de 1940, em Matosinhos, começa os seus estudos artísticos na Escola Soares dos Reis, no Porto. Em 1957, vai viver para Lisboa e ingressa na Escola Artística António Arroio, onde tem como mestres Estrela Faria e Querubim Lapa. Mais tarde, vem a ser assistente dos dois artistas. Assiste, por exemplo, Estrela Faria na obra Sete Colinas para o Hotel Ritz e Querubim Lapa nos painéis para a TAP. Com Querubim aprende a técnica e a ser resiliente, mas é Estrela Faria quem vem a ter uma importância decisiva no seu percurso, influenciando-a enquanto artista, mas também enquanto mulher.

Painel de azulejos. Mariújo, 1964. Fotografia João Bettencourt Bacelar




“Estrela Faria marcou-me com o exemplo da sua vontade para fazer as coisas. Ainda hoje sinto essa coragem que me foi incutida por ela nessa época. Temos aquilo que conquistamos e é preciso conquistar as coisas: Tu vais conquistar muita coisa, porque tens força e energia para isso, dizia-me ela. A maneira como ela falava comigo, como me espicaçava para eu fazer as minhas obras com tempo, com espaço, deu-me muita força e são palavras que guardo e que muitas vezes as vou buscar. Aprendi muito com ela, foi muito agradável, tinha uma vivência de artista muito sadia, era uma mulher de coragem e incutiu esse espírito de força em mim. Eu tinha 17, 18 anos”, recorda.

Mariújo, 1965. Fotografia João Bettencourt Bacelar

Jarro. Mariújo, 1965. Fotografia João Bettencourt Bacelar
Mariaújo era muitas vezes convidada para a seguir à escola, ir a casa da artista, onde trabalhava em obras, desenhava, servia de modelo, assistia a reuniões com outros artistas, como, por exemplo, com o escultor António Duarte, uma grande referência da época. Recorda-se que ela tinha duas araras trazidas do Brasil, que mais tarde seriam entregues no Jardim Zoológico devido a queixas dos vizinhos pelo barulho que faziam. Pintou-as muitas vezes e o azul-turquesa e o amarelo são cores muito presentes nas obras que vem a desenvolver e a criar ao longo dos anos.

Cerâmica. Mariújo, 1965. Fotografia João Bettencourt Bacelar

Para Maria Emília foi o início do deslumbre por uma terra que a seduziu de longe e pela qual se vem a apaixonar. Estrela Faria incute-lhe muito o sentido do Brasil, numa altura “em que o Brasil era bom, era diferente, era educado, era correto. A colónia portuguesa era grande e muito civilizada. A Estrela falava muito do Brasil, dos trabalhos que lá fez como das joias com pedras preciosas, que aliás me ensinou a fazer. Suscitou-me uma enorme paixão por aquela terra, foi a responsável pela minha vontade de ir viver e, trabalhar no Brasil, foi a minha inspiração”.


Da influência da Estrela Faria no seu trabalho ressalta o uso das cores fortes, como os turquesas, os verdes, os laranjas: “Ela usava tons muito fortes e eu aplicava em tudo. Também me ensinou a coordená-los com harmonia para não serem agressivos. Dou sempre um tempero numa cor para cortar a sua força e suavizar a composição. Ela era uma boa professora, senti-me privilegiada por ela ter sido minha madrinha”.



Pratos. Mariújo.
Fotografia João Bettencourt Bacelar


Em 1971 ganhou o concurso realizado pela Câmara Municipal de Lisboa, para a realização de um painel de cerâmica em relevo para o edifício Caleidoscópio, um projeto do arquiteto Nuno San Payo.

Painel Homenagem a Lisboa. Mariújo, 1972. Edifício Caleidoscópio no Campo Grande, Lisboa.
Fotografia João Bettencourt Bacelar





“Foi uma alegria muito grande e um momento fundamental, porque foi o meu primeiro trabalho como independente, entendi-o como uma libertação, tinha acabado de deixar o Querubim. O projeto era de suma importância para Lisboa, era a transformação de um descampado, num jardim com um lago e tinha um dos melhores restaurantes da capital à época”.

A seguir ao 25 de Abril, influenciada pelas conversas tropicais e araras de Estrela Faria, decide mudar-se para o Rio de Janeiro, onde fica a viver por 18 anos. Regressa a Portugal, mas em 2016 volta ao Brasil como artista convidada para realizar inúmeras maquetes para os Jogos Olímpicos, projeto que nunca se concretizou por falta de disponibilidade financeira. O que também vem a acontecer com o clube de futebol Corinthians em São Paulo. Apesar destas duas situações, existe, de facto, um imponente painel de Mariaújo no Brasil, mais concretamente no aeroporto Internacional Carlos Jobim, no Rio de Janeiro, encomendado no ano de 2000, por ocasião das comemorações dos 500 anos dos Descobrimentos no Brasil.

Painel Comemorações dos 500 anos dos Descobrimentos, no Aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim, Rio de Janeiro, Brasil
Mariaújo, Maria Emília Araújo, faz parte do movimento artístico conhecido como cerâmica modernista portuguesa, das décadas de 1950 e 1960. A sua obra tem um extraordinário impacto a nível da cor e da volumetria. É reconhecida em Portugal e além-fronteiras no âmbito da arte contemporânea. A ceramista utiliza nos seus trabalhos técnicas com raízes profundas na antiga tradição da azulejaria portuguesa, de forma rigorosa e complexa, mas com uma inegável inspiração tropical, cruzando-as e criando a sua arte, o seu saber fazer, que é sofisticado e belo.

Mata adentro, Mariújo, 2018. fotografia João Bettencourt Bacelar



Ao longo de décadas expôs em Portugal e internacionalmente, ganhou inúmeros prémios e as suas obras fazem parte de diversas coleções e museus, tanto cá, como lá fora. Desde 1959 que pertence ao seleto grupo de artistas da Fábrica de Cerâmica Viúva Lamego, onde mantém o seu atelier e, aos 83 anos, continua a trabalhar.




Painel Fado aos 70 Anos. Cerâmica aplicada em Azulejo, Mariújo, 2018. Fotografia João Bettencourt Bacelar.

Azulejo, Mariújo, 2016. Fotografia João Bettencourt Bacelar.

Azulejo, Mariújo, 2016. Fotografia João Bettencourt Bacelar.

Azulejo, Mariújo, 2016. Fotografia João Bettencourt Bacelar.

Painel de Azulejo, Mariújo. Fotografia João Bettencourt Bacelar.
“Maria Emília Araújo podia perfeitamente ter dedicado a sua vida a qualquer outra forma de arte. Porém, foi na cerâmica que encontrou a sua grande paixão. Renomeada ceramista e pintora contemporânea, especializou-se em grandes murais pintados à mão. O seu trabalho vibrante é influenciado pela cultura rica de Portugal, e pelos vários lugares onde viveu: Rio de Janeiro, Los Angeles, Curaçao e Caracas. Desde a década de 1960 assume como principal forma de expressão artística os painéis e pinturas em azulejo, com os quais ganha o respeito de um público exigente, ávido por arte contemporânea de grande qualidade. Nas últimas quatro décadas as suas criações únicas foram feitas na Viúva Lamego, onde é artista residente”.
Viúva Lamego





Mariújo no seu estúdio na Viúva Lamego, 2023. Fotografia João Bettencourt Bacelar

Azulejo, 2016. Fotografia João Bettencourt Bacelar

Azulejo, 2016. Fotografia João Bettencourt Bacelar
“Como é que hei de definir o meu trabalho? É trabalho, muito trabalho e é preciso imaginação. É preciso sonhar e querer chegar a um ponto que ninguém seja igual a mim, todos nós somos diferentes. O Querubim era um artista formidável, mas era diferente, assim como eu me considero diferente. Posso definir o meu trabalho como um trabalho sensível, que tem muita procura.
É engraçado, eu sonho com as coisas de noite e passo-as de manhã para o papel. Tenho uma força grande, muitas vezes vou atrás da maquete, mas outras vezes modifico. Fiz agora um prato, umas cestas com mantas e frutos para uma feira… Ainda estou a fazer coisas que gosto”,
revela a artista.

Making Of do Logotipo da A Magazine N8 por Mariújo, 2023. Fotografia João Bettencourt Bacelar
“Fiz este A, de amor e amizade, com muito cuidado e com muito amor, para vocês meus amigos, para a vossa revista para a qual desejo muito sucesso, com os meus agradecimentos. É um A de cerâmica, cozido em chacota e vidrado, pintado com castanhos e azuis. As bolinhas representam os três primeiros azulejos que eu vendi desde que cheguei do Brasil, representado pela palmeira tropical com os cocos.
O pássaro é onde começa a fantasia, é o pássaro da fantasia, vem o meu nome que também é meia fantasia. A figura da mulher agarra-se a estes dois símbolos para dar a mão e perfazer o A.
A mão tanto pode estar para baixo ou para cima, porque tem a palma mas tem também as costas do agarrar. De resto são estudos de azulejos. A figura principal é a mulher e, mais uma vez, estou jogando com o símbolo da mulher em cerâmica, é a minha proposta para a revista. Muito obrigada por vocês”.

Capa e contra capa da A Magazine nº8

Cinco Passarinhos. Cerâmica com esmalte. Mariaújo, 199(?). Fotografia João Bettencourt Bacelar
“Na obra de Maria Emília Araújo é evidente a exaltação da juventude, esse estado de deslumbramento perante a vida, de predisposição para a descoberta e para a aventura. Nela, a cor, o gesto, são expressões de festa onde perpassam a personalidade e o carácter da sua autora. Se, muitas vezes, não devemos conhecer aqueles que se encontram por detrás da execução de determinadas obras, no caso de Maria Emília Araújo o oposto prevalece. Ela é uma alma gentil, grata à vida, independentemente dos desafios que esta lhe colocou no caminho. Uma natureza serena, que partilha connosco as suas visões de um mundo onírico de alegria e felicidade. Da experiência retirou doçura, do tempo serenidade, por isso, à mulher estamos gratos por a conhecer assim, à artista pela obra de que nos faz legado”.
Alexandre Pais,
Diretor do Museu Nacional do Azulejo

Ilustração 2024

Mariaújo, Maria Emilia Araujo, 2023. Fotografia Susana Jacobetty


