O Mundo visto por Mily Possoz por Emília Ferreira

por EMÍLIA FERREIRA

Historiadora de Arte, Curadora da Exposição “Mily Possoz. Uma poética do espaço”, Galeria Millennium bcp, no MNAC, MU.SA-Museu das Artes de Sintra, NOVA Medical School

Retrato de Jean e Madeleine Demouster, nd. Milly Possoz, pastel sobre papel. Coleção particular. Na exposição “Mily Possoz. Uma poética do espaço”. Fotografia João Bettencourt Bacelar, 2025

Os pontos de vista não canónicos, como os da criação no feminino, tendem a ser desvalorizados. Menos voz, menos poder político, significam menor inscrição na memória coletiva e de aceitação quanto à sua legitimidade. No último meio século, embora recuperadas muitas biografias e obras, as artistas continuam, porém, a ver desvalorizado o seu ponto de observação cultural, social e criativo. Isso aconteceu a muitas que, em vida, foram profissionais reconhecidas, apreciadas e financeiramente autónomas. A modernista portuguesa Mily Possoz (Lisboa, 1888-1968) é uma delas.

Sem título, n.d. Mily Possoz. Guache e grafite sobre papel. Coleção CAM, Centro de Arte Moderna Gulbenkian. “Mily Possoz. Uma poética do espaço”. Fotografia João Bettencourt Bacelar, 2025

De mão treinada e olhar curioso e informado, Mily Possoz, pintora, desenhadora e gravadora, foi um dos mais premiados e internacionalizados modernistas nacionais. Com parte significativa da sua carreira realizada em Paris, cidade onde viveu mais de 10 anos, e onde sempre regressou e expôs (nomeadamente com muitos dos melhores artistas internacionais da sua geração), criou e manteve uma ampla rede de contactos de galerias que representavam e vendiam o seu trabalho. Reconhecida e elogiada pela crítica e pelos pares, cedo teve o seu trabalho premiado e adquirido para coleções de importantes museus, em Portugal e no estrangeiro.

Sem titulo I Untitled. nd. Milly Possoz. Guache. Grafite e óleo sobre papel. Coleção CAM, Centro de Arte Moderna Gulbenkian. Na exposição “Mily Possoz. Uma poética do espaço”. Fotografia João Bettencourt Bacelar, 2025

Poliglota (falava português, francês, inglês e alemão), desenhadora compulsiva e gravadora reconhecida, Mily desenvolveu uma estética em que os valores do modernismo são centrais: o gosto pelo novo, a rejeição da perspetiva clássica, a simplificação anatómica das figuras, as claras influências da tradição tardo-medieval, que conhecia bem dos museus de Paris e Bruxelas, o inacabado das composições e o arrojado uso da cor.

Retrato de Madeleine Demoustier, 1945. Milly Possoz. Óleo sobre tela. Coleção particular. Na exposição “Mily Possoz. Uma poética do espaço”. Fotografia João Bettencourt Bacelar, 2025

Atenta ao seu tempo e grande conhecedora da arte do passado, Mily cria uma obra claramente autoral, na qual regista as mudanças da vida quotidiana dos anos de 1920-30, quando se torna central a afirmação social e cultural das mulheres, como criadoras e cidadãs de pleno direito, às quais o espaço público — extensão do privado — é, enfim, autonomamente acessível.

Sem título, n.d. Milly Possoz. Guache e grafite sobre papel. Coleção CAM, Centro de Arte Moderna, na Exposição “Mily Possoz. Uma poética do espaço”. Fotografia João Bettencourt Bacelar, 2025