OLHOS MÚLTIPLOS

Por Susana Jacobetty

Fotografia João Bettencourt Bacelar

Três geografias artísticas para pensar as fraturas do presente

O Museu de Arte Contemporânea do Centro Cultural de Belém apresenta, entre 14 de maio e 25 de outubro de 2026, a exposição OLHOS MÚLTIPLOS, reunindo obras de Patricia Domínguez, Ines Doujak e Lubaina Himid. Com curadoria de Nuria Enguita e Rafael Barber Cortell, a exposição propõe um percurso centrado em formas alternativas de narrar a história, a memória e o presente.

Partindo de contextos culturais e geracionais distintos, Zanzibar/Reino Unido, Áustria e Chile, as três artistas cruzam práticas que questionam discursos dominantes e recuperam narrativas frequentemente excluídas das versões oficiais da história. O corpo político, o legado colonial, os processos extrativistas, a espiritualidade, a ecologia e as violências económicas surgem como temas centrais de uma exposição que articula pintura, escultura, instalação, vídeo, colagem e desenho.

Sem recorrer a uma leitura linear, OLHOS MÚLTIPLOS constrói-se como um espaço de contaminação visual e conceptual, onde as obras dialogam entre si através de referências ao carnavalesco, ao grotesco, ao ritual e ao imaginário popular. O percurso expositivo privilegia a ideia de deslocação e instabilidade, propondo ao visitante uma experiência marcada pela sobreposição de tempos, geografias e linguagens.

O trabalho de Lubaina Himid centra-se na recuperação de presenças apagadas pela história colonial europeia. Figura fundamental do movimento Black Art britânico, a artista utiliza pintura e instalação para reinscrever corpos e narrativas excluídas da memória institucional. Distinguida com o Turner Prize em 2017 e representante do Reino Unido na Bienal de Veneza de 2026, Himid desenvolve uma prática onde crítica histórica, teatralidade e quotidiano coexistem numa linguagem visual marcada pela cor, pela ironia e pela dimensão política do espaço doméstico.

Já Ines Doujak constrói um universo visual híbrido e deliberadamente desconfortável, onde corpos humanos, animais, elementos mecânicos e formas orgânicas coexistem sem hierarquia. A sua obra aborda os mecanismos globais de exploração económica, colonialismo e violência sistémica, recorrendo frequentemente ao humor negro e à sátira política. Com um percurso internacional consolidado — incluindo participações na documentação de Kassel e em bienais como São Paulo e Liverpool, Doujak utiliza múltiplos suportes para questionar as estruturas de poder que moldam os corpos e os territórios contemporâneos.

Por sua vez, Patricia Domínguez trabalha na interseção entre etnobotânica, espiritualidade, tecnologia e crítica ao capitalismo tardio. A artista chilena transforma objetos associados ao consumo global e à cultura digital em instalações de caráter ritualístico, onde elementos vegetais, tecnológicos e ancestrais se fundem numa reflexão sobre ecologia, memória planetária e interdependência entre espécies. A sua prática recente tem sido apresentada em instituições internacionais como o Hammer Museum, a Klima Biennale de Viena e o Museu Thyssen-Bornemisza.

Mais do que reunir três percursos individuais, OLHOS MÚLTIPLOS afirma-se como uma exposição sobre modelos alternativos de conhecimento e representação. Através de diferentes linguagens e referências culturais, as artistas convergem numa ideia comum: a necessidade de repensar o presente a partir das margens, dos corpos excluídos e das narrativas silenciadas.

A exposição integra-se na linha programática do Museu de Arte Contemporânea do Centro Cultural de Belém dedicada à criação contemporânea internacional e ao debate crítico em torno das questões políticas, sociais e ambientais do presente. Nesse contexto, OLHOS MÚLTIPLOS propõe o museu como espaço de confronto, escuta e produção de pensamento crítico, recusando leituras consensuais da história e da contemporaneidade.

A inauguração decorre a 14 de maio, com uma conversa pública entre as artistas Ines Doujak e Patricia Domínguez, os curadores Rafael Barber Cortell e Nuria Enguita, seguida da abertura da exposição e de uma performance de Doujak na Praça do Museu.

A exposição conta ainda com a colaboração da TBA21 Thyssen-Bornemisza Art Contemporary.