POR SUSANA JACOBETTY
FOTOIGRAFIA JOSÉ COUCEIRO DA COSTA e JOÃO BETTENCOURT BACELAR

O JARDIM DA ILUSTRE CASA DE MARGARIDE
O jardim da ilustre Casa de Margaride, no centro de Guimarães, é um pequeno oásis no norte de Portugal. Talvez o mais bem preservado jardim barroco português, sendo o único jardim privado no Norte de Portugal duplamente inscrito no rol de Património Nacional e classificado de Jardim Histórico. Está documentado que, em 1638, existiam nos terrenos de Margaride 52 carvalhos e que, em 1679, ali existia um jardim que, tal como o conhecemos hoje, terá sido criado algures entre as duas datas.
Os primeiros registos sobre a Villa Margaridi datam do Século X e dão conta de ter sido legada por uma poderosa condessa, de seu nome Muma (Mumadona), a duas religiosas. A documentação disponível permite apurar que em 1021, há 1004 anos, e depois em 1044, a quinta terá sido vendida, continuando sempre nas mãos de mulheres religiosas. Em 1059, ainda antes da constituição de Portugal, a propriedade surge referenciada no inventário de Fernando Magno, Imperador de Leão. Desde 1512, a quinta de Margaride passa a ser propriedade da família que, três séculos mais tarde, viria a ser a dos condes de Margaride, na posse da qual ainda hoje se mantém, passadas 13 gerações.

A Bella Portuguesa é um híbrido da espécie rosa gigantes Collet ex Crép, sem espinhos, desenvolvida no início do século XX por Henri Cayeux.
Tepadeira vigrosa, começa a florescer no final de fevereiro até ao final de dezembro, princípio de janeiro, dando flor praticamente todo o ano e, podendo chegar até cinco metros de altura.
Assim como na música, na pintura, na literatura e no teatro dos séculos XVII e XVIII, também os jardins refletem o mesmo princípio aplicado em qualquer realização humana e manifestação de cultura da época barroca, como em toda a gramática discursiva, do ponto de vista intelectual, do pensamento, descrevendo-se o jardim em três momentos, a antecâmara, a narrativa e o epílogo.

Página do Testamento de Mumadona Dias, século X

Jardim de Margaride em 1912

A primeira parte do jardim, é ampla, cheia de luz e cor. José Couceiro da Costa, proprietário do Villa Margaridi, antecipadamente planifica o jardim para o ano seguinte, mudando as espécies de flores, com o objetivo de criar anualmente um novo jardim. Por exemplo num ano pode plantar amores- perfeitos roxos, noutro miosótis, noutro cravelinas e assim sucessivamente. A seleção das plantas é feita através de dois critérios: o estético, e o de sustentabilidade dos solos. Não são utilizados produtos químicos, trata-se de um jardim biológico.
A PRIMEIRA PARTE
A primeira parte do jardim tem como características principais a claridade, a amplitude, as formas geométricas e a cor, estando toda ela permeável aos humores do tempo. Todos os dias do ano tem flores a nascer, de diferentes cores, apresentando uma grande suscetibilidade, seja luminosa, visual ou cromática.
Este jardim barroco tem um eixo principal, um eixo longitudinal através do qual se percorre, numa lógica barroca. O eixo começa num portão de ferro, onde se entra para o jardim, conduzindo para a segunda parte que, por sua vez, irá conduzir à terceira. São três partes divididas fisicamente, três áreas distintas, tendencialmente não comunicáveis, mas, ainda assim, ligadas entre si, sendo esse o conceito filosófico subjacente a este jardim.

A SEGUNDA PARTE
Na segunda parte do jardim, durante todo o ano, só há três cores: o verde, o branco e o encarnado. A lógica barroca destas cores assenta no verde, que significa a criação, o genesis, representado pelas folhas. No branco, na camélia japonica Alba Plena, que é a primeira a florir, deixando um manto alvo sobre o solo e que, de uma perspetiva religiosa, significa a pureza da nossa alma – note-se que, depois de as flores caírem no chão, o jardim fica literalmente pintado de branco. Posteriormente começam as florir as camélias encarnadas e, à medida que vão caindo, tingem o branco de encarnado, revelando uma cruz, como uma veia de sangue, o sangue de Cristo derramado na cruz, o martírio de Nosso Senhor perante a pureza do branco no chão. É um espaço mais intimista, que se fecha ao longo do eixo, proporcionando sol e sombra.


A TERCEIRA PARTE
A terceira parte do jardim é a casa de fresco, fechada em círculo com arbustos, tendo no seu interior duas grandes centenárias camélias, com apenas uma pequena entrada no seguimento do eixo, que começa no portão de ferro e termina num banco de pedra. O jardim foi construído a pensar nesse banco, que é o princípio e o fim. Sentados no centro do banco, nesta terceira parte do jardim, na casa de fresco, percebe-se a intenção com que foi imaginado. Ali, a luz é quase inexistente, só existe uma cor, o verde, a cor da criação. A entrada da casa de fresco é muito estreita e só é possível percepcionar uma parede verde redonda à volta, sem a possibilidade de se ver a segunda parte do jardim. Diz-se que nunca nenhuma folha foi retirada do chão, estando este 30 cm mais alto, fazendo um tapete próprio de uma casa de fresco, camada após camada, ano após ano, geração após geração. Nas tardes mais quentes de verão, pode chegar a menos nove graus da temperatura exterior, como se estivéssemos sempre no mesmo dia do ano.

UM LEGADO DE GERAÇÕES
“O meu antepassado que construiu este jardim nunca o viu, o filho também não, só o neto pôde usufruir dele, porque não houve tempo suficiente para que as camélias crescessem e produzissem a sombra imaginada. O jardim é uma construção transgeracional em que cada um dos seus, cuidadores cada uma das pessoas que está com o jardim em um determinado momento dos tempos tem de perceber que muitas das coisas que ali são feitas diariamente, os cuidados que temos, não se percebem e são para o futuro, mas são fundamentais para garantir que perdure pelas gerações vindouras.
Um jardim é um legado, é o palco do anonimato, é a redução absoluta do ser humano perante a criação. O jardim é a expressão mais bela entre a criação e o criador, sendo o seu expoente máximo. É um trabalho incógnito, invisível, milimétrico, que produz formas volumosas ao longo de décadas e, no caso deste jardim, ao longo dos séculos.
Quando sentados no banco de pedra, para o qual este jardim foi criado, podemos extrair um lado espiritual, nesta narrativa barroca. Olhando ao longo do eixo imaginado pelo criador deste jardim, em que se descreve e se desenrola, estamos sempre no dia de Sexta-Feira Santa. Segundo o evangelho, Cristo morreu às três horas da tarde, os céus enchem-se de trevas, ficam cinzentos e depois escuros. A segunda parte do jardim, representa o sábado e, a primeira, plena de luz e de esperança, o domingo de Páscoa, a ressurreição.
A grande mensagem que estes jardins barrocos deixam é a de pensarmos que podemos ser os donos deste jardim, mas não somos nada comparados a Deus, porque Deus é tudo. Este pensamento resulta de uma trindade própria desse tempo. É a simbologia que este jardim nos transmite, o passar das trevas para a luz”.
José Couceiro da Costa


