por Maria Jacobetty Bacelar
Estreia dia 9 de Julho no Teatro Maria Matos, a peça de Ricardo Neves-Neves, Swimming Pool Party uma tragicomédia onde o humor, a música ao vivo e o absurdo se cruzam para traçar um retrato mordaz das aparências, dos privilégios e duma sociedade artificial.
Com um elenco de reconhecidos atores e uma forte componente musical, o espetáculo constrói um universo simultaneamente extravagante e inquietante, onde a sátira convive com uma reflexão profunda sobre poder, estatuto social e identidade.
Em conversa com a A MAGAZINE, o encenador Ricardo Neves-Neves e os atores Ana Brito e Cunha, Ruben Madureira e Filipe Vargas oferecem uma amostra do processo criativo por detrás desta produção, falam sobre a construção das personagens, da importância da música ao vivo e aquilo que esperam que o público leve consigo depois de assistir a esta viagem tão delirante quanto reveladora.

O que tem esta peça de especial?
Ricardo
Com esta peça, pude voltar a fazer um tipo de espetáculo de que já tinha muitas saudades: tragicomédias com música ao vivo, em que a música acaba por guiar e direcionar a encenação. Tive um trabalho muito próximo com os diretores musicais deste espetáculo, o Artur Guimarães e o António Andrade Santos, e esse trabalho acabou por definir o caminho da encenação.
Ana
É um privilégio estar com uma banda, com a direção musical do Artur Guimarães e do António Andrade Santos, a coordenar estes músicos, que são maravilhosos.
Ricardo
Ver uma banda sonora a acontecer ao vivo, em que podemos não só ouvir a música correspondente às emoções que a cena nos transmite, mas também ver o movimento dos músicos e perceber que instrumento está a tocar o quê, é uma experiência muito interessante e divertida para o espectador. Tinha muitas saudades de fazer este tipo de espetáculo, com música ao vivo. A música, por si só, já é extraordinária. Ao vivo, torna-se ainda mais estimulante para o público e também para mim, que estou todos os dias na sala de ensaios. Às vezes até finjo que as coisas estão mal, só para voltar a ver as cenas de que mais gosto e que mais me entusiasmam.
Ana
É um enorme privilégio fazer um trabalho do Ricardo, trabalhar com estes colegas e com estes autores, por quem tenho um enorme respeito.
Ruben
Faço teatro há muitos anos e acho que todos os textos são diferentes. A estética é sempre diferente. Uns têm música, outros não. Uns são mais trágicos, outros mais cómicos. Para mim, o maior privilégio é trabalhar com atores que verdadeiramente se dão bem, mesmo depois de o pano cair.
Acho que o teatro só funciona quando existe uma comunidade a trabalhar no mesmo sentido, com a mesma alegria, a mesma energia e a mesma dedicação. Quando estamos verdadeiramente preocupados com quem está ao nosso lado e canalizamos a nossa força para que ele ou ela não falhe.
Nesta peça, o maior privilégio é precisamente esse: termos atores que se dão genuinamente bem, sem bullshit. Porque, na vida real, muitas vezes usamos máscaras para uma série de situações. Nós já nos conhecemos e passámos por um longo período de ensaios — quase dois meses, creio eu. Somos pessoas que, muito provavelmente, continuarão a jantar juntas. Nunca há grupos separados, uns para um lado e outros para outro. Acho que isso também faz com que esta peça queira tanto ser vista pelas pessoas.
É essa dimensão invisível do teatro que mais me fascina. Não é apenas o texto ser bom, e é, de facto, um texto incrível, de que gosto muito. O maior privilégio é darmo-nos tão bem. E, assim, o jogo flui com muito mais facilidade.
Ana
Acho que esta peça tem de extraordinário um estilo que já foi muito feito em Portugal, e muito bem feito, mas nunca desta forma. Já se fez, mas nunca assim.
É uma enorme crítica à sociedade, retratada de forma brilhante. É completamente surrealista, ou, como diz o Ricardo, uma patologia do cérebro. Acho que ele encontrou o tom, o lugar certo e a fórmula ideal para descrever este tipo de sociedade, onde todas as figuras estão muito bem caracterizadas.
O trabalho do Ricardo é extraordinário e sinto-me privilegiada por fazer parte dele.
Filipe
Esta peça tem uma característica de que gosto muito no teatro, na ficção ou em qualquer narrativa: existe uma camada superficial que parece bastante leve, porque há muito exagero, muita caricatura, muita música, muita dança, muita cor e muita felicidade.
Mas, quando começamos a prestar atenção às relações entre as personagens, ao que dizem e às referências que fazem, percebemos que existe uma crítica social brutal a uma parte da sociedade que vive numa bolha, completamente desligada das dificuldades dos outros e marcada por uma enorme falta de empatia.
São pessoas com quem, à partida, nem teríamos de nos preocupar, porque vivem no seu próprio mundo. Mas são precisamente essas pessoas, o chamado 1%, ou essa pequena percentagem que concentra a riqueza, que acabam por querer apropriar-se da riqueza de todos.
Há uma enorme avidez pelo poder e um profundo desprezo pela cultura. É como se o mundo fosse apenas um playground para estas pessoas. E, por isso, podem destruir, ignorar os direitos dos outros e continuar apenas preocupadas com uma swimming pool party, uma garden party, uma cocktail party ou uma party by Mount Gustangang. A certa altura fala-se até das inaugurações, da red carpet, do lounge e de toda esta terminologia de uma sociedade que vive permanentemente em festa.
Não há mal nenhum em celebrar a vida. O problema é quando essa celebração pertence a pessoas profundamente vazias, que acabam por ocupar o espaço de muita gente.


Como foi desenvolver as personagens desta peça?
Ricardo
As personagens já tinham características muito próprias no papel. Depois, durante o período de ensaios, quer pelas propostas dos atores, quer por uma construção muito partilhada comigo, foram aproximando-se de um tom e de uma linguagem comuns, ao mesmo tempo que se iam diferenciando cada vez mais umas das outras.
Na verdade, isso é algo que tenho procurado no teatro. Sei que a noção de personagem, nas últimas duas ou três décadas, saiu um pouco de moda. Talvez eu esteja um bocadinho fora de moda, mas gosto de ver personagens com profundidade e atores que dominam plenamente as suas personagens.
Mesmo quando acontece um deslize ou um imprevisto, o ator consegue responder intuitivamente a partir dessa construção que fez, que é sua, naturalmente, mas que também resulta das características que estavam escritas no texto e que foram desenvolvidas durante os ensaios.

Como foi o processo de entrar na sua personagem?
Ana
A proposta do Ricardo divertiu-me muito. Deu-me algumas referências que me faziam sentir sempre muito over, muito fora da minha zona de conforto. Depois, quando apareceu com a cabeleira e o figurino, foi um verdadeiro embate para mim. Mas tudo isso ajudou-me muito a construir este estereótipo de mulher que ele pretendia.
Ruben
Nunca é fácil, porque estamos a dar corpo à visão do encenador e à forma como ele vê aquela personagem.
Sou um ator que gosta de ser dirigido. Gosto de perceber aquilo que o encenador pretende, porque essa é, para mim, a forma mais pura de estar próximo dos seus sonhos. Acho que, ao deixar-me encenar, estou a dar-lhe o melhor que posso.
Gosto de propor, obviamente, dentro da lógica que encontro no Ricardo, que é genial, e gosto de me deixar conduzir.
Foi um processo fácil porque tenho à minha frente um amigo, o Zé, que conheço há muitos anos. Chegámos rapidamente a um lugar de grande simbiose e o nosso jogo fluiu desde o início dos ensaios. Já existia confiança, não tivemos de ultrapassar a fase de conhecer o outro, do toque, da proximidade ou dessa entrada no campo energético da outra pessoa. Nesse sentido, foi muito bom.
Filipe
Foi um desafio muito grande, porque o universo do Ricardo Neves-Neves é profundamente exagerado. O traço é muito próprio e a assinatura dele é muito particular.
Há um conjunto de características que atravessam a linguagem, os gestos, a cenografia e os figurinos e que pertencem claramente ao universo do Ricardo. Mas aquilo que ele procura é levar-nos ao exagero sem nunca cair na caricatura.
As personagens podem ser muito over the top, mas nunca deixam de ser humanas. O público nunca pode sentir que está perante um ser completamente alienígena. Deve conseguir perceber de onde aquela pessoa vem e reconhecer nela alguém que, de alguma forma, existe à sua volta.
Ana
A minha personagem é uma mulher exótica, proveniente de um contexto social mais baixo, mas é uma mulher lutadora, que vai atrás daquilo que quer e que não tem medo. Tem alguma vergonha, mas sabe escondê-la. Vai entrando nos meandros da alta sociedade sem nunca perder a sua essência nem esquecer de onde vem.
A Lavínia é uma verdadeira força da natureza e representa um enorme contraste social em relação aos anfitriões da festa. Mas nunca deixa de ser ela própria. Por muito que queira subir na vida e alcançar outro estatuto, faz questão de não perder a sua identidade. Acho isso muito rico.
Filipe
Se olharmos para todas estas personagens que estão nesta swimming pool party, reconhecemos pessoas mais ou menos assim. Há os deslumbrados, os ressabiados, os que se aproveitam dos outros e os que são aproveitados.
Tudo isto funciona tanto melhor quanto mais corajosa for a caricatura. Se ficar apenas pela rama, transforma-se num simples boneco. Mas, quando vamos até ao fundo e percebemos também os dramas destas pessoas, profundamente tristes e solitárias , encontramos essa linha muito fina entre a miséria e a comédia.
Foi isso de que mais gostei no desenvolvimento da minha personagem.


A personagem do Eduardo tem uma grande relação com o espaço em que se encontra?
Filipe
Então, este Eduardo é como se fosse um parasita, não é? Portanto, como a Judy pode ser uma parasita, são pessoas que se vão aproveitando umas das outras para terem um estilo de vida, mesmo que isso exija sacrificar alguns traços da sua personalidade. Mas esta personagem, o Eduardo, sente que tudo vale a pena para ele estar neste espaço, neste palácio, neste jardim, com esta piscina.
Depois, percebemos que isto é tudo uma ilusão, porque a piscina não funciona muito bem, o palácio não deve ter muita mobília e eles estão a fazer uma festa no jardim. Portanto, há aqui uma espécie de distopia. Estas personagens supostamente estão a viver uma vida ótima, porque vêm de umas férias, fazem uma festa, vão para outras férias e andam sempre em constante celebração da vida. Mas isto não são festas, isto são fugas para a frente. Eles só querem esquecer-se de si próprios e da sua condição.
Às vezes há alguns momentos em que as personagens chegam a níveis de rutura intelectual, chegam a uma espécie de curto-circuito e começam a ter alucinações de ideias. Como também já não estão habituados a discutir de uma forma inteligente, lançam apenas temas para o ar, sem obrigação de os desenvolver. É só: «Eu já vi isto», «eu já li isto», «já estive aqui», «já fiz isto». É uma espécie de enumeração de medalhas, de recompensas que foram tendo na vida, mas que, depois, não deixaram grande marca.

A personagem do Alex tem diversas dinâmicas com várias personagens?
Ruben
Esta personagem, o embaixador, que é o Alex, é uma personagem que facilmente pode ser reconhecível neste tipo de festas. Acho que é uma pessoa que aparenta ter uma vida social e um estatuto social com mais relevo do que aquele que, na verdade, tem.
Ou seja, acho que também é um pouco aquilo que as pessoas, hoje em dia, escondem atrás de um sorriso. Porque um sorriso, na maior parte das vezes, não quer dizer necessariamente que nós estejamos felizes. E acho que este tipo de festas também retrata isso.
No Alex personificado, há que pensar na verdadeira essência do Alex e perceber porque é que ele vem a esta festa. Será para apresentar a filha à sociedade, com o intuito de ter outras regalias no futuro? Será para guardar um legado? Será para sobreviver à infelicidade de ter sido um cantor falhado?
Acho que ele se protege na vaidade e na ostentação. E acho que a ostentação está no topo dos temas de que aqui se fala. Ostenta-se muito, sem se mostrar e revelar verdadeiramente o que é realmente verídico na vida destas pessoas. É nesse sentido que o Alex se refugia.
Olhando depois para o embaixador, acho que também há ali uma questão de orientação sexual que sugere alguma curiosidade. Ficamos com uma ideia dúbia sobre se ele poderá ser bissexual ou não. Acho que é um pouco como aqueles cavalheiros que, tendencialmente, ainda se escondem em lugares que não os libertam na sua plenitude.


Como foi o processo da seleção das músicas?
Ricardo
Foi em várias fases, porque escrevi o texto em 2017, que foi depois estreado em 2018 pela Mónica Garnel, mas ensaiado por mim foi só em 2024, quando foi a inauguração do Teatro Variedades.
Houve músicas que usei como estímulo para escrever a peça em 2017 e que depois fui buscar à memória, lá atrás, e recuperei para este espetáculo. Havia também músicas que já estavam escritas na própria peça; umas foram utilizadas, outras não.
Depois houve músicas sugeridas pelos diretores musicais e ainda muita música que recebi por influência dos vídeos do TikTok e do Instagram. Ou seja, aquelas cinco ou seis músicas que parecem que toda a gente usa para fazer vídeos, algumas delas nós utilizámos aqui no espetáculo.
E depois vêm aquelas coisas que, às vezes, não sabemos de onde surgem. Por exemplo, a música que abre o espetáculo e que usamos em duas versões muito diferentes entre si, apesar de ser a mesma música. É daquelas coisas em que vou na rua a ouvir música, numa caminhada qualquer, e, de repente, penso: «Esta é a música certa para o espetáculo.»
Não sabemos bem explicar porquê. Às vezes tem a ver com a letra, mas outras vezes a letra adequa-se e a melodia não se adequa.


Das críticas feitas à sociedade com a peça, qual se destaca para si?
Ana
Temos o trabalho aqui da enfermeira e da criada, que é uma crítica muito dolorosa, muito crua e que está muito bem retratada. Muitas vezes é maldade, que não é esse o objetivo, mas é isso que, na realidade, toca a estas pessoas, e mexe muito comigo.
Especialmente, estamos numa época em que o mundo está como está, com as guerras como estão, os refugiados dos países que muitas vezes nem sequer são bem recebidos, e acho que isto toca num âmago fortíssimo.
Embora estejam todas as figuras muito bem retratadas e todas elas me toquem, umas mais divertidas que outras, umas mais satíricas que outras, nestas duas figuras, da Maria de Lurdes e da enfermeira Natasha, acho que há um toque de genialidade muito duro, muito, muito duro.

O que gostava que o espectador levasse com ele depois de visionar esta peça?
Ricardo
Há todo um género de movimento artificial das aparências que, desde que existe um género de escada social, também existe na aparência. Porque, independentemente do degrau onde as pessoas estejam, fingem sempre estar num degrau acima, ou em vários. Mesmo que seja a pessoa que está no degrau mais alto, como há ainda um degrau acima, a pessoa finge sempre que está nesse degrau.
Então, esse género de comportamento artificial, em que, neste caso, as personagens criam também uma persona que não é a sua verdadeira, é, na verdade, um espelho daquilo que é o nosso comportamento.
Este género de constante desonestidade no que é estar em grupo, em comunidade, e neste caso, como todos julgam a pessoa que está ao lado e todos são julgados pela pessoa que está ao lado, cria-se esse género de capa, de bolha de defesa, em que conseguimos rever alguns dos nossos comportamentos nos comportamentos de alguém que conhecemos.
Não é só dizer aquela coisa básica de que o teatro é o espelho da sociedade ou que o espectador se vê ao espelho, mas há coisas em comum aqui.
Claro que elas depois têm todo um género de comportamento mais exuberante, mais extravagante, um bocadinho mais fantasiado, porque também estamos num palco, estamos no contexto da ficção. Portanto, elas existem num género de criação cheia de cafeína do que é o normal que nós conhecemos.
De qualquer forma, às vezes também vemos pessoas que parecem mais personagens do que pessoas. Portanto, na prática, não tenho a certeza de que seja assim tão exuberante ou se, na verdade, é até mesmo um género de fotocópia daquilo que já conhecemos.
Como descreveria a peça em três adjetivos?
Ricardo
Desequilibrada, em cafeína e c
Vídeo Maria Jacobetty Bacelar. Fotografia João Bettencourt Bacelar
Ficha técnica
Texto e Encenação: Ricardo Neves-Neves
Com: Ana Brito e Cunha, Ana Cloe, Ana Marta Contente, Filipe Vargas, José Leite, Marta Andrino, Rúben Madureira, Sandra Faleiro, Santiago Galvão
Direção Musical: Artur Guimarães, António Andrade Santos
Maestro: António Andrade Santos
Músicos: a definir
Cenografia: Catarina Amaro
Figurinos: Rafaela Mapril
Desenho de Luz: Cristina Piedade
Desenho de Som: Gonçalo Carlos
Sonoplastica: Sérgio Delgado
Assistência de Figurinos: Margarida Silva
Confecção de Figurinos: Ana Baltar, Ana Santos, Maria Afonso
Construção Adereços de Figurinos: Marisa Fernandes
Coreografia e movimento: Marco Mercier
Caracterização e cabelos: Carlos Feio
Fotografias e Vídeo Promocional: Pedro Macedo / Framed Films
Fotografias de Cena: Estelle Valente
Ilustrações Promocionais: Tiago Albuquerque
Design Gráfico: Teatro do Eléctrico José Cruz
Assistência de Encenação: José Leite
Produção e Direção de Cena: TdE Sílvia Moura
Produção: Culturproject Nuno Pratas
Coprodução: Teatro Variedades, Cineteatro Louletano, Teatro do Eléctrico, Culturproject
Acolhimento: Teatro Maria Matos
2026 | 9 JUL A 9 AGO
LISBOA, TEATRO MARIA MATOS
QUI A SÁB, às 21H
DOM, às 18H

