Por Susana Jacobetty
Domingo, 8 de março, Dia Internacional da Mulher, o Museu Nacional de Etnologia, em Lisboa, da Museus e Monumentos de Portugal, apresenta Cartografi

Constança Torres com a máscara Marafona. Fotografia João Bettencourt Bacelar, Lisboa 2026
A apresentação parte de uma investigação artística sobre Trás-os-Montes e os Caretos de Podence, tradição mascarada do nordeste transmontano associada ao Entrudo Chocalheiro de Podence, reconhecida pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade. A escolha da data sublinha o enquadramento conceptual do projeto,revisitar um ritual historicamente masculino à luz das transformações contemporâneas na participação das mulheres.
Os Caretos constituem um dos exemplos mais conhecidos dos rituais de inverno ligados aos ciclos agrícolas europeus. Em Podence, aldeia do concelho de Macedo de Cavaleiros, jovens solteiros percorrem as ruas mascarados, vestidos com fatos de lã colorida e carregados de chocalhos. O comportamento performativo, corridas, saltos e o gesto conhecido como “chocalhar”, inscreve-se num quadro simbólico associado à fertilidade, à inversão social e à afirmação de estatuto dentro da comunidade.


Historicamente, este protagonismo masculino estruturou a dramaturgia do ritual. A figura feminina, embora central na lógica simbólica da celebração, permaneceu durante séculos numa posição socialmente delimitada, presente enquanto elemento indispensável à narrativa ritual, mas excluída da sua execução. A antropologia tem frequentemente interpretado este tipo de práticas como espaços temporários de transgressão autorizada, onde a máscara permite suspender normas sociais e encenar formas específicas de poder masculino.


Contudo, a realidade contemporânea revela um processo gradual de transformação. A crescente visibilidade do ritual, alimentada pelo turismo cultural, pelos media e pela valorização patrimonial, tem coincidido com mudanças internas nas próprias comunidades. Em vários contextos locais, mulheres começaram a vestir o traje de careto e a participar diretamente na performance. Este processo, longe de representar uma ruptura abrupta, resulta sobretudo de negociações sociais dentro das aldeias, refletindo a capacidade adaptativa das tradições.

Fotografia de Constança Pinheiro Torres vestida com o fato de Careto do Sr. Beto Rei, na sua casa em Podence, 3 de Março de 2025
É neste território de tensão entre permanência e mudança que se inscreve o trabalho de Constança Pinheiro Torres. Natural do Porto e atualmente sediada em Berlim, onde fundou o estúdio Coco Torres, a artista desenvolve uma prática que cruza performance, instalação e design interativo, investigando a forma como identidades coletivas são construídas através de formas ritualizadas. O seu projeto de mestrado, distinguido em 2025 pela University of Europe for Applied Sciences, resultou no livro Mask and Identity: Unveiling the Layers in Ritual and Tradition of the Caretos e na exposição Forms of Disappearance, apresentada em Berlim.

Uma dimensão central desta investigação tem sido o trabalho realizado em colaboração com o Museu Nacional de Etnologia, através do contacto direto com as coleções históricas de máscaras. O diálogo entre arquivo etnográfico e prática artística permite à autora questionar a forma como estas tradições são documentadas, preservadas e interpretadas.

A performance Cartografias do Invisível surge, assim, como uma extensão performativa desse percurso de investigação. Mais do que representar o ritual, a obra procura mapear aquilo que raramente surge nos registos oficiais da tradição: as negociações internas, as zonas de ambiguidade e as presenças historicamente discretas, entre elas a participação feminina.
Apresentada no Dia Internacional da Mulher, a performance propõe uma leitura contemporânea dos Caretos que não elimina o seu núcleo masculino histórico, mas evidencia a forma como a tradição se abre hoje a novas formas de participação. Nesse sentido, o ritual deixa de ser entendido como um vestígio folclórico imutável para se afirmar como um processo cultural vivo, continuamente reescrito pelas comunidades que o mantêm.


