
Talvez dependam de nós os pesos que temos de carregar. É mais fácil escrever esta frase do que acreditar nela, aceitá-la em todos os momentos e viver segundo o que implica. No início, antes de cada decisão, o tempo diante de nós parece um enorme bloco de granito. Os gestos são impossíveis no seu interior. É um tempo compacto, pesa toneladas. Se algum camião transportasse esse tempo, abrandaria nas subidas até avançar quase a passo, o motor a esforçar-se, camião seguido por dezenas de carros à espera para ultrapassá-lo.
As tarefas que temos de realizar estão depois desse tempo granítico, ou talvez estejam no interior do seu centro. Em qualquer dos casos, precisamos de atravessá-lo, essa é a única possibilidade. Raspamos a rocha com as unhas, cada avanço é doloroso e ínfimo. Deixamos de acreditar por momentos mas, logo a seguir, somos obrigados a acreditar. Possuímos algum tempo, conseguimos distribuí-lo pelo calendário, faremos lindos planos, sublinhados com marcadores fluorescentes que comprámos de propósito, mas o tempo que temos à nossa frente, concreto, à distância da nossa ação, é sempre opaco, não somos capazes de distinguir seja o que for através dele.
É esse mesmo bloco de granito que cai sobre os nossos ombros a cada paragem. Se fechamos os olhos, só para descansar durante um segundo, esse bloco de granito pousa-nos sobre a cabeça até acreditarmos que não somos capazes de voltar a levantá-la. Se deixamos cair as mãos sobre a mesa, esse bloco de granito instala-se sobre elas. Pesa sempre toneladas.

Os programas mais ridículos da televisão podem ser essa rocha. As pesquisas mais inusitadas no Google podem ser essa rocha. Os folhetos de publicidade que deixam na caixa do correio podem ser essa rocha.
Acordámos cedo, talvez, mas a manhã passou tão depressa, soterrada por esse peso. Para onde foi o dia? Para onde foram todas essas horas de granito? Chegou a noite, é demasiado tarde. Para onde foi a segunda-feira? Para onde foi a semana?
Os planos que fizemos no calendário, sublinhados pelos tais marcadores, não se cumpriram. Consideramos novas etapas, muito mais apertadas desta vez, dispomos de menos tempo, também as sublinhamos com os marcadores e acreditamos que, com algum sacrifício, com um empenho humano, razoável, ainda seremos capazes de atingir os nossos objetivos, aquilo que temos para fazer.
Mas agora o bloco de granito é do tamanho de uma montanha: é uma montanha inteira de granito maciço. Agonizamos debaixo desse peso, rastejamos durante milímetros, sabemos que nos falta uma lonjura de quilómetros. Dormimos mal tapados no sofá da sala, comemos mal, tudo nos incomoda. Então, ao fim de sete dias, Génesis ou Apocalipse, espreguiçamo-nos como se despertássemos de um sono de séculos. Esse gesto despedaça o bloco de granito que, entretanto, nos envolveu e, em absoluta sobrevivência, fazemos o que temos para fazer. Bem ou mal, fazemos o que temos para fazer. E, de repente, não precisamos de dormir, de comer, de telefonar a ninguém, não precisamos de arrumar gavetas, de ver o último vídeo do Youtube, de ver constantemente se recebemos emails novos. Só paramos no fim. Sofremos como se tivéssemos acabado de ser esfolados, mas conseguimos terminar a nossa tarefa.
Renascemos nessa vitória. Por um instante, acreditamos que, da próxima vez, havemos de reconhecer o bloco de granito e havemos de destruí-lo logo no início. Mas não, essa é uma ilusão inocente. Viveremos esta história mil vezes.


