D. Dinis, Rei e Trovador

por Susana Jacobetty

Fotografia João Bettencourt Bacelar

Ensemble Na Rota do Peregrino

A 27 de fevereiro de 2026, a Sala Luís de Freitas Branco, no Centro Cultural de Belém, recebeu mais um concerto do ciclo Sexta Maior, Música Medieval. O programa, intitulado As Canções de D. Dinis, o Rei Trovador, foi interpretado pelo ensemble português Na Rota do Peregrino e centrou-se num dos raros testemunhos musicais associados diretamente a um rei europeu medieval.

O concerto propôs a recriação das sete cantigas de amor de D. Dinis que sobreviveram com notação musical no chamado Pergaminho Sharrer. Estas peças foram apresentadas em diálogo com música instrumental retirada das Cantigas de Santa Maria, compiladas na corte de Afonso X de Castela, permitindo enquadrar o repertório no ambiente musical da Península Ibérica do século XIII.

A direção artística coube a Daniela Tomaz, responsável também pela flauta travessa e pelos sinos pitagóricos. A direção musical esteve a cargo do medievalista Mauricio Molina, que integrou instrumentos de percussão histórica como pandeiro, adufe, timbale e berimbau de boca. O ensemble reuniu ainda Joana Godinho (meio-soprano), Maria Bayley (meio-soprano e harpa medieval), Thiago Vaz (tenor), Anja Kolaric (viela), Enrique Pastor (cítola) e Carme Mampel (órgão portativo).

A interpretação seguiu princípios de prática historicamente informada, procurando aproximar-se da sonoridade e da pronúncia do galego-português medieval. Antes do concerto, o musicólogo Manuel Pedro Ferreira apresentou, na Sala Lopes-Graça, uma conferência dedicada ao papel de D. Dinis na história musical e à importância das cantigas preservadas com notação.

Daniela Tomás
Diretora do ensemble Na Rota do Peregrino

“O Na Rota do Peregrino é um projeto pioneiro em Portugal dedicado à investigação e interpretação de música medieval. Surgiu em 2017, a partir de um convite do Município de Ponte de Lima para preparar um concerto exclusivamente com repertório medieval.

Desde o início convidei o Dr. Mauricio Molina, da City University of New York, medievalista colombiano radicado em Barcelona, para assumir a direção musical. Na música medieval é essencial trabalhar com o que se designa por interpretação historicamente informada.

Estamos atualmente a preparar uma candidatura para gravar o repertório de D. Dinis em 2027, ano em que o ensemble assinala dez anos de atividade. Parte deste trabalho já pode ser ouvido no nosso site, arotadoperegrino.pt, onde disponibilizamos também outros repertórios que temos vindo a explorar”.

Daniela Tomaz

“Quando abordamos repertórios dos séculos XII, XIII ou XIV, existem várias possibilidades interpretativas. Pequenas decisões na direção musical podem conduzir a resultados bastante diferentes. Isso contrasta com repertórios mais tardios, como o barroco, onde as práticas interpretativas estão mais estabilizadas”. 

Daniela Tomaz, Diretora do ensemble Na Rota do Peregrino

Maurício Molina
Medievalista e diretor musical

“O meu interesse pela música medieval nasce de uma forte atração pela história, pela história da música e pela cultura mediterrânica. É uma área que reúne muitos dos interesses que sempre tive. Na Colômbia era difícil seguir estudos especializados neste campo, por isso fui para os Estados Unidos, onde fiz a licenciatura, o mestrado e o doutoramento.

A música associada a D. Dinis pode situar-se no chamado gótico tardio. É um repertório que reflete a absorção e a reinterpretação de tradições musicais anteriores da Península Ibérica. Podemos entendê-lo como uma espécie de cápsula que preserva influências dos séculos XII e XIII, incluindo as tradições dos trovadores do norte e do sul de França, no mesmo contexto cultural das Cantigas de Santa Maria de Afonso X.

Maurício Molina

Há também um processo claro de reinvenção dentro da tradição dos trovadores galaico-portugueses, que constitui uma expressão muito particular da Península Ibérica. Em D. Dinis encontramos várias tradições europeias reinterpretadas num contexto ibérico. Sabemos que os poemas são da autoria do rei. Já quanto às melodias, não é possível afirmar com certeza que tenham sido compostas por ele, é provável que tenham sido criadas por músicos da corte. Esta incerteza é comum no estudo da música medieval. Ainda assim, as melodias seguem padrões característicos da música medieval europeia. São cantigas de amor com um elevado grau de ornamentação, que por vezes se aproxima mais da tradição do canto gregoriano do que da música trovadoresca francesa”.

“Quando tive o primeiro contacto com esta partitura senti alguma perplexidade, pela diferença de estilo. Mas, à medida que fui estudando e reconstruindo as melodias, tornou-se evidente a qualidade da escrita musical e a riqueza da expressão melódica. O Pergaminho Sharrer é apenas um fragmento, mas nele foi possível identificar sete trechos de cantigas com notação musical”. 

Mauricio Molina. Medievalista e diretor musical

Cesário Costa
Maestro e programador de Música Erudita do CCB
“Como programador de música erudita, considero fundamental que o público tenha acesso a uma oferta artística diversificada. Num mesmo ciclo podemos apresentar um programa de música medieval ou outro dedicado a compositores como John Cage.
No caso deste projeto, pareceu-me importante trazer ao Centro Cultural de Belém um ensemble com o nível de especialização e a qualidade de Na Rota do Peregrino. Tenho sempre um cuidado especial em escolher a música em função dos espaços. Este concerto esgotou com várias semanas de antecedência. Poderia ter sido apresentado numa sala maior, mas a experiência não seria a mesma. A Sala Luís de Freitas Branco permite uma relação de grande proximidade entre o público e os músicos. A acústica e a dimensão do espaço criam uma atmosfera quase de capela, que favorece este tipo de repertório”.

“A primeira vez que ouvi as melodias associadas a D. Dinis tive uma verdadeira sensação de descoberta. A sonoridade destes instrumentos é muito diferente daquela a que estamos habituados quando pensamos em música barroca ou renascentista. As melodias são muito particulares, assim como a forma como os instrumentos dialogam entre si. É uma experiência sonora pouco comum e extremamente interessante”.

Cesário Costa, Maestro e programador de Música Erudita do CCB

No início do século XIV, D. Dinis ocupava uma posição singular entre os monarcas europeus. Filho de Afonso III de Portugal e neto de Afonso X de Castela, herdou um reino politicamente consolidado e um ambiente cultural marcado pela tradição literária e musical das cortes ibéricas. A historiografia portuguesa recorda-o sobretudo como o chamado rei lavrador, associado a políticas de desenvolvimento agrícola, à reorganização administrativa do reino e à fundação da universidade portuguesa em 1290. Menos conhecida fora dos estudos medievais é a sua participação direta na cultura literária da época.

Assinatura de D. Dinis

D. Dinis foi um dos autores mais prolíficos da lírica galego-portuguesa, a principal língua poética da Península Ibérica medieval. Conservam-se cerca de 137 cantigas atribuídas ao monarca, sobretudo de amor, mas também de amigo e de escárnio e maldizer. Esta produção coloca-o entre os mais relevantes trovadores do período.

Retrato contemporâneo de Dom Dinis no manuscrito castelhano Compendio de crónicas de reyes (…), c. 1312-1325

Durante séculos, conheciam-se apenas os textos dessas composições através dos cancioneiros medievais. A situação mudou em 1990, quando o investigador norte-americano Harvey Sharrer identificou, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, um fragmento de pergaminho reutilizado na encadernação de um livro do século XVI. Esse documento, hoje conhecido como Pergaminho Sharrer, conserva a notação musical de sete cantigas de amor atribuídas ao rei. A descoberta demonstrou que estas peças não eram apenas poesia escrita para leitura, mas obras concebidas para execução musical. Trata-se de um dos raros testemunhos de música trovadoresca peninsular preservada com melodia.

Projetos interpretativos como As Canções de D. Dinis procuram aproximar o público contemporâneo desse repertório. O trabalho baseia-se na comparação com outras fontes musicais da época, nomeadamente as Cantigas de Santa Maria ou composições transmitidas pelo Codex Calixtinus, permitindo situar estilísticamente as melodias. A chamada interpretação historicamente informada combina investigação musicológica, reconstrução instrumental e estudo linguístico. No caso da lírica galego-portuguesa, isso implica também tentar recuperar características fonéticas do idioma medieval, diferentes do português moderno.

Este contexto ajuda a compreender a relevância cultural do fenómeno trovadoresco. A poesia cantada era um elemento central da sociabilidade aristocrática europeia, partilhado entre as cortes ibéricas, occitanas e francesas. Participar nesse circuito significava integrar uma rede cultural e diplomática que ultrapassava fronteiras políticas.

A presença de um rei entre os autores desse repertório não era comum, mas conferia prestígio simbólico e reforçava a imagem cultural da corte. A figura histórica de D. Dinis continua também a ser objeto de investigação arqueológica e patrimonial. O monarca morreu em 1325 e foi sepultado no Mosteiro de São Dinis e São Bernardo de Odivelas, instituição que fundara e que manteve forte ligação à dinastia.

D. Dinis e a Rainha Santa Isabel, em retrato na Universidade de Coimbra. Por Carlos Falch

Entre 2016 e 2023 decorreram trabalhos de conservação e estudo do túmulo régio. Durante a intervenção foi identificada, junto aos restos mortais, uma espada medieval depositada na sepultura no momento do enterramento. A abertura controlada do túmulo permitiu igualmente identificar elementos do enxoval funerário, incluindo fragmentos do ataúde e vestígios de tecidos de luxo associados ao vestuário régio, como peças em lampasso.

Em 2026, este conjunto, que inclui a espada e os materiais têxteis preservados, foi classificado como Tesouro Nacional, reconhecimento que sublinha o seu valor histórico para o estudo das práticas funerárias da realeza medieval portuguesa. Apesar de alguns danos estruturais, a espada apresenta um estado de conservação considerado notável para um objeto que permaneceu encerrado numa sepultura durante cerca de sete séculos.

A música associada a D. Dinis não constitui apenas uma curiosidade erudita da história cultural portuguesa. Ela recorda que, na Europa medieval, a criação artística fazia parte da própria linguagem do poder. Rei administrador e fundador de instituições duradouras, D. Dinis foi também poeta e, muito provavelmente, compositor. As sete cantigas preservadas com notação musical representam hoje um raro vestígio sonoro da cultura da corte portuguesa no final da Idade Média.

Reconstruções contemporâneas não pretendem reproduzir exatamente o que se ouviu no século XIII, algo impossível. O objetivo é outro, aproximar o público atual de um património em que literatura, música e política se cruzam, revelando uma dimensão cultural essencial da formação histórica de Portugal.