
A 5 de maio de 1826, em nome de D. Pedro IV de Portugal e primeiro Imperador do Brasil, são autorizados três dias de feira, em 19, 20 e 21 de setembro, na vila de Ponte de Lima. Os limianos acharam por bem, e para maior glória de Nossa Senhora das Dores, para abrilhantar a sua festa, prolongar a festividade, até aí só com um dia, juntando fé, diversão e negócio.
Prestes a completar 200 anos de existência, estas feiras e romaria só foram interrompidas, muito raramente, por pestes ou épocas de desânimo social. Não obstante estes momentos, mantêm-se com vivacidade e genuína alegria, afirmando-se como ponto de encontro de limianos da diáspora, que sempre regressam para desfrutar de novo do que a memória guardou como bons momentos Romaria e Feiras Novas: assim reza no primeiro jornal da terra, O Lethes, de 29 de agosto de 1865. Na realidade, apesar de os ventos não soprarem sempre para o mesmo lado, não deixaram os limianos de fazer a romaria da Nossa Senhora das Dores, padroeira das grandes festas, continuando as feiras a ser grandes, “para maior glória da Senhora e vantagens pela prontidão de comprar e os precisos”, de acordo com a Carta Régia de 1826.

Se hoje as feiras são diferentes (já não são os produtos da terra e o gado a sua principal motivação económica), não deixam de ter ainda alguma presença comercial, onde a ruralidade não se perdeu. E continuam a desenrolar-se no mesmo lugar de sempre, junto à ponte medieval, a qual, apesar dos atropelos da história, continua imponente e tão forte que exprime bem o carácter da gente deste concelho.


Aqui se juntam milhares de pessoas, procurando beneficiar do fim do verão, antevendo o inverno. Como no passado, vêm celebrar com alegre participação um encontro anual, que emociona os naturais e encanta os que de fora se associam ao tempo mais vivo, mais rico que esta velha terra de 900 anos consegue oferecer.


Já não descem as gentes pelos caminhos das montanhas, nem chegam em barcos de água-arriba; podem não vir a cantar, já não precisam de vir em ranchos, mas continuam a chegar com a mesma alegria que os movia há 200 anos e, no calor da festa, tudo volta a ser igual.



por Susana Jacobetty
A TRADIÇÃO INVENTADA QUE SE TORNOU SÍMBOLO DAS FEIRAS NOVAS
Criada em 1999 pelas designers Madalena Martins e Susana Espadilha para um cartaz das Feiras Novas de Ponte de Lima, a Boneca Matilde é hoje um dos mais eficazes exemplos portugueses de como um símbolo contemporâneo pode enraizar-se rapidamente no imaginário colectivo e assumir estatuto de tradição.
Nascida no contexto do design gráfico e da comunicação cultural, Matilde ultrapassou a função promocional para se tornar ícone festivo, identitário e patrimonial. A figura representa a mulher minhota no seu traje tradicional, com rigor etnográfico: saia rodada, avental bordado, camisa branca, colete ornamentado, lenço e ouro. Trata-se de uma síntese visual da cultura material do Alto Minho, reduzida à escala de boneca, mas ampliada no seu poder simbólico. O nome, popular e antigo, reforça essa intenção de proximidade e reconhecimento: Matilde é a mulher do povo, trabalhadora, devota e festiva.

Matildes. Maria João Bastos veste Blazer e vestido, Miguel Vieira. Brincos e fio com pendente, Rosarinho Cruz. Agradecimento: Dr. António Fornelos
Ao longo de pouco mais de duas décadas, a boneca passou do cartaz para a rua, das montras para as varandas, dos souvenirs para os carros alegóricos. Tornou-se mascote oficiosa das Feiras Novas e um dos seus mais procurados objectos de memória. A sua difusão acompanha a própria transformação das festas num grande evento cultural, turístico e mediático, sem perder a ligação ao universo simbólico da romaria minhota.
O caso de Matilde é exemplar porque demonstra que a tradição também se constrói por via da criação consciente. Não resulta de uma herança secular, mas de um gesto de autores identificáveis, posteriormente legitimado pela apropriação popular. É essa legitimação colectiva que transforma um objecto de design num património afectivo. Num tempo de identidades diluídas e festividades cada vez mais formatadas, Matilde permanece como uma marca singular de Ponte de Lima: uma figura recente que já transporta memória, uma invenção que se tornoucostume. Se as Feiras Novas continuam a ser o grande espelho da identidade limiana, a Boneca Matilde é hoje um dos seus rostos mais reconhecíveis.


