Teresa Condessa e “Regina” de Portucale

Miniatura do século XIII do Tumbo de Toxosoutos. A interpretação tradicional identifica as figuras como Teresa de Leão (centro), a sua filha Urraca Henriques (direita) e Bermudo Peres de Trava (esquerda).

O conde Henrique de Borgonha (c.1069-1112) morreu em Astorga, a 24 de Abril de 1112. Andava então envolvido nos conflitos que sucederam ao falecimento de Afonso VI de Leão e Castela (1047/1048-1109). A intrincada conjuntura que então se vivia nas monarquias cristãs hispânicas não constituía, por certo, nada que o conde desconhecesse. A partir de 1096, ou seja, desde que assumiu o governo da Terra portucalense em conjunto com sua mulher, a infanta Teresa de Leão (c.1079-1130), Henrique revelara-se um actor incontornável no interior do reino. Neste contexto, e em especial após a morte do imperador, a presença de Henrique nos territórios do Noroeste foi pontual, o que nos convence que a chefia do condado competiu, cada vez mais, a sua mulher.

Resulta que, chegados à segunda década do século XII, a quase totalidade do reino de Leão e Castela estava sob o poder das irmãs Urraca (c.1080-1126) e Teresa. A este propósito, cabe perguntar se deveremos equacionar a existência de um poder especificamente feminino nas monarquias cristãs da Hispânia medieval. De momento, a importância deste assunto serve sobretudo para melhor enquadrarmos e interpretarmos o percurso de Teresa à frente do Condado Portucalense, uma vez que, tanto para si como para sua irmã, muito deve ter pesado a condição de mulheres que tinham alcançado poderes soberanos e que não deixaram de os exercer num universo político, concebido como masculino e monopolizado por homens.

Fosse qual fosse a experiência política, a verdade é que logo depois da morte de seu marido,Teresa assumiu a chefia dos territórios e das comunidades situadas entre o Minho e o Mondego. A aparente normalidade que podemos constatar através da documentação dos primeiros anos, não invalida que a condessa estivesse obrigada a demonstrar capacidades de liderança, quer no interior dos seus domínios, quer no conjunto da monarquia.E convirá relembrar ainda que Teresa tinha apenas um filho varão, o infante Afonso Henriques (1109-1185), que, em 1112, andaria pelos três anos de idade, sendo fundamental proteger o seu legítimo herdeiro.

Não obstante estas circunstâncias e o complexo cenário político, militar e eclesiástico em que sempre se moveu, podemos afirmar que Teresa esteve atenta à administração do condado, promovendo a organização e o desenvolvimento de várias comunidades urbanas e rurais. Testemunho significativo deste empenho representa, por exemplo, a doação e couto do burgo do Porto a favor do bispo D. Hugo, em 1120. E ainda a concessão de um relevante conjunto de forais, onde se destacam os que foram atribuídos na região de Viseu, nomeadamente a S. Martinho de Mouros, em 1121, e à própria cidade viseense, em 1123, e também, já no Entre-Douro-e-Minho, a Ponte de Lima, em 1125, que visava promover a pequena povoação instalada junto da única ponte que então atravessava o Lima, ligando as terras da arquidiocese de Braga e as do bispado de Tui.

Em paralelo, e tal como seu marido, Teresa assumiu um grande protagonismo nos assuntos do reino. O envolvimento no cenário galego e a necessidade de responder aos problemas bélicos da região do Mondego devem ter pressionado suficientemente a condessa, que não tardou em manifestar as suas ambições políticas. Em 1117, surge designada como “rainha” nos diplomas redigidos no condado, prática que se manteve até ao seu afastamento, em 1128. A atribuição a si própria deste título constituía a reivindicação da sua linhagem régia e, em consequência, a equiparação a sua irmã. Ao assumir-se como legítima herdeira de Afonso VI, podia reclamar também o direito de governar, autonomamente, uma parte dos territórios que compunham o reino de Leão e Castela.

Os principais acontecimentos que marcaram a década final do governo de Teresa são, genericamente, bem conhecidos. Mais do que enumerar factos interessa, portanto, tentar compreender como é que a “rainha” Teresa procurou concretizar num “projeto” a dignidade de que se revestiu. A hipótese que entendemos como mais verosímil é que Teresa, com o total apoio da poderosa família galega dos Trava, desejou reconstruir o antigo reino da Galiza, tal como existira na época de Garcia II (1065-1071).

Neste cenário, os sucessos que ocorreram a partir de 1118, apesar de diversos, parecem convergir na mesma direcção. Com efeito, a trama política e eclesiástica que então se vivia no Noroeste hispânico, revelava já as divergências que afastavam as elites sediadas a norte e a sul do Minho. Demasiado comprometida com os poderes galegos, Teresa pouco pôde fazer para debelar a crescente oposição interna. Do mesmo modo que os senhores portucalenses não estavam disponíveis para partilhar o seu poder, os seus patrimónios e o acesso às terras de fronteira com o Islão com os grandes da Galiza, também Urraca e, após a sua morte, seu filho e sucessor Afonso VII (1105-1157), dificilmente poderiam aceitar iniciativas autonómicas no interior da monarquia.

Neste cenário, os sucessos que ocorreram a partir de 1118, apesar de diversos, parecem convergir na mesma direcção. Com efeito, a trama política e eclesiástica que então se vivia no Noroeste hispânico, revelava já as divergências que afastavam as elites sediadas a norte e a sul do Minho. Demasiado comprometida com os poderes galegos, Teresa pouco pôde fazer para debelar a crescente oposição interna. Do mesmo modo que os senhores portucalenses não estavam disponíveis para partilhar o seu poder, os seus patrimónios e o acesso às terras de fronteira com o Islão com os grandes da Galiza, também Urraca e, após a sua morte, seu filho e sucessor Afonso VII (1105-1157), dificilmente poderiam aceitar iniciativas autonómicas no interior da monarquia.

Rainha D. Teresa por Carmen Touza. Fotografia Amândio Vieira

A reconfiguração de poderes na região portucalense era inevitável. A vitória alcançada pelos barões portucalenses e por Afonso Henriques na batalha de S. Mamede, em 24 de Junho de 1128, não provou apenas a impossibilidade dos “projetos” de Teresa, acabou por determinar também caminhos distintos para o espaço galego e para os territórios entre o Douro e o Mondego. Derrotada e exilada na Galiza, Teresa faleceu em 1 de Novembro de 1130. A Terraque fora obrigada a abandonar encetara já o processo de reordenamento político que, não tardou muito, transformou o vetustoCondado Portucalense no novo Reino de Portugal.