Ricardo Mealha

Amoreiras, Torre 2. Fotografia Ricardo Mealha. 1995

Ricardo Mealha é uma das figuras maiores do design gráfico em Portugal, entre o final do século XX e o início do XXI. Autodidata de sensibilidade rara e apuradíssimo bom gosto, era um espírito inquieto, rigoroso e apaixonado, que mergulhava em cada tema que o fascinava com devoção quase absoluta, explorando-o até ao limite. No design ou na fotografia, o seu trabalho revelava sempre um brilho singular e uma inteligência estética invulgar. Saí com o Ricardo da Novodesign em 1994, rumo à torre 2 das Amoreiras, espaço que se tornaria o berço da então Central Design, mais tarde Ricardo Mealha Atelier e, por fim, RMAC. Seguimos caminhos distintos e só muitos anos depois voltaria a colaborar com ele, naquele que viria a ser o seu derradeiro projeto, a Brand Gallery. Assinala-se agora uma década desde a sua partida. Para a edição 14 da A MAgazine, convidámos algumas das pessoas que melhor o conheceram, amigos, com quem também trabalhou em diferentes momentos do seu percurso, a deixarem aqui o seu testemunho. São apenas alguns exemplos entre os muitos que tiveram o privilégio de se cruzar com o Ricardo e partilhar o seu génio.

 

João Bettencourt Bacelar

Fotografia João Bettencourt Bacelar, para a Brand Gallery 2012

Tipo de letra “Lx Moda” por Ricardo Mealha, criado com. a fusão de 2 tipos de letra diferentes, 1993

Cartaz de uma série para festas no Frágil, 1994

Catálogo  Gulbenkian, 19º Encontros de Música Contemporânea, Luiji Nono

O Ricardo Mealha foi alguém que ativou muitas das minhas dimensões. A cumplicidade, química e empatia desdobrava-se em várias versões da nossa existência partilhada. Conhecemo-nos através do trabalho criativo e, desde aí, ligámo-nos de forma integral: no pensar, no fazer, no criar.

O Ricardo tinha uma visão estética única sobre o mundo. Viajámos muito, conversámos sobre tudo, divergimos tantas vezes. Mas o Ricardo preenchia sempre. Talvez a nossa maior aventura tenha sido fazermo-nos acreditar de que não existiam impossíveis. Era assim que trabalhávamos e vivíamos, habitávamos juntos uma utopia à qual não descansávamos enquanto não déssemos forma. É claro que era intenso. Tão profundamente maravilhoso como com choques sísmicos. É sempre assim quando há entrega total. Foi um grande amor na minha vida.

Modalisboa 1996

ModaLisboa 37

Fotografar a 37ª edição da ModaLisboa foi das experiências mais divertidas que tive nos últimos meses. Foram quatro dias de olhar atento e muito curioso. Tive liberdade criativa total: é um presente meu à Modalisboa por todos estes anos que tenho vindo a colaborar no design gráfico de muitas edições. Estas 133 fotografias são o resultado da observação [de algumas] das pessoas que fazem a Modalisboa: os designers, a equipa da organização, os modelos, os amigos e os convidados. Resolvi misturar nas fotografias convidados com amigos, modelos e designers com a equipa, modelos com amigos… enfim brincar nos bastidores deste grande evento com o qual tenho brincado à séria desde 1993. Enjoy e…. partilhem! Obrigado Modalisboa! Ricardo 6>9.10.2011

Ricardo Mealha

Logotipos Modalisboa

Catálogo Abbondanza Matos Ribeiro

O Ricardo Mealha foi alguém que ativou muitas das minhas dimensões. A cumplicidade, química e empatia desdobrava-se em várias versões da nossa existência partilhada. Conhecemo-nos através do trabalho criativo e, desde aí, ligámo-nos de forma integral: no pensar, no fazer, no criar.

O Ricardo tinha uma visão estética única sobre o mundo. Viajámos muito, conversámos sobre tudo, divergimos tantas vezes. Mas o Ricardo preenchia sempre. Talvez a nossa maior aventura tenha sido fazermo-nos acreditar de que não existiam impossíveis. Era assim que trabalhávamos e vivíamos, habitávamos juntos uma utopia à qual não descansávamos enquanto não déssemos forma. É claro que era intenso. Tão profundamente maravilhoso como com choques sísmicos. É sempre assim quando há entrega total. Foi um grande amor na minha vida.

Conheci o Ricardo ainda miúda. Embora mais velho, partilhámos os corredores do colégio, voltámos a encontrar-nos na universidade, e, mais tarde, no princípio das nossas carreiras profissionais. Desde cedo me impressionou a sua inteligência viva, o olhar crítico e a rara capacidade de reconhecer e celebrar o talento alheio. Era, acima de tudo, um criativo, generoso no elogio, exigente na qualidade, inconfundível no bom gosto. Anos depois, já com o seu percurso consolidado, despertou nele um novo interesse, a fotografia. Ligou-me então, entusiasmado, para partilhar uma ideia, queria realizar comigo um editorial de moda que tivesse como cenário um circo. A proposta, simultaneamente poética e desafiadora, implicava uma logística improvável, que se transformou numa experiência singular e memorável.

A personalidade e a obra de Ricardo Mealha assemelham-se a uma paisagem de cuja beleza e sofisticação, uma vez contempladas, ficamos dependentes para sempre. O Ricardo marcou profundamente quem teve o privilégio de o ter na sua vida, não apenas porque a sua inteligência, a sua sensibilidade e o seu bom-gosto se traduziram em trabalhos de beleza e asserto inauditos, como a sua generosidade infinita, o seu empenho e desassossego permanentes desenharam e abriram novos caminhos. Através de Manuel Reis, que criou existências e uma nova condição a tantas coisas e a muitas vidas, conheci o Ricardo na Primavera de 2005.

No Museu Nacional de Arte Antiga, na Casa das Histórias Paula Rego, na Babel, no CCB, entre outros contextos em que trabalhámos, ao longo da sua e da minha vida profissional, e muito para além delas, o Ricardo configurou uma espécie de paisagem bela e infinita – precisa nas formas visíveis mais próximas, imprecisa e infinita nas formas e nas cores à distância; concreta nos inúmeros trabalhos que realizámos, indefinida, diversa e mutante nos projetos derradeiros, inacabados ou que apenas delineámos.

O seu livro de fotografia dedicado a São Paulo ou um projeto de documentário histórico sobre Florença, que iniciámos, servem para ilustrar a dimensão da irrequietude e da paixão do Ricardo, uma das mais maravilhosas e fascinantes pessoas da minha vida.

Jarra desenhada por Ricardo para Alves / Gonçalves

Amigos

Demasiado inteligente

Terrivelmente sensível

Vivia a vida em alta velocidade

Curioso no nível máximo

Perfecionista

Criatividade máxima

Temperamental

Sempre pronto para descobrir o mundo e o diferente

Sobretudo tenho saudades dele

e continuo a amar esse Ricardo

“Passaram dez anos desde que o Ricardo nos deixou. Uma década marcada por uma ausência que se sente todos

os dias. Na vida, na arte, na noite, nas conversas, nas ideias e nas imagens que moldaram uma geração. O Ricardo não era apenas um designer talentoso. Era um criador de mundos. Um homem que soube aliar genialidade à capacidade rara de concretizar. Não se limitava a pensar ou a imaginar. Ele fazia. Com as suas mãos, com a sua visão e com um instinto criativo que parecia não ter fim. Os seus convites, catálogos, exposições e identidades visuais não eram simples peças de design. Eram propostas culturais. Verdadeiros manifestos de estilo, inteligência e emoção. Tive o privilégio de trabalhar com ele, de sonhar com ele, de viver parte do mundo que ele ajudou a criar. Fizemos juntos catálogos, eventos, e muitas ouras coisas.

E mais do que isso, partilhámos a ideia de que a cultura se constrói não só com talento, mas com generosidade, uma que vem do nosso início no Lux Frágil, com o querido Manuel Reis. O Ricardo era generoso. Dava tudo. E dava com humor, com beleza, com profundidade.

A imagem do Lux, da ModaLisboa, do Ministério da Cultura, do Museu do Chiado, da Presidência da República. Tudo el tocou com essa capacidade única de transformar o banal em icónico. Ele não seguia tendências. Ele criava-as. E por isso marcou profundamente a estética de uma época e de um país.

O Ricardo era também uma presença luminosa. Lindo, elegante, bem-disposto, amigo dos amigos, encantador. Tinha uma curiosidade profunda pelas tradições portuguesas, pela história, pela portugalidade. Sonhámos juntos com festas, viagens, com encontros. Infelizmente, e como muitos sentirão, não conseguimos fazer juntos tudo o que planeámos. A sua morte foi súbita, dura, injusta. E desde então, muita coisa mudou. Ficámos mais pobres, mais órfãos. O mundo perdeu uma voz original. Eu perdi um cúmplice e um companheiro criativo. Mas hoje, ao recordá-lo, quero acima de tudo agradecer. Porque o Ricardo vive naquilo que criou. Nas imagens que nos deixou. Nas ideias que continuam a inspirar-nos. No amor que semeou em tantas amizades. Dez anos depois, continuamos a celebrar a tua vida. Obrigado, Ricardo. “

O Ricardo Mealha começou por ser apenas um amigo, mas a nossa amizade foi crescendo até se tornar num dos meus melhores amigos. Anos mais tarde, desafiou-me a ajudá-lo a criar e gerir um atelier. Lembro-me bem do dia em que apareceu no IADE, onde eu lecionava, para me apresentar a ideia. Não precisei de muitos dias para aceitar, e assim nasceu a Brand Gallery.

Nunca tive a pretensão de ser designer, mas o Ricardo era uma fonte inesgotável de inspiração e conhecimento, com uma linguagem visual única, que sempre admirei e com a qual me identificava profundamente. Tinha histórias para partilhar sobre os mais variados temas e uma cultura geral impressionante, que enriquecia cada conversa. Entre os primeiros projetos que desenvolvemos juntos estiveram a Claus Porto, o Palácio Nacional da Ajuda e A Vida Portuguesa. Começámos apenas nós os dois, e aprendi imenso ao seu lado. Foram muitas as noites passadas a trabalhar, movidos por um enorme orgulho no que fazíamos, em que qualquer conquista era motivo para celebração. O talento do Ricardo era amplamente reconhecido pelos seus pares, clientes e por todos aqueles que se cruzavam com a sua energia e alegria contagiantes. Mesmo doente, nunca deixou de acompanhar a equipa,orientar os projetos e contribuir para o seu sucesso.

Foi um autodidata que se tornou num dos melhores designers gráficos portugueses, deixando um legado criativo e humano que continua a inspirar, mas, acima de tudo, uma saudade imensa.

Quando conheci o Ricardo fiquei desde logo encantada pela sua maneira de ser e de estar; era uma pessoa alegre e divertida. Ao mesmo tempo, por termos ambos um grande amor pela História, património, e artes decorativas, fomos descobrindo afinidades de interesses que nos ligaram desde logo. Com a nossa amizade e cumplicidade aprendi muito.

Descobrir e acompanhar as várias facetas do Ricardo Mealha era um deleite, principalmente o lado criativo de enorme bom gosto, e simultaneamente uma sofisticação que foi beber a uma cultura que adorava e o inspirava: o Japão.

Deixou um lastro importante no Design em Portugal que deve ser recordado, transmitido e ensinado nas escolas. Era um ser humano excecional que deixa muitas saudades. Todas as boasmemórias ficarão para sempre guardadas no meu coração.