Por Susana Jacobetty

Fotografia A Magazine

Fotografia João Bessone
No centro histórico de Évora, o Palácio dos Duques de Cadaval acolhe, entre 10 de Janeiro e 8 de Março, a exposição Évora Luz, uma selecção de criações de Agatha Ruiz de la Prada, com curadoria de Diana de Cadaval e cenografia de Carlos Pissarra. O encontro entre a exuberância cromática da designer espanhola e a sobriedade patrimonial do palácio resulta num diálogo que é menos óbvio do que poderia parecer e, por isso mesmo, culturalmente relevante.

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Agatha Ruiz de la Prada construiu, ao longo de mais de quatro décadas, um dos universos visuais mais reconhecíveis da moda contemporânea. Emergida na década de 1980, em plena Movida madrilena, a sua obra afirma-se como uma fusão deliberada entre moda, arte contemporânea e design industrial, sempre atravessada por um vocabulário próprio: cores saturadas, formas geométricas, ironia visual, optimismo assumido. Num sector frequentemente dominado pela contenção conceptual ou pelo cinismo estético, Agatha insistiu numa ideia hoje quase subversiva, a alegria como valor criativo.

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Essa coerência explica uma trajectória internacional rara. A designer chegou a estar presente em cerca de 120 países, com dezenas de licenças que estendem o seu imaginário a objectos do quotidiano, da cerâmica aos têxteis, do mobiliário à papelaria. Menos visível, mas estrutural, é a sua relação com Portugal. Cerca de 80% da sua produção foi realizada em fábricas portuguesas, sobretudo no Norte, numa colaboração prolongada que marcou silenciosamente a indústria têxtil nacional.

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Évora Luz não é, contudo, uma retrospectiva nem um exercício museológico clássico. Trata-se de uma exposição contida, 12 a 15 peças de vestuário provenientes do acervo da Fundação Agatha Ruiz de la Prada, escolhidas a partir de um critério claro, vestidos de festa, peças exuberantes, associadas à celebração e à ideia de energia vital. A curadoria de Diana de Cadaval assume essa intenção sem ambiguidades. “A energia da Agatha anda sempre à volta da alegria, da boa disposição, do amor”, sublinha. Num tempo marcado por incerteza e saturação simbólica, a proposta é deliberadamente afirmativa.

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A cenografia, assinada por Carlos Pissarra, opta por um gesto de contenção inteligente, o palácio mantém a sua colecção permanente, cruzando-a, magistralmente, com as peças expostas. Não há tentativa de transformar o espaço histórico num cenário neutro, pelo contrário, assume-se o contraste entre a austeridade arquitectónica e a explosão de cor dos vestidos. O resultado é um exercício de convivência entre tempos, linguagens e regimes estéticos distintos, sem hierarquias impostas.

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Para Agatha Ruiz de la Prada, esta exposição tem também uma dimensão biográfica. Depois de uma mostra realizada no mesmo palácio em 2017, amplamente documentada no livro A Minha História, publicado em português, regressa agora a Évora, pela primeira vez, a um espaço já anteriormente ocupado. “É a primeira vez que repito um local com uma exposição”, reconhece. O regresso não é repetição, mas continuidade.

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Não é irrelevante que Évora Luz se estenda até 8 de Março, Dia Internacional da Mulher. Sem recorrer a discursos programáticos, a exposição convoca uma reflexão discreta sobre a presença feminina na criação artística, na indústria cultural e no espaço público. A obra de Agatha Ruiz de la Prada, por vezes reduzida a uma leitura superficial do “bom humor”, revela-se aqui como um projecto estético persistente, sustentado e intelectualmente consequente.
No Palácio dos Duques de Cadaval, a moda não surge como ornamento, mas como linguagem cultural. E, por alguns meses, Évora ganha, literalmente, outra luz.







Agatha Ruiz de la Prada, Fotografia A Magazine

Susana Jacobetty e Agatha Ruiz de la Prada, Fotografia A Magazine

Diana de Cadaval, Carlos Pissarra e Agatha Ruiz de la Prada, Fotografia Artur Lourenço


