CULTURA, O FUTURO DO TURISMO

por Susana Jacobetty

Museu dos Terceiros de Ponte de Lima

Turismo, cultura e património convergem hoje numa estratégia capaz de reinventar os territórios e afirmar uma nova economia da identidade. Há muito que o Turismo de Habitação deixou de ser uma mera categoria de alojamento para se afirmar como um dos mais interessantes laboratórios de política cultural em Portugal. O VII Encontro Nacional do Turismo de Habitação, realizado em Ponte de Lima, confirmou precisamente essa transformação: aquilo que esteve verdadeiramente em discussão não foi apenas turismo, mas a forma como um país decide preservar a sua memória construída.

Francisco Calheiros e Menezes, Presidente da Turihab e Paulo Barreiro de Sousa, Vice-presidente da Câmara Municipal de Ponte de Lima

No cenário particularmente simbólico do Museu dos Terceiros, um dos mais relevantes testemunhos do barroco português, reuniram-se historiadores, gestores culturais, responsáveis políticos, especialistas em património e representantes do setor para debater um tema que atravessa todas as sociedades contemporâneas, como manter vivo um património que, sem utilização, está condenado ao abandono.

A diversidade do painel revelou-se uma das maiores qualidades do encontro. Da intervenção do historiador Joel Cleto emergiu uma leitura do barroco enquanto fenómeno político, económico e religioso, lembrando que a arquitetura nunca existe desligada das circunstâncias históricas que a produzem. A exuberância dos solares, igrejas e palácios do Norte resulta de uma conjugação rara de poder, riqueza e identidade territorial que continua hoje a marcar profundamente a paisagem portuguesa.

Francisco Calheiros e Menezes, Paula Reis, representante da Entidade Regional de Turismo do Porto e Norte de Portugal (ERT-PNP) e Joel Cleto, Historiador

Paula Reis

Teresa Andresen, AJH, Associação Portuguesa de Jardins Históricos, Teresa Albuquerque, Fundação Casa de Mateus e Francisco Calheiros

Essa dimensão histórica encontrou continuidade na reflexão de Teresa Andresen, da Associação Portuguesa de Jardins Históricos, ao recordar que uma casa senhorial nunca é apenas um edifício. É um organismo patrimonial complexo, composto por jardins, sistemas agrícolas, muros, caminhos e ecossistemas culturais cuja preservação exige uma visão integrada e multidisciplinar.

Se a cultura forneceu o enquadramento conceptual, foi a economia do património que dominou grande parte do debate.

Paulo Barreiro de Sousa, Cristina Pinto Dias, Secretária de Estado da Mobilidade, Pedro Machado, Secretário de Estado do Turismo, Comércio e Serviços e Susana Jacobetty, Diretora da A MAgazine

Vereadora Lúcia Soares Pereira da Câmara Municipal de Ponte de Lima

Álvaro Santos, Presidente da CCDR Norte

Francisco Calheiros, presidente da TURIHAB, recordou que a associação celebra quatro décadas de existência mantendo uma ideia fundadora que permanece surpreendentemente atual, abrir as casas históricas à hospitalidade como forma de garantir a sua sobrevivência. Muito antes de conceitos como turismo sustentável, autenticidade ou economia da experiência entrarem no vocabulário corrente da indústria, o Turismo de Habitação português já defendia um modelo baseado na singularidade dos lugares, na relação pessoal entre anfitrião e visitante e na valorização das identidades locais.

“Os nossos grandes objectivos são a sustentabilidade, a preservação do património, a coesão e a vitalidade dos territórios de baixa densidade. Quando recuperamos um solar, fixamos pessoas, dinamizamos a economia local e damos uso a um saber e a um lugar que, de outro modo, se perderiam.

Olhar para trás com orgulho não dispensa olhar para a frente com lucidez. Seria um erro ignorar as ferramentas digitais, como a inteligência artificial, mas seria um erro ainda maior deixar que elas nos descaracterizem. O nosso desafio é usar as tecnologias mais avançadas, que não substituem o atendimento à porta de um solar.” 

Francisco de Calheiros e Menezes

 A afirmação ganha hoje renovada pertinência. Num mercado turístico cada vez mais homogéneo, onde muitas cidades se aproximam perigosamente umas das outras, aquilo que diferencia um destino é precisamente aquilo que não pode ser replicado, a história, a memória, a arquitetura e a autenticidade.

 É neste contexto que a apresentação da Rota do Barroco a Norte assume particular relevância. Mais do que um novo itinerário turístico, trata-se de uma proposta de leitura do território enquanto narrativa cultural contínua, articulando igrejas, solares, centros históricos, jardins e unidades de Turismo de Habitação numa experiência que ultrapassa a simples visita monumental.

A iniciativa traduz igualmente uma evolução estratégica da própria TURIHAB, que deixa de ser apenas promotora dos Solares de Portugal para assumir um papel mais abrangente enquanto agente de valorização patrimonial e dinamização territorial.

Também Paulo Barreiro de Sousa, vice-presidente da Câmara Municipal de Ponte de Lima, sublinhou uma realidade frequentemente esquecida nas políticas públicas, muitos destes imóveis sobrevivem graças ao investimento privado dos seus proprietários, que acabam por assumir responsabilidades que, em larga medida, pertencem ao interesse coletivo. A preservação dos solares representa muito mais do que a conservação de edifícios, significa manter vivas economias locais, fixar população, proteger paisagens culturais e reforçar a identidade dos territórios.

“O Turismo de Habitação tem um posicionamento estratégico no turismo nacional porque é altamente diferenciado e pode ser altamente qualificado e posicionado como um produto premium, quer em termos de alojamento, quer das experiências que proporciona aos turistas.

Através dos solares, temos a oportunidade de viver verdadeiras experiências sensoriais ligadas à cultura, ao património, à forma e aos hábitos de vida que temos, ou que tiveram ao longo de gerações, naquelas casas.

O que representam para o território é de um valor imenso. São ativos patrimoniais fundamentais para o desenvolvimento turístico, cultural e social dos nossos concelhos. Eu não imagino o concelho de Ponte de Lima sem os solares nas nossas aldeias e no nosso centro histórico; seríamos muito mais pobres enquanto limianos.

Estamos a falar de um património muito valioso, que é património nacional e que o Estado tem obrigação de acolher, compreender e definir estratégias para valorizar ainda mais. É um património disperso por todo o país e que, muitas vezes, continua a ser o parente pobre do património nacional.

Muitas vezes, é o proprietário que faz o trabalho do Estado, preservando o património. E, nesta dimensão, temos de estruturar em conjunto uma estratégia coletiva para valorizar ainda mais o Turismo de Habitação em Portugal, mas também olhar para novos conceitos inovadores que acrescentem valor à experiência de visitação dos solares.” 

Paulo Barreiro de Sousa, Vice-Presidente da Câmara Municipal de Ponte de Lima

Paulo Barreiro de Sousa, vice-Presidente da Câmara Municipal de Ponte de Lima

Talvez uma das intervenções mais reveladoras tenha sido a do secretário de Estado do Turismo, Comércio e Serviços de Portugal, Pedro Machado, ao defender que toda a experiência turística é, inevitavelmente, uma experiência cultural. A afirmação traduz uma mudança de paradigma que demorou décadas a consolidar. Durante muito tempo, cultura e turismo foram entendidos como universos paralelos, hoje percebe-se que ambos convergem na valorização do território e na construção de modelos de desenvolvimento sustentáveis.

Pedro Machado, Secretário de Estado do Turismo, Comércio e Serviços de Portugal

“A importância de um turismo qualificado, assente na identidade, na autenticidade e na singularidade dos territórios, é o futuro. É esse modelo que proporciona experiências verdadeiramente diferenciadoras, ao mesmo tempo que valoriza e preserva o património cultural nas suas múltiplas dimensões.

Num contexto global cada vez mais competitivo, são precisamente a cultura, a memória e o carácter distintivo dos lugares que constituem os seus maiores fatores de atratividade.

Por isso, turismo e cultura devem ser pensados de forma articulada e estratégica, uma vez que convergem nos seus objetivos essenciais: promover o desenvolvimento sustentável, fortalecer as comunidades e afirmar a identidade dos territórios.” 

 

Pedro Machado, Secretário de Estado do Turismo, Comércio e Serviços de Portugal

A dimensão tecnológica também marcou presença no debate, a inteligência artificial foi apresentada por Francisco Melo e Silva, consultor de novas técnologias, como ferramenta de gestão, promoção e qualificação, mas nunca como substituto daquilo que constitui a essência do Turismo de Habitação. Como sintetizou Pedro Machado, quanto maior for a inteligência artificial, maior terá de ser a inteligência emocional.

A frase resume um dos paradoxos mais interessantes do setor. Num tempo dominado pela automatização e pela digitalização, aquilo que continua a distinguir estas casas é precisamente o elemento humano, o proprietário que recebe os visitantes, a história familiar que atravessa gerações, o conhecimento transmitido à mesa ou no jardim, a sensação de entrar numa casa vivida e não num produto estandardizado.

O encontro terminou com sinais políticos relevantes, nomeadamente a intenção de adaptar o regime das Medidas de Autoproteção às especificidades dos edifícios históricos, uma reivindicação antiga que reconhece finalmente que um solar seiscentista não pode ser regulado segundo critérios concebidos para edifícios contemporâneos sem colocar em risco a sua autenticidade.

Quarenta anos depois da criação da TURIHAB, o Turismo de Habitação continua a afirmar-se como uma ideia surpreendentemente moderna. Não porque resista ao tempo, mas porque compreendeu antes de muitos que preservar património implica encontrar-lhe uma função económica, social e cultural.

O VII Encontro Nacional demonstrou que o futuro destas casas históricas não dependerá apenas da memória que encerram, mas da capacidade de continuarem a produzir conhecimento, experiência e desenvolvimento. Afinal, o património não se conserva para ser contemplado à distância. Conserva-se para permanecer habitado, vivido e integrado no presente, transformando-se, geração após geração, numa das mais sofisticadas expressões da identidade portuguesa.

Bernardo Trindade, Presidente da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP)

Assinatura do protocolo entre a Turihab e a AHP, Associação da Hotelaria de Portugal

Joel Cleto e Susana Jacobetty. Fotografia Tristão Bacelar Malheiro

Tristão Bacelar Malheiro e Francisco Calheiros e Menezes

Francisco Calheiros e Menezes e Susana Jacobetty

Tristão Bacelar Malheiro e João de Bettencourt Bacelar