Autênticas Marcas Portuguesas

Autênticas Marcas Portuguesas

Um Algarve de limão e um bairro de navalha, na ocidental praia lusitana

Por Susana Jacobetty
Fotografia João Bettencourt Bacelar

Há lugares que se reconhecem antes de serem vistos. O Algarve pode ser um deles, pela luz, pelo calor, pelo mar, mas também pelo perfume dos pomares, das árvores em flor e dos citrinos. É a partir dessa dimensão menos evidente da paisagem que a LEME, Perfumes com Estória, chega ao Algarve 1434, fragrância construída em torno do limão, da flor de amendoeira e do âmbar.

O resultado não procura reproduzir um Algarve de postal. Interessa-lhe antes uma memória sensorial do território. O limão traz a nota cítrica e luminosa, a flor de amendoeira acrescenta uma dimensão floral profundamente ligada à paisagem algarvia, o âmbar dá profundidade e permanência à composição. Três elementos suficientes para sugerir um lugar sem o descrever.

A escolha do nome, Algarve 1434, introduz uma outra camada. Nesse ano, Gil Eanes, natural de Lagos, ultrapassou o Cabo Bojador. O episódio ocupa um lugar decisivo na história das navegações portuguesas, mais do que uma conquista geográfica, significou a passagem de uma fronteira que durante muito tempo pareceu intransponível.

Há uma circunstância particularmente interessante nesta associação. Em 1434, descobrir significava avançar para lá do que se conhecia. Hoje, a LEME propõe uma descoberta de natureza diferente, voltar ao conhecido e tentar vê-lo, ou cheirá-lo, de outra maneira.

Algarve 1434 não é, por isso, uma reconstituição histórica. É uma interpretação contemporânea de uma região cuja história está intimamente ligada à ideia de viagem. O perfume desloca essa viagem do mapa para os sentidos.

O limão é talvez o elemento mais imediato. Não precisa de tradução nem de explicação. Basta uma casca acabada de cortar para que o cheiro se imponha, fresco, incisivo, solar. A flor de amendoeira introduz outra memória, mais delicada e sazonal. O âmbar, por fim, prolonga a experiência na pele.

É justamente nessa combinação entre reconhecimento e imaginação que a LEME encontra o seu território. Os seus perfumes procuram transformar referências portuguesas, lugares, episódios e memórias, em objectos contemporâneos. Não para as conservar intactas, mas para lhes dar uma outra possibilidade de existência.

Um bairro de navalha

Se o Algarve 1434 parte de uma paisagem, a Antiga Barbearia do Bairro parte de um imaginário urbano.

Uma barbearia de bairro era, durante muito tempo, mais do que o lugar onde se cortava o cabelo ou se fazia a barba. Era um espaço de passagem e de permanência, onde se cruzavam vizinhos, se discutiam os assuntos do dia, se esperava pela vez e onde a relação entre cliente e barbeiro tinha qualquer coisa de ritual.

A navalha, o pincel, o sabão de barba, a toalha quente. A cadeira. O espelho. A conversa.

Grande parte desse universo desapareceu com a transformação dos hábitos e das cidades. A Antiga Barbearia do Bairro nasceu precisamente desse desaparecimento, não para reproduzir uma época, mas para recuperar alguns dos seus códigos e devolvê-los ao presente.

É uma distinção importante. A nostalgia tende a querer conservar. A cultura contemporânea, quando é interessante, prefere reinterpretar.

É isso que acontece também com o perfume Cedro & Vetiver, uma das expressões olfactivas desse universo. Cedro, vetiver, patchouli e musk branco encontram-se com toranja, bergamota, menta e noz-moscada. A composição não procura cheirar a passado. Procura antes traduzir a ideia de uma determinada masculinidade urbana, cuidada, sóbria, sem excesso de formalidade.

O perfume é acompanhado por outros objectos do mesmo universo, do after shave aos sabonetes perfumados. Mas é talvez a fragrância que melhor permite perceber a ambição da marca, transformar um conjunto de gestos quotidianos numa identidade reconhecível.

A Antiga Barbearia do Bairro celebra agora mais um aniversário. A data é uma ocasião para olhar para um percurso que se fez, em grande medida, através dessa recuperação da cultura material portuguesa. Não de uma ideia abstracta de tradição, mas de coisas concretas, uma navalha, um frasco, uma cadeira, um aroma, uma conversa.

É aqui que, por coincidência, a história da Antiga Barbearia do Bairro pode encontrar a da LEME.

Não porque sejam a mesma coisa. Não são.

Uma olha para o território através da perfumaria, a outra recupera uma memória urbana através do ritual masculino. Uma parte do Algarve e da história das navegações, a outra de um imaginário de bairros portugueses que quase desapareceu.

Há, no entanto, um entendimento comum, a identidade também se constrói através dos sentidos.

O cheiro é particularmente eficaz. Ao contrário de uma fotografia ou de um objecto, não precisa de ser contemplado. Acontece. Uma fragrância pode transportar-nos para um lugar ou para um tempo sem pedir licença.

Talvez por isso faça sentido que estes dois momentos coincidam.

De um lado, um Algarve de limão, flor de amendoeira e âmbar. Do outro, um bairro de cedro, vetiver e navalha.

Duas geografias diferentes. Duas memórias distintas. E uma mesma vontade de fazer com que certas portugalidades não fiquem apenas no passado.

A LEME Algarve 1434 e o Cedro & Vetiver podem ser encontrados de norte a sul do país. Mas há um lugar particularmente interessante para os procurar. No mês de Agosto, em que tantos ainda percorrem o país em busca de tempo, paisagem e distância, há uma morada que acrescenta a esta história de aromas com identidade uma dimensão que vai além da compra.

Na ocidental praia lusitana, encontra-se a Autêntica Loja Portuguesa, em Sagres, a mais ocidental loja de Portugal. É precisamente ali, no extremo de uma paisagem que a fragrância procura evocar, que o perfume encontra um contexto que não precisa de explicação.

A coincidência geográfica é difícil de ignorar.

A coincidência geográfica é difícil de ignorar.

Ali, onde a terra parece terminar diante do Atlântico, o Algarve 1434 regressa à região pela via dos sentidos. Não é preciso transformar o momento numa alegoria, basta deixar que a geografia faça o seu trabalho.

O Algarve está no frasco. Sagres está diante dele.

E talvez seja essa a melhor maneira de terminar uma viagem que começou há quase seis séculos, não com uma descoberta, mas com o reconhecimento da sua importância histórica na identidade nacional.

E, nesse mesmo horizonte atlântico, permanece também a memória dos homens que fizeram da viagem, da coragem e do mar uma parte indelével da história portuguesa, uma virilidade que hoje pode ser reinterpretada com a mesma elegância de um bom perfume. A Antiga Barbearia do Bairro evoca ali, onde a grande aventura das Descobertas começou, os heróis do mar de barba rija, filhos de um nobre povo lusitano.