por Susana Jacobetty
Fotografia João Bettencourt Bacelar

Maria João Pires e António Candeias Reitor da Universidade de Évora
Nascida em Lisboa, em 1944, Maria João Pires é uma das mais notáveis pianistas da história da música portuguesa e uma das intérpretes mais admiradas da cena internacional. Criança-prodígio, iniciou-se ao piano aos três anos e apresentou-se em público pela primeira vez aos quatro. Após a formação em Lisboa e na Alemanha, construiu uma carreira de referência ao lado de alguns dos mais importantes maestros e orquestras do mundo. Paralelamente ao percurso artístico, tem desenvolvido um profundo trabalho de reflexão sobre a relação entre arte, educação e comunidade, dando origem a projetos culturais e pedagógicos que marcaram várias gerações. Este percurso de exceção foi também reconhecido pela academia, tendo recebido o grau de Doutora Honoris Causa pela Universidade de Évora.

As pianistas Maria João Pires e Ana Telles


SJ: Que honra tão grande para a Universidade de Évora receber uma personalidade com o seu percurso.
MJP: A honra é minha. E, confesso, nem sempre é fácil digerir uma distinção desta natureza.
Qual é o significado de receber esta homenagem?
Receber uma honra tem sempre uma dimensão positiva, mas também algo de enigmático. Muitas vezes interrogo-me até que ponto esta distinção, atribuída a mim, não poderia igualmente ter sido atribuída a tantas outras pessoas. Por isso, encaro-a como uma responsabilidade. Quando recebemos uma dádiva destas, o importante é saber como a gerir e como a colocar ao serviço dos outros. Uma honra só ganha verdadeiro sentido quando ultrapassa a esfera individual e se transforma em algo útil para a comunidade.
Quando toca, sente sobretudo a paixão da música ou existe uma componente técnica que prevalece?
A técnica nunca deve prevalecer. A técnica é apenas uma ferramenta. Quando observamos uma grande obra, não pensamos nos instrumentos que foram utilizados para a construir, vemos a obra e aquilo que ela nos transmite. Na música acontece o mesmo. O intérprete deve ultrapassar a técnica para chegar à essência da obra. Eu não sou compositora, sou intérprete. A minha responsabilidade é transmitir a alma da música que o compositor deixou. Se ficarmos presos à técnica, a música deixa de chegar verdadeiramente às pessoas.
Como intérprete, quais são os compositores de que mais gosta?
Gosto dos compositores que toco. Naturalmente existem afinidades e também limitações físicas. Tenho mãos pequenas, o que me afasta de parte do repertório pós-romântico. Mas, se tivesse de escolher apenas um compositor para preservar, escolheria Schubert. Há na sua música uma serenidade e uma paz interior de que o mundo contemporâneo necessita profundamente.
Quando percebeu que o piano seria o caminho da sua vida?
Nunca percebi. Comecei a tocar antes dos três anos porque havia um piano em casa e tudo aconteceu de forma muito natural. Nunca senti que tivesse tomado uma decisão consciente. Não houve um momento de escolha. O piano foi simplesmente acontecendo e acompanhando o meu percurso de vida.
Mozart revelou um talento extraordinário numa idade muito precoce. Acredita que isso se deveu a uma época com menos distrações ou estamos perante um génio absoluto?
É uma questão muito pertinente e particularmente atual. Penso que Mozart era, de facto, um génio. Possuía uma capacidade criativa e uma energia excecionais, capazes de produzir uma obra imensa numa vida tão curta.
Dito isto, não tenho dúvidas de que muitos dos fenómenos contemporâneos afetam negativamente as novas gerações. As distrações permanentes, os ecrãs, a dependência da tecnologia e todas as formas de entretenimento imediato dificultam a concentração e o aprofundamento. Mas existe algo ainda mais preocupante, a ausência de esforço. Vivemos numa sociedade em que tudo tende a estar disponível de forma instantânea. O esforço, a espera, a persistência e a construção gradual das capacidades humanas estão a perder espaço. E sem esforço dificilmente se desenvolvem o pensamento, a criatividade ou a verdadeira liberdade interior.





















Na abertura da cerimónia, o Reitor da Universidade de Évora, o Professor Dr. António Candeias, sublinhou que “uma universidade não existe apenas para transmitir conhecimento; existe para formar sensibilidade crítica, para defender a liberdade de espírito e para preservar aquilo que, numa sociedade, não pode ser reduzido à lógica da utilidade imediata”. Foi precisamente nesse contexto que enquadrou a homenagem a Maria João Pires.
“Num tempo frequentemente marcado pela aceleração, pelo ruído, pela dispersão e pela superficialidade, Maria João Pires recorda-nos algo essencial: a verdadeira criação, em qualquer área, exige silêncio, atenção, profundidade e tempo”.
Para o Reitor, é essa dimensão que torna a sua arte particularmente relevante na contemporaneidade. “Talvez por isso a sua música nos toque de forma tão intensa. Nela encontramos pensamento, interioridade e uma característica cada vez menos comum nos nossos dias, verdade”.


Destacou ainda que Maria João Pires “nunca separou a excelência artística da responsabilidade ética” e que é precisamente essa coerência que a Universidade de Évora quis reconhecer. “Uma universidade deve saber reconhecer não apenas o talento, mas também a forma como esse talento é colocado ao serviço dos outros”.
O Reitor salientou igualmente que, na música de Maria João Pires, existe uma qualidade rara: “Não ouvimos apenas uma intérprete, ouvimos alguém que escuta profundamente aquilo que interpreta. Talvez seja essa escuta que torne as suas interpretações tão profundamente humanas e tão próximas de todos nós”. Num mundo frequentemente dominado pela exibição permanente, acrescentou, essa atitude possui uma dimensão ética. “A Universidade de Évora deseja hoje prestar homenagem também a essa ética: a ética da atenção, da exigência e da verdade”.








Sublinhou ainda que “o verdadeiro centro do nosso trabalho é o ser humano, em todas as suas dimensões, e a arte ocupa nesse processo um lugar insubstituível, precisamente porque há dimensões da experiência humana que apenas a arte consegue revelar de forma plena.” E acrescentou “A cultura, por si só, não salva automaticamente o mundo, mas sem cultura, sem pensamento crítico e sem sensibilidade artística, o mundo torna-se muito mais vulnerável à brutalidade e à desumanização”.
Referindo-se à missão da academia, afirmou que a Universidade de Évora pretende ser “uma instituição onde ciência, cultura, património e criação dialogam permanentemente”, aberta ao território, ao mundo e à complexidade da condição humana. Nesse contexto, considerou que Maria João Pires representa «de forma admirável esse ideal de abertura».





Para o Reitor, a cerimónia constituiu mais do que uma homenagem institucional: foi também uma oportunidade de aprendizagem. “Num tempo em que tantas vezes somos pressionados a transformar tudo em felicidade, produtividade e exposição permanente, o percurso de Maria João Pires ensina-nos outra coisa, a importância do rigor, da escuta, da atenção ao detalhe, da paciência e da profundidade. Ensina-nos que o verdadeiro talento nunca dispensa trabalho e que a grandeza artística não precisa de arrogância”.
Acrescentou que essas lições são igualmente fundamentais para a vida académica, uma vez que “o conhecimento exige curiosidade, rigor, humildade intelectual, capacidade de dúvida e disponibilidade para continuar sempre a aprender”.
A encerrar, destacou que a universidade celebrava não apenas “uma artista extraordinária”, mas também “uma ideia de cultura, uma ideia de educação e uma ideia de universidade”. E concluiu: “Maria João Pires, a Universidade sente hoje uma profunda honra em acolhê-la nesta comunidade académica. Receba este Doutoramento Honoris Causa como expressão da nossa admiração pela artista excecional que é, mas também pelo significado humano, ético e pedagógico do seu percurso. A sua música ajudou-nos a escutar melhor. Talvez essa seja uma das mais altas formas de serviço público que uma artista pode oferecer ao seu tempo”.



Na sua laudatio, a professora e pianista Ana Telles traçou um retrato de Maria João Pires como uma das figuras maiores da interpretação pianística contemporânea. Destacou uma carreira construída ao longo de mais de sete décadas, marcada pela presença nos mais prestigiados palcos internacionais, do Carnegie Hall, em Nova Iorque, ao Royal Festival Hall, em Londres, e por colaborações com alguns dos mais reconhecidos maestros e músicos do mundo.
Para Ana Telles, Maria João Pires “foi e é uma das maiores entre os maiores”, não apenas pelo reconhecimento artístico alcançado, mas também pelo contributo decisivo para a projeção internacional da cultura portuguesa. Com milhões de álbuns vendidos, e uma discografia de referência, a pianista afirmou-se como uma das embaixadoras mais relevantes da excelência musical portuguesa.
A docente sublinhou igualmente a dimensão humanista do seu percurso, recordando que, para Maria João Pires, “a vida é uma arte que deve ser vivida e a música um exercício de empatia humana e de liberdade espiritual”. Mais do que uma profissão, acrescentou, a música constituiu uma missão à qual a pianista se dedicou integralmente, sustentada pela convicção de que a arte pode contribuir para transformar a humanidade.
Ao longo da sua intervenção, Ana Telles destacou ainda o compromisso de Maria João Pires com os grandes desafios do presente, nomeadamente as questões ambientais, educativas e culturais. A preocupação ecológica que a acompanha há décadas levou-a a procurar uma relação mais próxima com a natureza e a defender uma visão da Europa assente na valorização da cultura e dos valores humanos. “A verdade da música pode abrir caminhos de empatia, diálogo e não violência”, recordou, evocando o pensamento da pianista num tempo marcado por conflitos e profundas transformações sociais.
A professora salientou também a importância de desenvolver competências humanas como a imaginação, a sensibilidade e a capacidade de adaptação, considerando que a arte desempenha um papel essencial na construção de uma consciência crítica sobre o estado do mundo. Se a filosofia, as ciências e as humanidades ajudam a compreender a realidade, observou, a arte possui a singular capacidade de tocar a dimensão emocional de cada indivíduo, tornando possível a introspeção necessária a uma mudança de paradigma nas relações entre pessoas, comunidades e territórios.
Na conclusão da sua intervenção, Ana Telles recordou uma das ideias mais profundas do pensamento de Maria João Pires, a convicção de que a arte possui uma dimensão espiritual incontornável. “Para Maria João Pires, a raiz de onde provém a arte tem um lado muito espiritual, tem algo de fé», afirmou.




























Discurso – Doutoramento Honoris Causa de Maria João Pires
“O universo é energia e informação.
Da energia primordial do Big Bang emergiram as partículas fundamentais e, a partir delas, a matéria, as estrelas, as galáxias e, eventualmente, a vida.
Mas a energia, por si só, não basta: é necessária informação para a organizar, orientar e transformar em estruturas coerentes.
Guiada por essa informação, a energia converte-se continuamente nas suas múltiplas formas — térmica, eletromagnética, química, cinética — alimentando a longa trajetória evolutiva do cosmos e da vida.
Nos seres vivos, essa dinâmica atinge um grau extraordinário de complexidade.
A vida depende da manutenção contínua de uma delicada ordem eletroquímica, sustentada a cada instante por processos que consomem energia.
Nos organismos multicelulares, a coordenação entre células, tecidos e órgãos depende igualmente de fluxos de energia e informação.
O sistema nervoso transmite sinais sob a forma de impulsos elétricos, e é através deles que os órgãos dos sentidos enviam ao cérebro a informação do mundo exterior.
Dessa atividade emerge a consciência: o universo da nossa perceção — formas, cores, sons, emoções — e a experiência subjetiva do nosso mundo interior.
Ao longo da minha vida, tive o privilégio de procurar, através da música, esse espaço onde a energia se torna consciência. À volta disso o meu trabalho foi incessantemente feito sobre a técnica instrumental através do corpo. Os livros que li recentemente do professor Luís Fernandes, deram-me as evidências de que necessitava há muitos anos, uma vez que validaram todo esse trabalho e me ensinaram muito. Agradeço-lhe por isso.
Talvez por isso a música nos toque de forma tão profunda. Também nela, a partitura é apenas informação potencial.
Só a energia física, emocional, temporal e interpretativa do músico a transforma em experiência viva.
Essa energia deve ser cultivada, alimentada e, sobretudo, gerida.
O estado de alerta criativo, a presença consciente do corpo/mente, tudo o que nos liga ao essencial, o que nos permite momentos de lucidez iluminada.
Viver a Arte é, de certa forma, compreender a consciência. Sistemas, informações e teorias são ferramentas importantes para nos aproximarmos.
As Universidades e as Escolas continuarão, espero com desesperada fé, a ser fontes preciosas de informação, de estudo e de apoio.
A transmissão e as formas de pedagogia viva terão que se encontrar dentro desse movimento humano.
Só estamos recetivos quando estamos preparados para transmitir e continuar. Esta dinâmica, que é relação primordial de professor/aluno, pode atingir algo de mágico, pois constrói o que ainda não existe. Quem aprende não é passivo – procura, recebe e inspira e nesse movimento também ensina. Quem ensina torna-se necessariamente mais atento, mais cuidadoso e de certa forma mais humilde, sem nunca perder a noção do privilégio que lhe é dado.
Ensinar e ser ensinado, aprender e transmitir é sem duvida uma das experiências humanas mais ricas que nos é dado viver.
Colocar em causa essa experiência e tentar substituições técnicas, seria, julgo, a destruição coletiva da Escola, da Universidade, da pedagogia viva e da transmissão, no seu sentido mais profundo. A imaginação, a procura e descoberta em campo aberto, são fenómenos da pedagogia não só insubstituíveis, mas geradores de todas as grandes obras da humanidade. Em quase todas as épocas passadas, da Renascença para trás, da Renascença para a frente, em todas as latitudes e longitudes, todos estes fenómenos foram geradores de culturas e canais de sabedoria. As instituições de ensino tornam-se guardiões dessa transmissão viva.
Eu teria gostado de nascer no período da Renascença. Não será urgente, neste momento da história, recrear uma nova Renascença?
Mas as Escolas correm hoje o risco de se tornarem excessivamente influenciáveis por uma sociedade tecnológica e pela presença crescente da inteligência artificial — uma ferramenta já indispensável e, em muitos aspetos, extraordinária. Mas…
O crescimento das inteligências artificiais generativas, e os enormes interesses económicos que as acompanham, colocam-nos perante uma transformação profunda das nossas sociedades.
Essa transformação não é neutra. Interroga a forma como pensamos, como escolhemos, como nos expressamos, e até mesmo a forma como somos ouvidos.
Existe o risco de que a concentração de poder tecnológico e económico venha a enfraquecer princípios fundamentais das democracias: a liberdade de expressão, a diversidade de pensamento e o direito à escolha. E, talvez mais subtilmente, o direito de cada indivíduo a desenvolver e afirmar o seu próprio talento — sem condicionamento e sem formatação. Na realidade, é algo que já está a acontecer.
Essa influência começa também a manifestar-se na forma como muitos aspirantes a artistas se afastam, com rapidez preocupante, da realidade profunda da criação — da verdade e da dignidade.
Não se trata de recusar a tecnologia. Trata-se de não abdicar da consciência. A presença consciente dar-nos-ia a possibilidade de continuar, e desenvolver a tecnologia de forma positiva.
A gigantesca degradação do planeta e da natureza nas últimas décadas, foi admitida por nós.
Fomos prevenidos e deixámos que as grandes forças empresariais e económicas, tomassem decisões. Permitimos que elas nos substituíssem nas nossas capacidades de enfrentar uma catástrofe que forçosamente iria destruir o planeta e a exterminar todas as espécies incluindo a nossa.
Delegámos a nossa autonomia e forma de pensar, o que significa que o impacto em nós e na nossa identidade é grave e, parece-me a mim, irreversível.
Queremos a todo o custo planear felicidade, mas não a construímos. Projetamos, compramos, consumimos…. Engendramos todo o tipo de sofrimento aos outros, a nós próprios e principalmente ao nosso habitat. Destruímo-lo, em prol de um habitat artificial. O ciclo vicioso do destruir, reparar e comprar.
Neste processo contraditório e dualista, não vemos a possibilidade de aceitar contratempos da vida, onde a dor poderia tomar uma proporção mais suave.
Parece que vivemos num tempo de sedução exagerada — quase como se isso fosse uma forma de sobrevivência moderna.
Já que estamos a perder capacidades, talento, entusiasmo, motivação, e principalmente trabalho; já que a competição nos conduz, tantas vezes, ao desespero — resta-nos essa forma superficial, efémera e inútil a que chamamos sedução.
Seria importante compreender que é urgente proteger a consciência, o nosso património humano, a nossa inteligência profunda e autêntica — e a capacidade de pensar por nós próprios.
O artista, tal como o cientista e o filósofo, detêm a responsabilidade de contribuir de forma positiva para a evolução da consciência.
Assisti nos últimos 30 anos ao declínio total do respeito pelo habitat, pelos nossos recursos naturais, pela nossa e pelas outras espécies. Perante essa evidência sinto uma impotência total para explicar esse fenómeno a mim mesma.
Porque, no fundo, não se trata de produzir, nem de impressionar, nem de alcançar — trata-se de estar disponível. Disponível para escutar, para transformar, para compreender. E, nesse estado de disponibilidade, permitir que algo maior do que nós, possa acontecer. — A Renascença. Se assim for, então a Arte continua viva. E nós também.
Gostaria de começar por expressar a minha mais sincera gratidão ao Sr. Reitor Professor Doutor António Candeias, e à Escola de Artes da Universidade de Évora pela honra que hoje me concedem.
Ao Dr. Tiago Navarro Marques, ao Dr. Carlos Damas, à Dra. Ana Telles, muito obrigada.
Aos meus amigos Dr. Miguel Ribeiro, ao Dr. Tiago Taron e ao Fernando Rosado por todo o apoio e ajuda que me têm dado.
Aos meus filhos, que tanto me ajudaram na tomada de consciência da época atual.
Recebo esta distinção não apenas como um reconhecimento do percurso realizado, mas também como uma responsabilidade perante a cultura, o pensamento e a consciência humana”.


