A Família Vargas e a Excelência Flamenca

por Susana Jacobetty

fotografia João Bettencourt Bacelar

Miguel Vargas

Há fronteiras que existem apenas nos mapas. Entre o Alentejo e a Extremadura, a cultura sempre desenhou outro território, o das famílias repartidas entre Portugal e Espanha, das feiras de gado, das romarias, das comunidades ciganas e das tradições transmitidas de geração em geração. É nesse espaço comum que o flamenco da Extremadura encontra uma das suas expressões mais autênticas.

Foi essa herança que, no passado dia 13 de julho, ocupou o Claustro do Colégio do Espírito Santo, da Universidade de Évora, num concerto solidário promovido em parceria com a Diputación de Badajoz. Mais do que uma iniciativa de angariação de fundos para estudantes em situação de vulnerabilidade, o espetáculo marcou o início de uma ambiciosa aproximação cultural entre o Alentejo e a Extremadura, num dos edifícios mais emblemáticos da cidade, fundado no século XVI e berço da Universidade criada pelo Cardeal D. Henrique.

Juan e Miguel Vargas

Juan, susana Jacobetty, diretora da A Magazine e Miguel Vargas

A noite confirmou aquilo que raramente se consegue programar, a emoção. Perante um claustro completamente preenchido, guitarra, cante e baile construíram um espetáculo intimista de enorme intensidade artística, onde houve excelência e verdade. E uma plateia rendida em silêncio, antes dos finais e prolongados aplausos.

Miguel Vargas conhece como poucos esta geografia sem fronteiras. Nasceu em Beja, filho de pai eborense e de mãe natural de Talavera la Real, em Badajoz. Aos sete anos mudou-se para Espanha, mas nunca deixou de viver entre os dois países. Enquanto a família paterna permanecia entre Évora e Beja, foi na família materna, profundamente ligada à comunidade cigana, que aprendeu o flamenco da forma como sempre foi transmitido, em casa.

“Nós aprendemos a ouvir primeiro”,

recorda. Antes da guitarra vieram as vozes da mãe, dos tios e das festas familiares, onde cantar, tocar e dançar faziam parte da vida quotidiana. Não existiam escolas nem academias. O flamenco era uma linguagem herdada, tão natural como a língua materna.

Essa transmissão oral continua a ser, para Miguel Vargas, a essência desta arte. “O flamenco é como o fado. Tem de ter personalidade. Tem de ter raça.” Há mais de duas décadas procurou precisamente aproximar estes dois universos ao gravar, com o fadista Sidónio Pereira, o álbum El roce de las almas, um projeto pioneiro que explorou as afinidades entre o flamenco e o fado sem perder a identidade de cada um.

Essa ligação faz sentido na própria história da família. O pai dedicava-se ao comércio de cavalos entre Portugal e Espanha, uma atividade que desapareceu com a mecanização agrícola, mas que simboliza um tempo em que a circulação entre as duas margens da fronteira era feita muito mais pelas pessoas do que pelos Estados.

Embora o imaginário coletivo continue a associar o flamenco quase exclusivamente à Andaluzia, a Extremadura desenvolveu uma identidade própria. Os seus tangos e jaleos, hoje reconhecidos como cantes autóctones, constituem uma linguagem singular dentro do universo flamenco, preservada sobretudo pelas famílias ciganas da região de Badajoz.

Miguel Vargas, referência maior da guitarra flamenca estremanha, também criador de uma linguagem guitarrística própria. “Não existia um toque característico da Extremadura. Construí essa identidade”, afirma. O chamado toque extremenho tornou-se hoje uma referência para músicos e estudiosos do flamenco, sendo reconhecido muito para além das fronteiras espanholas.

Ao seu lado cresce uma nova geração. Juan Vargas, filho de Miguel, começou por acompanhar o compasso com as palmas ainda em criança e pegou na guitarra aos treze anos. Para ele, “a Extremadura tem personalidade própria dentro dos vários estilos do flamenco. Tem um cante autóctone”. Mais do que uma afirmação artística, é uma reivindicação histórica de um património que durante décadas permaneceu secundarizado face ao flamenco andaluz.

Nesse percurso é impossível ignorar a figura de José Salazar Molina, o lendário Porrina de Badajoz. Miguel Vargas recorda a amizade que unia Porrina e Amália Rodrigues e acredita que essa relação traduzia uma afinidade profunda entre duas formas de cantar a emoção. Não por acaso, considera que o público português escuta o flamenco de maneira diferente. Em Espanha, o entusiasmo manifesta-se imediatamente entre “olés”, palmas e participação constante, em Portugal, a emoção revela-se primeiro no silêncio atento. “Os portugueses têm uma enorme sensibilidade.”

Foi precisamente essa sensibilidade que se viveu em Évora. O espetáculo percorreu diferentes linguagens do flamenco, mantendo como eixo o repertório da Extremadura. Ao lado de Miguel, o filho Juan Vargas e o genro José Jiménez, , juntaram-se músicos convidados, Javier Mojave, Nuria Claveria e ainda, o jovem bailaor Diego Andújar, de apenas 25 anos. Filho da reconhecida professora Pilar Andújar, que durante quatro décadas formou sucessivas gerações de bailarinos, Diego cresceu dentro de uma escola de flamenco. “Devo-lhe tudo. Foi a minha mestra”, afirma. Começou a dançar aos dez anos, integra atualmente uma companhia em Madrid e acabava de regressar de uma digressão pelo México quando subiu ao palco em Évora. O seu objetivo é claro, contribuir para levar o baile flamenco da Extremadura a Espanha, Portugal e ao resto do mundo.

Depois de atuarem em palcos de referência como o Teatro Romano de Mérida, o Centro Cultural Fernán Gómez, em Madrid, ou o Teatro Garcia de Resende, em Évora, seguem agora para a Fundação Calouste Gulbenkian, Pamplona e Madrid, mantendo uma intensa atividade internacional que já passou por países como França, Bélgica, Emirados Árabes Unidos e outros.

Mas a importância desta noite ultrapassou largamente a dimensão artística. Para António Candeias, Reitor da Universidade de Évora,

“a cultura não é um adorno, mas uma dimensão fundamental do desenvolvimento humano”.

Essa visão encontra tradução na estratégia delineada em conjunto com o vice-reitor para a Cultura, António Sáez Delgado, que propõe a criação de um verdadeiro corredor cultural entre o Alentejo e a Extremadura.

A ideia é simultaneamente simples e transformadora, se a fronteira do Minho e da Galiza representa um eixo económico e a ligação entre Algarve e Andaluzia se afirma sobretudo pelo turismo, a fronteira entre Alentejo e Extremadura pode afirmar-se como a grande fronteira cultural da Península Ibérica. Duas regiões frequentemente vistas como periféricas passam, quando pensadas em conjunto, a ocupar uma posição central entre Lisboa e Madrid. A aposta passa por construir uma aliança estratégica entre universidades, instituições e agentes culturais dos dois lados da fronteira, fazendo da cultura um verdadeiro instrumento de desenvolvimento e cooperação.

Também Ricardo Cabezas, deputado da Cultura da Diputación de Badajoz, sublinhou o simbolismo da iniciativa, recordando que o flamenco e o fado são Património Cultural Imaterial da Humanidade e defendendo a necessidade de divulgar a singularidade do flamenco da Extremadura.

António Candeias, Reitor da Universidade de Évora

António Sáez Delgado, Vice-Reitor da universidade de Évora para a Cultura

Ricardo Cabezas, Deputado da Cultura da Diputación de Badajoz

Dificilmente esta parceria poderia ter começado de forma mais representativa. A escolha da Família Vargas sintetiza tudo aquilo que este projeto pretende afirmar, uma herança partilhada, raízes portuguesas e espanholas, criação contemporânea e profundo respeito pela tradição.

Arquiteta Sofia Salema com o colega Pedro Guilherma da Escola das Artes

“A arte é a capacidade de emocionar.”

Miguel Vargas

Em Évora, essa capacidade foi mais que evidente. Naquela noite não se celebrou apenas o flamenco, celebrou-se uma identidade comum construída muito antes das fronteiras modernas, uma memória partilhada entre Portugal e Espanha e a certeza de que algumas das mais importantes pontes entre os povos continuam a ser construídas pela cultura.

A FRONTEIRA DA CULTURA

Proposta de aliança estratégica ibérica

“Durante décadas, o Alentejo e a Extremadura foram vistos como territórios periféricos, situados nas margens de Portugal e de Espanha. Contudo, uma nova perspetiva revela uma realidade muito diferente: entre Lisboa e Madrid existe um corredor estratégico, com um capital relacional consolidado, onde a fronteira deixa de ser um limite ou uma cicatriz histórica para se afirmar como um espaço de encontro, cooperação e criação de valor.

Se o Norte da Raia ibérica construiu a sua centralidade em torno da economia (seria a fronteira da economia), e o Sul a consolidou através do turismo (a fronteira do turismo), o corredor central dispõe de um ativo distintivo capaz de lhe conferir projeção internacional: a Cultura. Universidades, centros de investigação, museus, teatros, festivais, arquivos e espaços de criação artística formam um ecossistema de excelência, com condições únicas para se afirmar como um modelo europeu de cooperação transfronteiriça.

É neste contexto que nasce A Fronteira da Cultura, uma aliança estratégica entre as principais instituições culturais do Alentejo e da Extremadura, destinada a promover projetos comuns, reforçar a circulação de artistas e investigadores, captar financiamento europeu e consolidar um verdadeiro espaço cultural partilhado entre Portugal e Espanha. Pela sua história, prestígio académico, capacidade científica e forte implantação territorial, a Universidade de Évora encontra-se numa posição privilegiada para coordenar esta aliança estratégica, assumindo o papel de instituição agregadora de um consórcio aberto a universidades, administrações públicas, instituições culturais, centros de investigação e agentes criativos de ambos os lados da fronteira. Através desta liderança colaborativa, poderá afirmar-se como o principal polo de conhecimento, inovação e cooperação cultural do corredor central ibérico.

A realização de Évora 2027 – Capital Europeia da Cultura confere a esta iniciativa uma oportunidade única de afirmação e projeção internacional. Mais do que um grande evento cultural, Évora 2027 constitui uma plataforma privilegiada para lançar uma visão de longo prazo sobre o território, capaz de transformar um programa temporário num legado permanente de cooperação transfronteiriça. A Fronteira da Cultura pode afirmar-se como um dos projetos estruturantes desse legado, prolongando o impulso gerado por

Évora 2027 e consolidando uma rede cultural estável entre o Alentejo e a Extremadura, com capacidade para atrair novos parceiros, financiamento europeu e projetos internacionais muito para além do horizonte da Capital Europeia da Cultura.A Fronteira da Cultura não pretende apenas desenvolver uma programação conjunta.

Propõe uma nova forma de pensar este território com baixa densidade populacional: transformar um espaço tradicionalmente entendido como periférico num referencial europeu de cooperação cultural. Uma visão capaz de reforçar a projeção internacional do Alentejo e da Extremadura, criar novas oportunidades de desenvolvimento e afirmar a Cultura como um fator estratégico de coesão, inovação e centralidade no coração da Península Ibérica”.

 

Antonio Sáez Delgado

Vice Reitor para a Cultura da Universidade de Évora

Guitarra Miguel Vargas

Guitarra Juan Vargas

Cantaora Nuria Claveria

Bailaor Diego Andújar

Baixo José Jiménez

Percurssão Javier Mojave