Bela Silva por Filipe Vargas

Fotografia João Bettencourt Bacelar, Lisboa 2025

A VIDA É BELA

Por onde começar? Talvez pelo princípio, em Agosto de 2023, quando uma amiga comum nos apresentou em Vila Viçosa. “Bela é o Filipe, Filipe é a Bela.” E foi quanto bastou para dar início a uma conversa que tenho a sensação que nunca interrompemos até hoje. Uma conversa que ganhou contornos de entrevista para estas páginas d’ A Magazine, e da qual faço aqui o resumo possível. Digo possível porque uma conversa com a Bela flui e voa para mil lugares e formas de arte, salta de país em país e de época em época em menos de uma vírgula, tinge-se de cores garridas e inebria-se de gargalhadas sonoras, para voltar às artes, aos países, às épocas, à vida e às muitas vidas de Bela Silva.

Midnight Summer de Bela Silva

Por onde começar? Falei-lhe de um dos seus trabalhos que mais gosto, uma fachada para o último andar de um apartamento frente ao Tejo. Neste painel feito à medida para um terraço à beira-rio, estão alguns dos elementos mais reconhecíveis do trabalho de Bela Silva: o barro mimetizando a natureza na forma de plantas e mar, folhas e ondas, o verde e o azul a colorir toda esta suave tridimensionalidade, com o brilho vidrado a refletir um sol generoso. A Bela gosta deste trabalho pelo que representa: uma parceria entre artista e arquiteto, a equilibrada materialização da fusão das artes plásticas nos projetos de arquitetura, algo que sente falta. No passado, estas colaborações faziam parte dos mais importantes projetos da arquitetura pública e privada em Portugal, anos em que a cerâmica e a azulejaria viviam um período áureo. Falamos do exemplo da estação de metro Parque, em Lisboa, feita em estreita e íntima colaboração entre os arquitetos Keil do Amaral e Falcão e Cunha, e a pintora Maria Keil, que merece uma visita mais demorada que apenas o tempo que tarda a chegar a próxima carruagem.

Pormenor do quadro Caleidoscópio das Aventuras de Bela Silva

Andamos um pouco atrás no tempo, quando Bela se interessava por Arqueologia, o que a levou até à Grécia, onde fez parte de um grupo de trabalho composto por portugueses, espanhóis e italianos. Aí conheceu um arquiteto catalão, que a fez rumar a Barcelona, com vinte e poucos anos. Viu Dali, Miró, Tapias, Jujol e o incontornável Gaudi. “Quando vi Gaudi pela primeira vez, parecia que estava a entrar dentro de um peixe.” E mergulhou a fundo no mundo das arts and crafts catalãs. “Vem daí o teu interesse pela cerâmica?”, pergunto.

Elegância Excêntrica de Bela Silva

Recuamos um pouco mais, porque o interesse vem de antes, de muito antes, de quando era miúda e descobriu o barro, que a fascinava por ser um material com aplicações infinitas. As coisas foram ficando mais sérias e às tantas já ia com o pai no carro até às fábricas no Forno do Tijolo cozer as peças, que balançavam perigosamente dentro da viatura paternal, sem nunca se terem partido, milagrosamente. Vieram depois as Belas Artes, mas as condições para trabalhar cerâmica não eram as melhores “porque ninguém fazia cerâmica. Era mal visto. Eras mal visto.” Falaram-lhe do Ar.Co (Centro de Arte e Comunicação Visual, em Lisboa), onde começou a fazer as primeiras peças de grandes dimensões. Graças aos intercâmbios que esta escola fazia, conheceu um professor americano que a desafiou a concorrer ao Chicago Art Institute. A sua querida América dos filmes, da música, da arquitetura, do Walt Disney, entrava de rompante no horizonte das possibilidades.

Passeio no Crepúsculo de Bela Silva/p>

E concorreu. E foi aceite. Ainda com vinte e poucos anos, vende um apartamento que tinha em Lisboa, que lhe deu para pagar apenas o primeiro semestre. O resto da ajuda veio da Fundação Luso-Americana e da Gulbenkian, instituições visionárias, vitais no percurso dos nossos principais artistas. Uma vez em Chicago, foi uma explosão de possibilidades. Foi aluna de Betty Woodman e Bill Farrel, estudou cerâmica, mas também design de calçado e fundição, descobriu Frank Lloyd Wright, Corbusier, o blues e o jazz, trabalhou com o grego Peter Voulkus que a fez explorar a tradição japonesa do trabalho em cerâmica, e assim se passaram sete anos em Chicago, onde conheceu o pai do seu filho. Viajou para Lisboa, onde fez questão de voar para dar à luz a Vincent, e voltou para Chicago onde possivelmente ainda estaria até hoje, se não fosse um grande inimigo chamado frio, esse frio implacável da cidade do vento. Para uma Bela apaixonada pelo crepitar da vida, o frio e o cinzento que lhe estava associado, foram as principais razões para uma mudança para Nova Iorque.

Pormenor de painel de azulejos Bonheur Serein de Bela Silva, coleção privada

Aí, deu-se um novo fôlego. Apaixonou-se pelo espírito dos nova-iorquinos, conheceu Louise Bourgeois, a cidade rugia de vida, os projetos artísticos nasciam de um qualquer encontro casual num café, Central Park tinha um verde eterno, o Metropolitan Museum alojava inspirações vindas do mundo inteiro. Até ao fatídico dia de 11 de Setembro de 2001. Bela estava no Algarve, a convite de António Marques, do Ar.Co, a colaborar num workshop com um artista de Roma. Com o filho ao lado, o marido ao telefone e a televisão ligada, viram o mundo mudar. E viram como as suas vidas estavam também prestes a mudar.

Bela Silva com o “A” que criou para esta edição da A Magazine, fotrografia João Bettencourt Bacelar, Hotel Tivoli 2025.

Com Nova Iorque ferida de morte, seguiu-se Lisboa e uns anos com alguns desafios para uma artista que era e não era portuguesa, que estava e não estava em Lisboa. Até que deixou mesmo de estar e se instalou em Bruxelas, por amor. Bruxelas trouxe-lhe ainda mais relevância, com a proximidade de Londres e Paris e toda a Europa, uma cidade no centro de tudo mas também… cinzenta. Esse cinzento que não encontra lugar na obra de Bela Silva. Mas as cidades são, acima de tudo, como diz Bela, de quem as habita. E por Bruxelas passa o mundo inteiro das artes e das oportunidades. Bela Silva é até hoje a única artista portuguesa a ter desenhado um dos famosos lenços Hermès, onde reencontramos a azulejaria nacional em harmonioso diálogo comos seus queridos pássaros. Esses mesmos pássaros que viu desde pequena nos antiquários vizinhos da Rua da Imprensa Nacional, onde vivia o seu avô, e que a marcaram até hoje. Pássaros de seda, pássaros esculpidos em madeira, pássaros de porcelana, pássaros, penas, cores e mais cores para diluir a tão lusitana nostalgia, da qual sempre fugiu.

Fotografia João Bettencourt Bacelar, Lisboa 2025

Foi também a partir de Bruxelas que colaborou várias vezes com a Monoprix, marca francesa de grandes superfícies, pioneira das parcerias com artistas e designers de renome, convidados a criar coleções exclusivas a um preço acessível. As peças de Bela Silva, desde lingerie a candelabros, passando por tapetes e vestidos, voam das prateleiras como os pássaros voam por toda a sua obra.

Os pássaros de Bela Silva na LAAF (Lisbon Art and Antique Fair) 2025. Fotografia João Bettencourt Bacelar

Exposição Hotel Tivoli, Lisboa 2025. Fotografia João Bettencourt Bacelar

A casa de Bruxelas funciona até hoje como um ponto de chegada e de partida. Para o mundo. Para o Brasil e as suas aves exóticas e tropicais. Para o Quénia, onde se deixou seduzir pela elegância dos Masai, esses pássaros humanos. Para Buenos Aires, com as suas livrarias cheias de Fernando Pessoa, que Bela se apressou a batizar de escritor universal e não apenas português, para gáudio dos fãs argentinos do nosso mestre dos heterónimos. E para Lisboa, onde volta cada vez com mais frequência. Para a luz lisboeta do seu estúdio na Penha de França e para a sua casa-atelier em Vila Viçosa, onde nos conhecemos. Voltamos sempre ao ponto de partida.

Bela Silva com o “A” que criou para esta edição da A Magazine, fotrografia João Bettencourt Bacelar, Hotel Tivoli 2025.

E AGORA BELA?

Agora Bela Silva gostava de trabalhar a dimensão, a grande dimensão, cobrir com a sua obra edifícios inteiros, palcos de teatro, jardins infinitos, onde as suas pinturas vibrantes, a sua cerâmica única e o seu talento infindável possam abrir ainda mais as suas asas, as mesmas asas livres dos seus queridos pássaros. Tão livres como ela.

A Magazine 13, com o “A” criado por Bela silva.

Fotografia João Bettencourt Bacelar, Cascais 2025