por Susana Jacobetty
Fotografia André Príncipe e Beatriz Banha

A nova criação Um Inimigo do Povo, apresentada no Centro Cultural de Belém, marca um momento particular no percurso de Marco Martins, cineasta e encenador cuja obra tem explorado de forma consistente as zonas de fricção entre realidade social, memória e representação. Partindo do texto homónimo de Henrik Ibsen, Martins constrói um espectáculo que abandona a adaptação literária convencional para se aproximar de um dispositivo documental, cruzando investigação jornalística, testemunhos biográficos e referências do pensamento político europeu contemporâneo, ao qual é impossivel ficarmos indiferentes.

Conhecido sobretudo pelo seu trabalho no cinema, com filmes como Alice (2005), São Jorge (2016) e Great Yarmouth, Provisional Figures (2022), Marco Martins tem desenvolvido uma filmografia centrada em personagens confrontadas com estruturas sociais opacas, frequentemente ligadas ao trabalho precário, à migração ou à desagregação das comunidades urbanas. Esse mesmo território atravessa agora o palco. Em vez de transpor Ibsen para um contexto contemporâneo de forma alegórica, o encenador parte de um acontecimento concreto, a operação policial realizada na Rua do Benformoso, em Lisboa, em 2024, que envolveu dezenas de imigrantes do sul da Ásia e desencadeou um debate público sobre abuso de autoridade, exposição mediática e instrumentalização política da imigração.

A dramaturgia do espectáculo, assinada pelo próprio Martins a partir de materiais recolhidos com as jornalistas Joana Pereira Bastos e Raquel Moleiro, incorpora no elenco pessoas com percursos migrantes que participaram no processo de investigação. Esta opção aproxima o trabalho de uma tradição europeia de teatro documental que privilegia a presença de testemunhas em cena e a construção colectiva do texto, afastando-se do modelo de representação psicológica que caracteriza a leitura mais habitual de Ibsen.

A escolha de Um Inimigo do Povo, escrito em 1882, mantém a estrutura de conflito entre o indivíduo e a maioria, mas desloca o centro dramático para o problema da visibilidade pública. Nesta versão, a questão não é apenas quem tem razão, mas quem tem voz. A multiplicidade de línguas em cena, português, inglês, bengali e nepali, reforça a ideia de fragmentação do espaço público e sublinha a distância entre representação mediática e experiência vivida.

O projecto surge no âmbito da rede europeia Prospero NEW, com coprodução do Centro Cultural de Belém, do Teatro Municipal do Porto, do Theatro Circo, do Théâtre de Liège e da Schaubühne de Berlim, enquadramento que confirma a crescente inserção internacional do trabalho de Marco Martins. Tal como no cinema, o encenador continua a trabalhar a partir de contextos portugueses muito concretos, mas com uma linguagem pensada para circulação europeia, onde a questão da migração se tornou um dos temas centrais do debate cultural contemporâneo.

Confirma-se já uma digressão nacional e internacional prevista para a Primavera de 2027, sinal de que o espectáculo foi concebido desde o início como um projecto de circulação alargada, integrado nas redes de coprodução europeias que têm marcado parte significativa da criação teatral recente.

Sem recorrer a actualizações superficiais, Um Inimigo do Povo prolonga uma linha coerente na obra de Marco Martins, a tentativa de colocar em confronto ficção e realidade, não para as reconciliar, mas para expor o modo como as narrativas públicas se constroem, se impõem e, por vezes, silenciam aqueles que delas são objecto. O resultado aproxima-se menos do teatro de repertório e mais de uma prática artística de investigação, próxima do cinema que definiu a formação do encenador e que continua a orientar o seu olhar.

Ficha Artística
Direção e Dramaturgia Marco Martins
Texto Marco Martins, a partir de testemunhos de todo o elenco, da investigação de Joana Pereira Bastos e Raquel Moleiro, e de obras de Henrik Ibsen, Thomas Ostermeier, Florian Borchmeyer, Elias Canetti, Georges Didi-Huberman, Roger Caillois, Hannah Arendt, Cesare Pavese, Hein De Haas, Claire Touzard, Adília Lopes, Robert Peckham, Marguerite Duras e Pier Paolo Pasolini
Com Amin Nurul, Dil Bahadur Ale, Janit Fernandes, Kamal Chowdhury, Kamal Sarder, Niraj Khadka, Rajib Al Mamun, Sabera Parvin, Sharker Nasrin, Shohel Rana e Rita Cabaço e Rodrigo Tomás
Composição Vocal e Coro com o Elenco Rabih Beaini
Música Original e Composição Sonora Rabih Beaini
Música Original João Pimenta Gomes
Assistência de Encenação e Apoio à Dramaturgia Rita Quelhas
Apoio à Assistência de Encenação Alexandra Petrovskaya
Desenho de Luz Nuno Meira
Cenografia Isabel Cordovil e João Romão
Construção de Cenografia Artworks
Sonoplastia Vitor Santos
Direção Técnica Pedro Moreira
Movimento Lua Carreira e Maria Fonseca
Workshop de Movimento Hugo Marmelada
Workshop de Som João Pimenta Gomes
Transcrição de Entrevistas Gabriela Dias
Pesquisa de Elenco José Pires
Fotografia André Príncipe e Beatriz Banha
Textos Publicação Bárbara Reis, Joana Pereira Bastos, Marco Martins, Matilde C. e Raquel Moleiro
Design Publicação Atelier Pedro Falcão
Tradução Joana Frazão
Administração Arena Marta Delgado Martins
Gestão e Direção de Produção Sérgio Azevedo
Produção Executiva Hugo Alves Caroça
Esta produção é desenvolvida com o apoio da Plataforma PROSPERO NEW e cofinanciada pelo programa Europa Criativa da União Europeia.
Coprodução Principal CCB
Coprodução Teatro Municipal do Porto, Theatro Circo / Braga 25 – Capital Portuguesa da Cultura, Théâtre De Liège – Théâtre D’Éurope e Schaubuhne
Apoio República Portuguesa – Cultura, Juventude e Desporto | DGArtes – Direção Geral das Artes, Goethe-Institut Portugal Artworks e PreZero
Agradecimentos Aditya Saxena, Abdul Wahid Khalizad, Ashraf Emdi Uddin, Fahima Begum, Farhana Akter, Farid Ahmed Patwari, Francisca Neves, Komal Shahazdi, Mazumder Mohamed, Mizan Mizan, Mohamed Fakhrul, Nelson Gomes (Filho Único), Pemba Sherpa, Rasel, Renovar A Mouraria, Sabee Shrestha, Sandip Busal, Saurav Baishnab, Zakiur Rahman, Fundação Arpad Szenes-Vieira Da Silva e Museu Nacional do Teatro e da Dança

