MARE POR PEDRO RAPOSO DE ALMEIDA

Ilustração Ana Baptista e João Bettencourt Bacelar

O MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (https://www.mare-centre.pt/pt) é um centro de investigação, desenvolvimento tecnológico e inovação, com uma abordagem integradora e holística, concentrando uma ampla diversidade de conhecimentos, competências e capacidades, com implementação territorial de âmbito nacional em Portugal. O MARE combina conhecimentos técnicos e científicos para abordar todos os tipos de ecossistemas aquáticos, bacias hidrográficas, sistemas costeiros e oceanos num contexto atual de mudanças regionais e globais e de impactos antropogénicos cumulativos. O MARE engloba sete unidades regionais de investigação, seis sediadas em instituições de ensino superior no continente (Universidade de Évora, Universidade Nova de Lisboa, Universidade de Lisboa, ISPA – Instituto Universitário, Instituto Politécnico de Leiria, Universidade de Coimbra), e uma na Madeira na ARDITI – Agência Regional para o Desenvolvimento da Investigação, Tecnologia e Inovação. Atualmente, o Diretor do MARE, o Prof. Doutor Pedro Raposo de Almeida pertence à Universidade de Évora, sendo esta a unidade de gestão principal.

O MARE busca a excelência no estudo dos ecossistemas aquáticos e dissemina esse conhecimento em apoio ao progresso humano e às políticas de desenvolvimento sustentável. Este objetivo é conseguido através de redes colaborativas tanto a nível nacional como internacional, com foco na investigação científica, educação, conhecimento e transferência de tecnologia, e divulgação científica.

O MARE conta atualmente com mais de 600 membros, dos quais ca. de 320 são investigadores doutorados. Para além das infraestruturas principais, o MARE possui várias estações marinhas, uma delas, o CIEMAR – Laboratório de Ciências do Mar, está localizado em Sines e pertence à Universidade de Évora (ver artigo nesta edição). A unidade regional do MARE na Universidade de Évora integra 44 membros, 17 dos quais são doutorados.

O MARE está organizado em dois domínios de investigação: Bacias hidrográficas, e (ii) Sistemas costeiros e oceano; sete linhas temáticas de investigação: Hidráulica, hidrologia e ambientes sedimentares, (ii) Biodiversidade e funcionamento dos ecossistemas, Aquacultura e pescas, Risco ambiental,Biotecnologia e valorização dos recursos, Tecnologias para exploração e monitorização, e Governança e literacia; e ca. de 30 Grupos de Investigação, quatro dos quais são coordenados por investigadores da Universidade de Évora, Biologia, conservação e gestão de espécies piscícolas, Ecologia e conservação de recifes temperados, Sistemas bentónicos: avaliação funcional e de diversidade, e Invasões biológicas.

Recentemente o MARE constitui, juntamente com o CIMA – Centro de investigação Marinha e Ambiental da Universidade do Algarve e o CBMA – Centro de Biologia Molecular e Ambiental da Universidade do Minho, o Laboratório Associado ARNET – Rede de Investigação Aquática que visa disponibilizar o melhor conhecimento científico em ecossistemas aquáticos, apoiando as tomadas de decisão e as politicas públicas para o desenvolvimento das economias Azul e Verde.

Destaques da investigação realizada pelo MARE na Universidade de Évora

A gestão e conservação dos peixes migradores diádromos é um dos ex-líbris da investigação desenvolvida pelo MARE na Universidade de Évora. Para completarem o seu ciclo de vida, estes peixes dividem o tempo entre o mar e os rios. Deste grupo fazem parte espécies icónicas como a lampreia-marinha, o salmão-do-atlântico, o sável e a enguia, cuja importância em termos socioeconómicos e conservacionistas exigem a implementação de medidas urgentes que visem a gestão racional e sustentável destes recursos haliêuticos. De março a junho, em plena época de migração da lampreia- marinha e do sável, multiplicam-se os festivais gastronómicos nas regiões centro e norte de Portugal. Assiste-se nessa altura a autênticas romarias de milhares de comensais ávidos de degustar estas iguarias nos restaurantes locais, que veem nestas iniciativas culturais uma excelente oportunidade de negócio. Esta procura reflete-se na atividade da pesca profissional, que durante este período do ano faz da lampreia- marinha e do sável o seu principal alvo. Para contrariar os sinais evidentes de sobrepesca que já se vinham observando na segunda metade do século XX, os investigadores do MARE delinearam um plano de gestão a nível nacional dedicado às espécies migradoras anádromos (e.g., lampreia-marinha, sável). Este pressupõe, entre outras medidas, a realização de reuniões anuais nas principais bacias hidrográficas nacionais com os pescadores profissionais e as diversas entidades públicas com responsabilidades na gestão da pesca (e.g., DGRM, IPMA, ICNF). Deste trabalho com mais de uma década resultou a harmonização dos regulamentos de pesca em vigor nas águas interiores e no domínio marítimo, assim como uma redução significativa do esforço de pesca exercido sobre as populações daqueles peixes, designadamente através da criação de um período de defeso intermédio. Foi também feita uma aposta na valorização do pescado, tendo para o efeito sido desenvolvido um selo de origem em parceria com a Docapesca, que identifica o rio onde o peixe foi capturado e certifica que esse pescado passou pelo circuito oficial de comercialização de peixe. Até à data, esta iniciativa foi implementada no Mondego e no Vouga, mas há a expetativa de se estender a outras bacias hidrográficas nacionais.

Sável

Ainda no domínio dos peixes diádromos, o MARE tem-se evidenciado pelas ações de restauro da continuidade longitudinal dos rios, contribuindo decisivamente para a reabilitação das populações daquelas espécies em Portugal. Este trabalho, que conta com o apoio institucional da APA e que já mereceu um prémio internacional, passa pela construção de passagens para peixes em infraestruturas hidráulicas intransponíveis (e.g., açudes, barragens), e pela remoção de barreiras obsoletas (e.g., açudes sem uso aparente e/ou em ruínas). Os projetos desenvolvidos pela Universidade de Évora/MARE contribuíram para a restituição da continuidade longitudinal em mais de 100 km nos rios Mondego, Águeda e Alfusqueiro, contrariando a tendência global de perda de habitat, e melhorando a resiliência dos ecossistemas fluviais ao impacto resultante das alterações climáticas. A investigação dedicada às espécies diádromas faz da Universidade de Évora/MARE uma referência a nível nacional e internacional neste domínio do conhecimento, razão pela qual participou ativamente na elaboração da última edição do Livro Vermelho dos Peixes Dulciaquícolas e Migradores de Portugal Continental. Previsivelmente, os próximos anos trarão desafios ambientais cada vez mais exigentes. Compete-nos continuar a trabalhar para garantir a sobrevivência das populações de peixes diádromos em Portugal.

Salmão do Atlantico

As invasões biológicas são outro dos domínios de investigação a que o MARE se dedica na Universidade de Évora. Este fenómeno é uma das principais causas de perda de biodiversidade a nível mundial, com enormes prejuízos socioeconómicos e graves efeitos na saúde pública. Há seguramente exemplos facilmente reconhecidos: o lagostim-vermelho-da-luisiana, que causa prejuízos nos arrozais e afeta a biodiversidade; o mexilhão-zebra, recém chegado ao nosso país pelo Alentejo e que entope sistemas de distribuição de água; e o mosquito-tigre-asiático, que já chegou ao Alentejo e que é um potencial transmissor de febre amarela, Dengue, Zika e Chicungunha. Os trabalhos de investigação e consultadoria desenvolvidos no MARE procuram formas de melhor compreender e reduzir o problema das espécies invasoras aquáticas. Através de trabalho de campo, identificamos os locais de ocorrência destas espécies (e.g., mexilhão-zebra, para a EDIA) e também estudamos as suas formas de dispersão. Construímos modelos preditivos da distribuição mundial de espécies, tendo em conta o efeito das alterações climáticas. Para sensibilização e divulgação, usamos questionários e inquéritos, workshops, cursos e exposições, salientando-se aqui o projeto LIFE Invasaqua.

Lampreia Marinha

O MARE também desenvolve estudos em parceria com equipas nacionais e internacionais na plataforma continental e no mar profundo, como sejam os processos geoquímicos nos sedimentos, mapeamento morfológico e de habitats, identificação de recursos geológicos ou identificação de comunidades de organismos associados aos sedimentos não consolidados. O conhecimento da ecologia e geologia do mar profundo é essencial para identificar recursos disponíveis e para prever e avaliar o efeito de atividades antropogénicas relacionadas com a “Economia Azul”. A exploração dos recursos marinhos tem de se alicerçar no conhecimento científico para garantir a integridade dos ecossistemas e evitar comprometer os limites da sua resiliência. No mar profundo a luz é inexistente, a pressão muito elevada e o alimento disponível escasso; seria de esperar que este ambiente extremo fosse “azoico” (sem vida) mas, com a inovação tecnológica, sabemos hoje que existe uma elevada diversidade de seres vivos no mar profundo. A finalidade destes estudos realizados pelo MARE é desenvolver a caracterização e a capacidade de monitorização dos ambientes em profundidade para prever os efeitos das diferentes atividades dos sectores da Economia azul. Sobre o trabalho desenvolvido na vertente da ecologia e conservação de recifes temperado, convidamos a saber mais no artigo dedicado ao CIEMAR.

Enguia