por Susana Jacobetty
Imagens geradas por IA com base em fotografias de João Bettencourt Bacelar

Alecrim do Farol da Gibalta
O Dia do Pai, celebrado em Portugal a 19 de março, mantém uma dimensão simbólica que resiste à banalização comercial que marca outras datas do calendário. Mais do que um momento de consumo rápido, continua a ser uma ocasião que convida a escolhas com significado e, nesse contexto, a valorização de produtos portugueses de referência revela-se não apenas uma opção estética, mas também cultural.
Nos últimos anos, tem-se verificado um regresso consciente a marcas nacionais que recuperam saber-fazer tradicionais, linguagem visual clássica e uma certa ideia de permanência. Num tempo dominado por cadeias globais e por presentes indistintos, oferecer um objeto produzido em Portugal, com identidade própria, funciona quase como um gesto de afirmação de memória e de continuidade.


Eau de Toilette, Antiga Barbearia do Bairro
Entre os exemplos mais evidentes está a marca Antiga Barbearia de Bairro, que se tornou um caso singular de revitalização do universo masculino tradicional. Inspirada nas antigas barbearias lisboetas, a marca construiu um imaginário que cruza design retro, referências urbanas portuguesas e produção cuidada. Sabonetes de barbear, loções, escovas e acessórios são apresentados com uma estética que evoca um país anterior à massificação, sem cair na caricatura nostálgica. O sucesso da marca deve-se precisamente a esse equilíbrio entre tradição e contemporaneidade.

Creme de barbear, Antiga Barbearia do Bairro

Eau de Toilette, creme de barbear, e sabonete de mãos, Antiga Barbearia do Bairro
No campo da perfumaria, a emergência de projetos independentes tem vindo a reforçar essa mesma ideia de identidade cultural. A Leme Perfumes com Estória afirma-se como um exemplo claro dessa abordagem, desenvolvendo fragrâncias que partem de referências históricas e marítimas, ligadas aos Descobrimentos. Criações como o Cabo das Tormentas não procuram seguir tendências internacionais, mas antes construir uma narrativa olfativa ligada ao imaginário português, evocando viagens, mitologia e memória atlântica. Num mercado saturado de lançamentos efémeros, a aposta em perfumes com conceito e continuidade aproxima-se mais de um gesto cultural do que de uma simples escolha de consumo.

Creme de mãos, perfume, e sabonete, 1488. Leme Perfumes com Estória

Concha de Tahalassor das Areias do Sado com seu pai Alecrim do Farol da Gibalta
A escolha de presentes deste tipo revela também uma mudança no próprio consumidor português. Há uma geração que redescobre o prazer de comprar menos, mas melhor, e que procura marcas com história, mesmo quando essa história é recente, desde que construída com coerência. O chamado “produto de referência” deixou de significar apenas luxo, passou a significar autenticidade, produção responsável e ligação a um território.
Num país onde a relação com o passado é frequentemente ambivalente, a crescente procura por marcas portuguesas com linguagem clássica sugere menos nostalgia do que maturidade cultural. Escolher bem, neste contexto, é também uma forma de reconhecer que o presente pode ser moderno sem deixar de ser português.

