O Dia Internacional dos Museus e a Noite Europeia dos Museus

Por Susana Jacobetty

Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra

A Museus e Monumentos de Portugal assinala, entre 17 e 23 de maio, o Dia Internacional dos Museus e a Noite Europeia dos Museus, através de uma programação nacional, descentralizada e simbolicamente orientada para a ideia de comunidade.

Sob o mote internacional definido pelo ICOM para 2026 “Museus a unir um mundo dividido”, a iniciativa mobiliza dezenas de museus, monumentos e palácios em todo o território nacional, incluindo as regiões autónomas, numa semana que articula património, criação contemporânea, música, pensamento crítico, mediação cultural e envolvimento comunitário.

O momento inaugural destas celebrações terá lugar a 17 de maio, às 16h00, através de uma ação de forte dimensão simbólica, os concertos simultâneos “Acordes de Paz”. Em 26 espaços da rede da Museus e Monumentos de Portugal, 35 agrupamentos corais interpretarão, em simultâneo, um programa concebido como gesto coletivo de unidade cultural e cívica.

Museu Soares dos Reis

Museu do Teatro e da Dança

A escolha do repertório não é inocente. A abertura com “Acordai”, de Fernando Lopes-Graça, compositor profundamente associado à resistência cultural e política portuguesa do século XX, estabelece imediatamente um horizonte de consciência crítica e intervenção pública. O encerramento com o “Hino à Alegria”, de Beethoven, hoje inseparável da ideia europeia de fraternidade, reforça a dimensão universalista do programa. Entre ambos, surgem repertórios locais e expressões regionais que espelham a diversidade cultural do país.

A geografia destes concertos traduz também uma visão descentralizada da política cultural. Do Museu Abade de Baçal ao Museu Terras de Miranda, do Paço dos Duques de Bragança ao Mosteiro da Batalha, do Convento de Cristo ao Palácio Nacional da Ajuda, passando ainda pela Fortaleza de Sagres, o território transforma-se, por um dia, numa grande cartografia sonora de participação cultural.

A Magazine X Museu Nacional do Azulejo

Particularmente significativa é a diversidade dos agrupamentos envolvidos. Participam conservatórios, bandas filarmónicas, coros académicos, ensembles profissionais, grupos comunitários e projetos inclusivos, revelando uma conceção de cultura menos hierárquica e mais transversal. O envolvimento do “Coro Mãos que Cantam”, no Museu Nacional de Arte Contemporânea, ou a presença de músicos de diferentes origens internacionais na Casa-Museu Anastácio Gonçalves, sublinham precisamente essa ideia de museu enquanto espaço de pluralidade linguística, social e estética.

Em paralelo, a Museus e Monumentos de Portugal apresenta também uma nova plataforma digital dedicada ao programa nacional das celebrações, reunindo centenas de iniciativas promovidas quer pela sua própria rede, quer por entidades integradas na Rede Portuguesa de Museus. Mais do que um instrumento informativo, esta plataforma representa um esforço de articulação nacional da oferta cultural, permitindo consultar atividades por território, tipologia ou público-alvo, e reforçando a visibilidade de projetos frequentemente dispersos ou localmente circunscritos.

Palacio Nacional da Ajuda

A programação revela, aliás, uma transformação gradual do próprio conceito de museu. Já não apenas depósito de objetos ou guardião de memórias estabilizadas, mas lugar de experiência, participação e interpretação crítica do presente.

No Museu Nacional Soares dos Reis, por exemplo, o público poderá aceder às reservas e aos bastidores da conservação e do restauro, numa lógica de transparência institucional raramente visível ao visitante comum. Também no Porto, o Museu do Carro Elétrico propõe visitas noturnas encenadas e oficinas participativas que convocam a memória urbana e afetiva do transporte elétrico enquanto símbolo de ligação entre gerações e territórios.

Em Braga, o Museu dos Biscainhos cruza programação coral, oficinas pedagógicas e exposições de leitura social contemporânea, enquanto o Museu José Malhoa aposta em oficinas teatrais, concertos comentados e tertúlias de matriz lusófona, aproximando diferentes expressões culturais e linguagens artísticas.

Na Área Metropolitana de Lisboa, o Museu Nacional de Etnologia desenvolve uma programação particularmente centrada nas questões da diversidade cultural e da reflexão pós-colonial, articulando cinema, música, visitas críticas e debate público. Já o Museu Nacional de Arqueologia, o Museu Geológico e o Museu da Farmácia propõem percursos que cruzam ciência, património e história social, dirigidos a públicos intergeracionais.

Museu Nacional da Música

No Alentejo, o Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo reafirma a centralidade do património bibliográfico, arqueológico e artístico enquanto elemento estruturante da memória coletiva e da identidade regional, enquanto, mais a sul, a Fortaleza de Sagres recupera simbolicamente a sua dimensão histórica de cruzamento de culturas e geografias.

Há, em toda esta programação, uma intenção clara de deslocar os museus da condição de instituições silenciosas para a de plataformas culturais ativas. A aposta em atividades noturnas, oficinas participativas, mediação inclusiva, experiências imersivas e projetos comunitários procura responder a uma exigência contemporânea: tornar o património acessível sem o simplificar, democrático sem perder densidade crítica.

A gratuitidade da entrada nos espaços tutelados pela Museus e Monumentos de Portugal a 18 de maio, bem como o acesso livre às atividades integradas nestas celebrações, reforça igualmente uma dimensão política da iniciativa: a cultura entendida como direito público e não como consumo restrito.

A programação do Dia Internacional dos Museus em Portugal assume um posicionamento particularmente relevante. Mais do que celebrar instituições patrimoniais, propõe uma reflexão sobre o papel contemporâneo dos museus enquanto infraestruturas cívicas de confiança, lugares de memória partilhada e espaços de construção coletiva.

Num país frequentemente marcado pela centralização e pela desigualdade de acesso cultural, esta semana nacional organizada pela Museus e Monumentos de Portugal revela também uma ideia de rede, uma cultura distribuída pelo território, capaz de ligar comunidades distintas através do património, da música, da educação e da experiência comum.

Museu Nacional dos Coches

Paço dos Duques

MUSEU ABADE DE BAÇAL – BriChoirT, do Conservatório de Música e Dança de Bragança 

MUSEU TERRAS DE MIRANDA – Omnis Cantus, Agrupamento reunido para o efeito – Arranjos para vozes mirandesas e gaita de foles 

MUSEU ALBERTO SAMPAIO – TetrAcord’Ensemble 

PAÇO DOS DUQUES – Orquestra do Norte e o Coro Audivi Vocem 

MUSEU DE ARQUEOLOGIA D. DIOGO DE SOUSA – “Coro de Alunos do Ensino Secundário do Conservatório Calouste Gulbenkian de Braga”, com a maestrina Ana Rute Rei 

MUSEU DOS BISCAINHOS – Grupo Coral de Guadalupe, Alunos do 1.º ciclo de Maximinos – Ensino Articulado de Música 

MUSEU NACIONAL SOARES DOS REIS – Grupo Coral do Hospital de Magalhães Lemos da ULSSA MUSEU DE LAMEGO – Banda Marcial de Cambres; V Império – Escola de Música; Rancho Regional de Fafel; Real Tertúlia Académica Tunukacerta 

MUSEU NACIONAL GRÃO VASCO – Conservatório de Viseu 

MUSEU NACIONAL MACHADO DE CASTRO – Grupo Vocal AdLibitum 

MUSEU NACIONAL DE CONÍMBRIGA – Quarteto da Orquestra Clássica do Centro 

MOSTEIRO DA BATALHA – Grupo coral Calçada Romana, de Porto de Mós 

MOSTEIRO DE ALCOBAÇA – Coro da Banda de Alcobaça 

CONVENTO DE CRISTO – Chorus Auris de Ourém 

MUSEU JOSÉ MALHOA – Coro Social do Bairro 

MUSEU NACIONAL RESISTÊNCIA E LIBERDADE – Coro da Câmara Municipal da Lourinhã 

MUSEU NACIONAL DA MÚSICA – Coro de câmara outros cantos, coro SOLinSI 

PALÁCIO NACIONAL DE MAFRA – Concerto Carrilhão às 17h 

CASA-MUSEU ANASTÁCIO GONÇALVES – NILSON DOURADO (Brasil), Direção Musical, viola, viola caipira, clarinete, percussões e voz: Katerina L’Dokova (Bielorrússia), Piano e Voz: Ruca Rebordão (Angola), Percussões e Voz: Midori Jaeger (Reino Unido/Japão), Violoncelo e Voz: Gulami Yesildal (Turquia), Cordas, Percussões e Voz 

MOSTEIRO DOS JERÓNIMOS E MUSEU NACIONAL DE ARQUEOLOGIA – Nova Era Vocal Ensemble MUSEU NACIONAL DE ETNOLOGIA – Trio RagaTal 

MUSEU NACIONAL DE ARTE CONTEMPORÂNEA – Coro Mãos que cantam 

MUSEU NACIONAL DO TRAJE – CORUTIB – Coro da Universidade da Terceira Idade do Barreiro, Grupo de Serenatas Sinfonias ao Luar, Grupo Coral do Montijo 

MUSEU NACIONAL DOS COCHES – Coro Viva Voz 

PALÁCIO NACIONAL DA AJUDA – Magna Tuna ApocalISCSPiana e Vozeirão

FORTALEZA DE SAGRES – Grupo Coral de Lagos