Ângulo por Filipe Vargas – Inês Ferrer e João Costa

Fotografia João Bettencourt Bacelar

TODA A OBRA CRIATIVA É O RESULTADO DE UMA VISÃO PESSOAL, DE UM PONTO DE VISTA, DE UM “ÂNGULO” ATRAVÉS DO QUAL O ARTISTA ABORDA AS TEMÁTICAS QUE MOVEM A SUA OBRA. REALIZADORES, ENCENADORES, ATORES, MÚSICOS, ARTISTAS, BAILARINOS, COREÓGRAFOS SÃO CONVIDADOS A DISSERTAR SOBRE O QUE OS INCLINA A FAZER O QUE FAZEM,COMO O FAZEM, PARA QUEM E PORQUÊ.

INÊS FERRER E JOÃO COSTA SÃO AMBOS BAILARINOS SOLISTAS DA COMPANHIA NACIONAL DE BAILADO E UM DUO COM MUITO EM COMUM, QUE TANTO VOA JUNTO COMO EM SEPARADO NA DANÇA QUE OS UNE. VI-OS EM AÇÃO NO PALCO DO TEATRO CAMÕES, EM LISBOA, NO CICLO GRANDES MESTRES, QUE TROUXE COREOGRAFIAS DE SOL LEÓN & PAUL LIGHTFOOT, EDWARD CLUG E GEORGE BALANCHINE, E FIQUEI LOGO COM VONTADE DE SABER AS ABORDAGENS DE UM E DE OUTRO À SUA FORMA DE ARTE, A DANÇA.

CECI N’EST PAS UN PAS DE DEUX*

Isto não é um pas de deux

NO PRINCÍPIO ERA O VERBO E O VERBO ERA DANÇAR

COMO TUDO COMEÇOU?

Inês: “Danço desde muito pequena, penso que começou como um desejo de criança que foi crescendo comigo até se tornar numa realidade já na vida adulta. A dança tornou-se a minha segunda casa e ao mesmo tempo um traço da minha personalidade. Como foi algo que fiz desde muito nova, desenvolvi uma relação muito próxima com os meus professores na escola de dança do Algarve. Para além de toda a disciplina, técnica e foco, que para mim foi essencial durante a minha adolescência, encontrei no seu lado mais artístico algo que ajudou me também a moldar a minha personalidade e a tornar- me na pessoa que sou hoje.”

João: “Formei-me no Conservatório Nacional de Dança e logo após terminar a minha formação entrei na Companhia Nacional de Bailado e estou neste momento a terminar o curso de Fotografia no Ar.Co. A dança naturalmente é muito expressiva, mas há peças onde nos é dada essa abertura, e outras seguem um código muito fechado e tem de ser o bailarino a encontrar uma pequena brecha para expor algo de si. A fotografia por outro lado, permite expressar-me noutro plano onde tenho especial interesse em cruzar estas duas formas de expressão numa só. Captar o movimento, as vivências e os instantes que antecedem a entrada em palco são aspetos que me despertam particular interesse em dar a conhecer.”

INSPIRO… EXPIRO

COMO SE INSPIRAM E COMO INSPIRAM OS OUTROS?

Inês: “Gosto de me inspirar nas pessoas que vão para além da técnica e que trazem algo único delas próprias. A música, seja ela clássica ou eletrónica, é sempre inspiradora de alguma forma. E há uma tentativa de roubar ao teatro o trabalho que é feito para encarnar uma personagem e fazer o pensamento sobre como se comportaria, o que pensaria e como reagia a situações.”

João: “Cada um traz algo que contamina a peça, seja pela forma como se mexe ou pela forma como transforma aquilo que lhe é dado. O cunho pessoal é o nosso corpo e como ele se mexe no espaço. Cada bailarino tem qualidades únicas que os distingue, nenhum é igual.”

OUÇO LOGO DANÇO

QUAIS OS SONS DE ELEIÇÃO PARA DANÇAR SÓS OU ACOMPANHADOS?

Inês: “Arvo Part é o exemplo de um dos estilos de música que já dancei e que me faz sentir mais em sintonia. Gosto muito quando a música se instala e preenche o espaço, seja sala de ensaios ou palco, e te leva para outro plano, onde o corpo que dança e a música que acompanha são apenas um. A forma minimalista e repetitiva cria, para mim, um envolvimento mais fácil e genuíno.”

João: “Ori Lichtik transporta-me para um ambiente noturno, coletivo. Onde a experiência de dançar não se faz sozinho.”

TODA A MÚSICA TEM MOVIMENTO?

Inês: “Quando ouço uma música imagino muitas vez como a poderia dançar, seja que estilo for. Para mim a ligação da dança e da música é quase inseparável, sendo a dinâmica uma das principais características que aprecio num bailarino.”

 

TODO O MOVIMENTO É MUSICAL?

João: “É difícil para mim não associar movimento a um tempo musical, por isso diria que todo o movimento tem uma musicalidade, às vezes quase nula, outras bastante acelerada.”

 

1, 2, 3, 4, REPEAT

NEM SEMPRE DIFERENTES, NEM SEMPRE IGUAIS

Inês: “Nenhum processo é igual, no entanto, fico sempre curiosa para saber qual é a música que vai ser usada. Se for uma peça que já tenha sido dançado por outros bailarinos gosto de ver como eles interpretaram a peça para me inspirar, mas apenas no início do processo, porque depois gosto de construir a minha própria interpretação e viagem.”

João: “Tenho sempre a minha máquina fotográfica durante o período de espetáculos, talvez seja esse o meu amuleto. Já fiz coisas que gostei muito e outras que não gostei tanto, mas a intenção é tentar encontrar sempre algo para desfrutar. Vai sempre haver personagens ou peças que gostamos mais ou menos de fazer, depende muito de como me conecto e relaciono com o trabalho que estamos a desenvolver.”

SHARON EYAL AO QUADRADO

PORQUE É ESTA A VOSSA COREÓGRAFA DE ELEIÇÃO?

Inês: “Uma abordagem contemporânea sobre as sensações físicas e emocionais do ballet, que leva os bailarinos a procurar o prazer de levar o corpo e a mente ao extremo. A peça que fiz “The look” é interpretada por um grupo grande de bailarinos, que se movimentam como um pulmão, que nunca pára de respirar, e apesar de sermos como um, existe uma individualidade na procura desse mesmo prazer. “Find pleasure in suffering” foi uma frase que me marcou e que levo comigo para futuras experiências.”

João: “Acho que de todo o repertório que dancei poderia ter escolhido alguns outros trabalhos, mas a Sharon Eyal é a coreógrafa que está mais viva na memória por ter dançado uma peça dela há pouco tempo. A peça que dancei dela foi especial, uma peça relativamente curta mas que tinha uma energia muito poderosa. A pessoa que nos ensinou a sua coreografia trazia uma bagagem de informação muito grande que nos permitiu entrar no imaginário dela. Esta peça é dançada ao som de Ori Lichtik o que só ajuda mais ao ambiente.”

DREAM JOB

O QUE TORNA UM ESPECTÁCULO VERDADEIRAMENTE ESPECIAL?

Inês: “Já tive momentos em palco que foram extremamente prazerosos, tanto a dançar clássico como contemporâneo. Posso dizer que uma das coisas mais especiais quando danço, é estar com alguém em palco e sem dizer nenhuma palavra, partilhar momentos que são únicos e inesquecíveis, em que dizemos tanto apenas com o olhar e os corpos em movimento”.

João: “Gostei muito das experiências que tive onde trabalhei diretamente com o coreógrafo, quando as coisas são criadas no momento para o bailarino. Gosto muito de teatros, mas escolheria um espaço não convencional, com um grupo de pessoas que confio e me conecto.”

O LAGO DOS CISNES

O PRÓXIMO PROJETO JUNTOS

Inês: “É a primeira vez que interpreto o papel da Odete/Odile, então posso dizer que está a ser uma experiência totalmente nova e intensa. Da minha perspetiva, como existem tantas outras bailarinas que me inspiram e que interpretam este papel com tanto rigor, tento trazer algo meu, que seja verdadeiro e único, e que me faça acreditar na personagem. É sempre ambiciosa a preparação para um bailado clássico, são muitas horas de ensaios, e muito foco na saúde física e mental, para estar preparado para 3 ou 4 atos em palco, sem nunca saír da personagem.”

João: “É difícil para mim conectar com uma personagem zcomo esta (Príncipe Siegfried), onde o que retrata tem pouco de real e de atual. Nesse sentido, a preparação começa por tentar compreender e de certa forma moldar dentro dos possíveis esta personagem ao meu corpo e tentar ver para além da personagem e trazê-la para os dias de hoje sem comprometer a história. Fisicamente os bailados clássicos e contemporâneos necessitam de preparações diferentes, muitas vezes na forma como nos preparamos nas horas antes entrar em palco.”

Agradecimentos: Francisco Fino e equipa da galeria Francisco Fino (Sara Vicente e Sónia Fonseca)