Folclore Limiano

Da eira e do terreiro aos palcos do mundo

A vida dura dos camponeses exigiu sempre conciliar os trabalhos do campo com o desejo de superação e de encontro. Durante os longos dias de sementeiras e colheitas, ou no seroar invernal, as cantigas do povo ecoavam pelas veigas e junto das lareiras, repetindo séculos de herança oral. Trabalhar e cantar casavam-se em harmonia familiar. E quando a hora permitia o folgar, a eira ou o terreiro da romaria explodiam de alegria, no movimento dos corpos. Os corpos vibram o fulgor do apelo à dança. O folclore limiano nasce profundamente enraizado na cultura vivida do seu território económico, cultural, mas também sentimental e emocional.

Era nas atividades agrícolas onde o povo investia o quotidiano, produzindo e interpretando a vida. Uma experiência de sofrimento e de esperança. Nas cantigas comunicam-se sentimentos sobre os trabalhos, sobre a paisagem, sobre o amor. O traje adapta-se às diferentes atividades do ciclo agrário, dos momentos mais importantes da vida familiar, diversificando texturas, cores e hierarquias sociais. A dança joga os corpos no espaço, agora desenhado em círculos, em retângulos e sofisticados cruzamentos de troca de parceiros. A cada ritmo e cor musical, uma marca na velocidade e aproximação dos corpos, desde a chula ao malhão, passando pela cana-verde até ao omnipresente vira, executado em pares, em circulo ou em linha.

Nos campos e noites de serão nasceram os cantigas; nas eiras e terreiros viviam-se as danças, experiências sociais de encontro e manifestação dos corpos; dos baús cerimoniais e da roupa quotidiana vieram os trajes. Tudo tem um tempo, uma história.

É a nostalgia de um tempo perdido e propósitos de elites conservadoras, a darem corpo às manifestações folclóricas contemporâneas. O movimento folclórico iniciou-se nos finais das três décadas do século XX, quando a rutura do mundo rural, como fora vivido durante longas décadas, era já iminente. Há uma perda de estabilidade emocional perante os desafios colocados por novos mundos e novas pertenças. Algumas autoridades locais respondem a essa perda procurando a ruralidade e lugares onde a tradição oral permanecia ainda viva, como resto da “autenticidade” do bom povo. Havia a certeza de uma herança histórica irrepetível, possivelmente salvadora, perante um mundo em transformação.

Nesta busca surgem paradas, pequenos grupos para exibições programadas, depois ranchos folclóricos, cada vez mais estáveis e programados para responder às demandas das elites. Mas a partir destes primeiros passos, o povo volta a ser senhor do património folclórico, canto, música e danças herdadas. É ele, agora, a lutar pela continuidade da herança musical, assumindo a liderança dos grupos folclóricos que hoje conhecemos no concelho de Ponte de Lima.

A nostalgia das primeiras décadas do século XX, a crise e marginalização das revoluções progressistas, o ressurgir do respeito pela herança cultural de hoje, tudo isso manifesta a história do folclore limiano. Todos sabemos que o que temos é a manifestação de um tempo histórico já não mais presente no nosso quotidiano. Mas há uma certeza: celebra-se uma cultura do povo, fixada num tempo histórico. Nela, hoje, os atores que a celebram, cada vez mais jovens, encontram paixão e espaços de sociabilidade. Na memória folclórica herda-se uma experiência emocional. É isto o movimento folclórico e a atual experiência cultural e emocional nos ranchos de Ponte de Lima.