Frida Orupabo e a arqueologia das imagens na era digital

Por Susana Jacobetty

Fotografia João Bettencourt Bacelar

Num tempo em que a produção e circulação de imagens atingiram uma escala sem precedentes, a artista norueguesa-nigeriana Frida Orupabo construiu uma das práticas artísticas mais relevantes da última década a partir de um gesto aparentemente simples: recolher, observar e reorganizar imagens dispersas no vasto território digital. A sua primeira exposição individual em Portugal, apresentada no MAC/CCB sob o título Cloud of Confusion, constitui uma oportunidade para conhecer uma obra que interroga simultaneamente a memória, a representação e as estruturas de poder inscritas na cultura visual contemporânea.

Com curadoria de Marta Mestre, a exposição parte do universo que Orupabo desenvolveu inicialmente através da rede social Instagram, transformando o espaço museológico numa extensão física da experiência digital. Contudo, mais do que reproduzir a lógica tecnológica do presente, a artista procura desacelerá-la. Onde o ecrã favorece o consumo rápido e a sucessão incessante de conteúdos, o museu impõe uma experiência de permanência, confronto e reflexão.

A prática de Frida Orupabo assenta na recolha de imagens provenientes de origens diversas, como arquivos coloniais, fotografias vernaculares, cinema, televisão, imprensa ou plataformas digitais. Através da colagem, do corte e da recomposição, estas imagens são deslocadas dos seus contextos originais para adquirirem novas possibilidades de leitura. O resultado são figuras fragmentadas, por vezes inquietantes, que desafiam a aparente neutralidade do olhar e expõem os mecanismos históricos através dos quais determinados corpos foram observados, classificados e representados.

A formação académica da artista em sociologia permanece visível em toda a sua produção. Mais do que trabalhar sobre imagens, Orupabo investiga os sistemas que as produzem e legitimam. O seu trabalho coloca em evidência a persistência de imaginários coloniais e raciais na cultura visual contemporânea, questionando a forma como as representações moldam percepções sociais, identidades e relações de poder.

Em Cloud of Confusion, essa investigação adquire uma dimensão particularmente pertinente. O próprio título sugere uma ambiguidade reveladora, a “nuvem” é simultaneamente a infraestrutura invisível onde armazenamos dados e imagens e uma metáfora para a crescente opacidade da memória contemporânea. Num mundo onde tudo parece poder ser preservado digitalmente, a abundância de informação produz frequentemente o efeito contrário, a dispersão, o esquecimento e a perda de contexto.

A exposição desenvolve-se através de um percurso sequencial que evoca o gesto do scroll, tão familiar na experiência quotidiana dos dispositivos móveis. Contudo, ao converter esse movimento digital em deslocação física, Orupabo obriga o visitante a recuperar uma relação corporal com as imagens. Cada obra interrompe o fluxo habitual do consumo visual e exige um tempo próprio de observação, revelando camadas de significado frequentemente ocultadas pela velocidade das plataformas digitais.

Reconhecida internacionalmente pela participação em importantes bienais e instituições de referência, Frida Orupabo tem afirmado uma linguagem singular no panorama da arte contemporânea. A sua obra não procura apenas revisitar o passado, mas compreender de que forma as imagens herdadas continuam a influenciar o presente. Nesse sentido, Cloud of Confusion ultrapassa o território da exposição para se afirmar como uma reflexão crítica sobre a condição visual do século XXI.

Num momento histórico marcado pela acumulação incessante de fotografias, vídeos e arquivos digitais, Frida Orupabo recorda-nos que nenhuma imagem é inocente. Cada uma transporta consigo uma história, uma ideologia e uma determinada forma de olhar o mundo. A força do seu trabalho reside precisamente na capacidade de devolver complexidade a essas imagens, obrigando-nos a questionar aquilo que julgávamos já conhecer.