O CÃO DE GADO TRANSMONTANO

Luna Das Terras de Barroso de Arlindo Neves,Trás-os-Montes, 2024. Fotografia joão Bettencourt Bacelar

O Solar do Cão de Gado Transmontano é o Nordeste de Trás-os-Montes, região isolada, montanhosa, com planícies e declives. De grande diversidade biológica, com uma fauna rica e diversificada, foi em tempos antigos essencialmente uma zona de florestas, sendo hoje coberta por bosques, matas, áreas agrícolas e de pequenos pastos. A ocupação humana nesta região é bastante antiga, como atestam as gravuras rupestres que datam do Paleolítico Superior, porém é apenas no Neolítico Final que a ocupação humana parece estender-se a toda esta área, coincidindo, provavelmente, com a domesticação de algumas espécies animais.

Jonas de Nogueira da Montanha de Arlindo Neves, Trás-os-Montes, 2024. FotografiaJoão Bettencourt Bacelar

Os rebanhos de ovelhas, nesta região designados por gados, têm entre 150 a 250 animais, guardados por um pastor e, geralmente acompanhados por dois a cinco cães de gado, que defendem o rebanho de eventuais ataques do lobo. As cabradas variam entre os 80 e os 120 animais, sendo também guardadas por um pastor acompanhado por 2 a 3 cães de gado. Este pastoreio tradicional tem o nome de pastoreio de percurso.

Gabi, Gira e Jonas de Nogueira da Montanha. Trás-os-Montes, 2024. Fotografia João Bettencourt Bacelar, 2024

O pastor continua a ser, na grande maioria dos casos, o proprietário do rebanho, tendo agora a possibilidade de utilizar áreas anteriormente ocupadas pela agricultura. O abandono agrícola veio criar condições para a existência de mais áreas naturais por toda a região e, consequentemente, a expansão das presas naturais do lobo, como o javali e o corço. A origem do Cão de Gado Transmontano une-se à história de todos os mastins ibéricos e a sua evolução está ligada à rota da transumância na Península Ibérica. Trazidos da Ásia Central pelos povos que ali se fixaram, é o grande companheiro do pastor com funções específicas de guarda contra o ataque do lobo. Esta raça adaptou-se às condições da zona, assim como ao tipo de gado, evoluindo, até se fixar morfologicamente, em perfeita simbiose com a região e com o tipo de trabalho que lhe foi solicitado.

As suas características são de um cão molossoide de tamanho grande, forte e rústico, que se evidencia pelo seu aspeto imponente, porte altivo e olhar sóbrio. Não obstante a sua corpulência, é um cão de temperamento dócil, sereno, nobre, excecionalmente inteligente e muito sensível a bons tratos e atenções, tendo, também, um caráter independente.

Fidel da Terra Fria e Chica das Terras de Barroso, Trás-os-Montes, 2012. Fotografia João Bettencourt Bacela

Com uma pelagem grossa, de comprimento médio e abundante, tem como cores mais comuns o branco malhado de preto, de amarelo, de fulvo ou lobeiro, unicolores ou raiados. Os machos medem entre 74 e 84 cm, pesando entre 55 e 65 kg, e as fêmeas medem entre 66 e 76 cm, variando o seu peso entre os 45 e os 60 kg.

Os pastores, para proteger os seus rebanhos, não se fazem acompanhar por um só cão. O Cão de Gado Transmontano é um guarda excecional, sendo essa a sua consideração genética. Não precisa ser ensinado a cumprir com este trabalho porque desde sempre esta raça foi utilizada para proteção. Com a família, reage sempre com muita alegria e demonstrações de carinho, adora mimos, é extremamente fiel e disposto a dar a vida para protegê-la.

O machos nesta raça são diferentes das fêmeas, não só no tamanho e corpulência, mas também no caráter. O Cão de Gado macho é dominador por natureza e tem um caráter mais fogoso e rebelde. Uma vez estabelecida a lei da primazia, é muito tolerante com os outros machos e convive com eles sem problemas. Com as fêmeas comporta-se como o leão da selva e o seu harém. Estas, curiosamente, podem tornar-se monógamas, deixando-se cruzar sempre só por um macho, rejeitando todos os outros.

A fêmea, manifestando todas as caraterísticas da raça, é mais dócil e meiga.

O cachorro Cão de Gado precisa de uma alimentação equilibrada e de muito exercício. É um desportista e exercita-se naturalmente.

O Cão de Gado Transmontano é, entre todas as raças portuguesas, a que atinge maior tamanho; ainda conserva a sua funcionalidade sendo, até à data, a que teve menos interferência humana na sua seleção. No Nordeste transmontano, ela existe e é preservada exclusivamente pela sua utilidade na defesa do rebanho e pela sua valentia frente ao ataque do lobo.

Fotografia de 1890 de João Pereira Charrula sentado com o pé esquerdo em cima de exemplar de grande porte (tipo CGT). Em pé Irmãos Sá Miranda. A cena passa-se em numa aldeia de Macedo de Cavaleiros (supostamente, Cortiços). Fotografia cedida por cortesia de Inácio Carvalho Neto

O Cão de Gado Transmontano é uma raça ancestral autóctone, que acompanha o pastor há milhares de anos, na região de Trás-os-Montes. A sua quase extinção nas décadas de 70, 80 e 90 do século XX, assim como a do lobo ibérico, estão intrinsecamente ligadas. O desaparecimento quase total dos lobos nesta zona,teve como consequência a desnecessidade de proteção aos rebanhos. Embora pouco frequentes, ainda existiam alguns ataques de lobos a rebanhos, o que suscitou um estudo por parte do Parque Natural de Montesinho. José Luís Rosa, engenheiro florestal e o biólogo Luís Miguel Moreira, responsáveis por esse estudo, aperceberam-se de que só alguns rebanhos eram atacados nos mesmos percursos. Concluíram que a diferença estava nos que eram defendidos por cães de guarda. Sem terem como objetivo a recuperação da raça, desenvolveram um trabalho de seleção de cães, que começaram a distribuir pelos rebanhos transmontanos. Comprovaram que os rebanhos onde havia a presença de cães não sofriam ataques, o que originou o programa de distribuição de cachorros a pastores, maioritariamente na zona de Bragança. Ao mesmo tempo, salvaguardavam a integridade e proteção do lobo ibérico. O programa de distribuição do Parque de Montesinho encontra-se de momento inativo, uma vez que a maioria dos rebanhos já tem um grande número de cães de guarda, no entanto o programa continua com a Associação Lobo.

Chica das Terras de Barroso, 2020. Fotografia Susana JacobettyE

Na fase seguinte, o Clube Português de Canicultura foi fundamental para o reconhecimento e divulgação do Cão de Gado Transmontano, estabelecendo o seu estalão de acordo com os cães existentes, tendo em conta as melhores caraterísticas para a raça.

Em parceria com o Parque Natural de Montesinho e com a Associação do Cão de Gado Transmontano, desenvolveu-se um trabalho de recuperação desta raça primitiva, que estava empobrecida geneticamente e que culminou em 2004 com o reconhecimento oficial do Cão de Gado Transmontano como uma raça portuguesa.

Segundo estudos científicos desenvolvidos no âmbito da genética, foi possível apurar que estes cães existem há milhares de anos. O valor do património genético desta raça, que encerra em si um cariz cultural, é de enorme interesse e importância no equilíbrio do ecossistema transmontano.

Dos criadores primordiais, cujos genes estão nas linhas dos cães de hoje, como por exemplo, o Canil de Milhão, d’Aldeia de Samil, da Lorga de Dine, dos Montes de Vinhais, entre outros, só o Canil de Grandais e o do Zeive ainda existem.

Cachorros de Nogueira da Montanha, Trás-os-Montes, 2024. Fotografia João Bettencourt Bacelar

O grande desafio da raça nos próximos anos, tem a ver com a desertificação do interior de Portugal. Havendo menos pessoas, haverá menos pastores e o ideal será manter um bom número de cães a trabalhar. Este cão sobreviveu até aos dias de hoje pela necessidade da sua função, é muito importante preservar o seu legado ancestral.

“Quem me deu a conhecer a raça foi o meu primo Alexandre Bettencourt. Contou-me muitas histórias sobre o padre Domingos Barroso, figura célebre em Trás-os-Montes (século XIX/XX), que dizia muitas vezes que não podíamos deixar perder o cão lobeiro – assim chamado devido à sua funcionalidade. No livro Cavar em Ruínas, de Camilo Castelo Branco, há uma referência ao cão lobeiro transmontano. Na zona de Vila Pouca de Aguiar, Chaves, Barroso, Aldeia de Ardãos, Covas de Barroso e Vinhais, a pelagem destes cães diferia na cor, sendo uma grande parte quase como a do Castro Laboreiro. No final da década de 70, comecei um processo de trabalho para salvar a raça que conhecia e admirava. Em 1994 fui buscar sete linhas diferentes para começar a base do meu afixo num trabalho de outbreeding, os Terra Fria. O Cão de Gado Transmontano faz parte do património português milenar e é incrível que tenha chegado ao século XX praticamente desconhecido e, ainda, que se tenha conseguido salvar a raça. Para mim o mais importante é manter a raça no seu solar e em função”.

DOMINGOS CALVÃO

Fidel da Terra Fria e L-Kuba Das Terras de Barroso, Trás-os-Montes, 2011. Fotografia Pedro Moura

Pedro Moura recorda-se de em criança ouvir o avô Fernando Abel falar dos cães gigantes que guardavam o seu rebanho, mas sempre pensou que já não existissem. Quando descobriu que ainda havia alguns exemplares em Bragança, resolveu ir buscar os seus primeiros cães. Mais tarde decidiu também ser criador, com o afixo Das Terras de Barroso. Criador desde 2008, confessa que já passaram alguns cães lá por casa e que todos foram especiais. Faz questão de ir sempre buscar cães a pastores, onde sabe que a funcionalidade é essencial. Gosta de cães grandes, com substância, com estrutura, boa cabeça, pois são características que considera importantes. Para além das proporções, a genética é fundamental.

“Na seleção de um Cão de Gado Transmontano é importante ter em conta a morfologia, temperamento e saúde genética, mas deve ser principalmente selecionado pela sua funcionalidade, porque foi essa a razão que o fez perdurar no tempo. Se o cão não for funcional, o pastor não vai cruzar o cão. A sua funcionalidade faz parte da seleção plena do que é um Cão de Gado Transmontano.

Estes cães são o maior aliado do lobo ibérico, porque seo lobo não der prejuízo, não há necessidade do pastor realizar qualquer espécie de retaliação“.

PEDRO MOURA

«A heterogeneidade da raça provou a sua antiguidade. Embora houvesse diversidade dentro deste tipo de cão, o que é fundamental, a sua homogeneidade era suficiente para estabelecer a raça»

JOSÉ LUÍS ROSA

Carol, Gira, Varela, Jonas de Nogueira da Montanha, Luna das Terras de Barroso, Rei de Nogueira da Montanha. Trás-os-Montes 2025. Fotografia Arlindo Neves

O Pastor Arlindo é dos poucos pastores que ainda trabalham em Trás-os-Montes. Carrega nos ombros a responsabilidade de um legado ancestral do saber fazer e, com ela, a preservação do Cão de Gado Transmontano. Ver ao vivo o trabalho do pastor e dos cães de gado, é poder compreender em pleno, a importância e significado desta tradição milenar no território.

Cães de Gado Transmontano de Nogueira da Montanha em função, Trás-os-Montes, 2024. Fotografia João Bettencourt Bacelar

Em criança, Arlindo Augusto Neves, natural de Tabuaço (Viseu), já queria ter o seu rebanho, mas a vida trocou-lhe as voltas e esteve 20 anos emigrado em Madrid. Há 10 anos que faz criação de Cães de Gado Transmontano, sendo o seu afixo De Nogueira Da Montanha. Enquanto criador, tem desenvolvido um trabalho notável, reconhecido por toda a comunidade CGT. Consciente da dificuldade de encontrar no futuro quem queira continuar a arte do pastoreio de percurso, o Sr. Arlindo confessa alguma preocupação na garantia que os cães continuem a trabalhar com os rebanhos, assegurando inerentemente, a preservação do lobo ibérico.

Luna das Terras de Barroso, Gabi e Preta de Nogueira da Montanha e Arlindo Neves, Trás-os-Montes, 2024. Fotografia João Bettencourt Bacelar

Dom Duarte Pio, Duque de Bragança com Baco e Congo. Sintra, 2025. Fotografia João Bettencourt Bacelar

“Tive conhecimento desta raça pelo Domingos Calvão, que me ofereceu os cães. As caraterísticas que mais aprecio no Cão de Gado Transmontano é o seu sentido de defesa da propriedade e conceito da mesma, que é muito claro e evidente: não deixam ninguém entrar e, inclusivamente, obrigam a pessoa a ficar quieta. Tenho dois cães, um fica a tomar conta da pessoa, não a deixando sair do local, e o outro vai chamar-me a mim ou ao caseiro. Tomam decisões sozinhos, têm uma ideia de responsabilidade enorme e são de uma grande inteligência. Seria mais simples morderem, mas perceberam que cá em casa isso não seria apreciado. Com os nossos filhos sempre foram muito cuidadosos e amáveis”.

DOM DUARTE PIO, DUQUE DE BRAGANÇA

Dom Duarte Pio, Duque de Bragança com Baco. Sintra, 2025. Fotografia João Bettencourt Bacelar

Chica das Terras de Barroso, filha de Enero de Grandais e L-Kuba do Zeive, neta de Quique de Grandais e Foleza de Milhão e de Camões e Eta do Zeive. Fotografia João Bettencourt Bacelar, 2020

Francisco Calheiros e Meneses, 3ª Conde de Calheiros, com Leão, irmão de Congo, filho de Corga e Baco, neto de Virtudes da Terra Fria e de Rambo de Nogueira da Montanha. Ponte de Lima, 2025. Fotografia João Bettencourt Bacelar

“A quase extinção do lobo ibérico, resultante da sua eliminação devido aos ataques a rebanhos, levou à procura de um bom cão de guarda. Exímio na sua função, o Cão de Gado Transmontano revelou-se extraordinariamente útil para a preservação do lobo ibérico criando, inclusivamente, com o passar dos anos, uma alteração cultural. O pastor já não tem necessidade de eliminar o lobo, transferindo o seu foco para o excelente trabalho e desempenho na proteção do rebanho pelos seus cães”.

“O Senhor D. Duarte tinha um casal de Cães de Gado Transmontano e um dia veio visitar-me com uma ninhada de cinco cães. Nessa ocasião, disse-me: escolha um. Escolhi o que me pareceu o mais robusto, para mim o mais bonito. Era bege, gostei muito da cor. É o Leão, o cão da família e o grande embaixador do Paço de Calheiros. Lá em casa todos os cães têm o nome de Leão, mas como foi o Senhor D. Duarte que me ofereceu, passou a chamar-se Rei Leão. Tem 8 anos e eu adoro-o.

A função dele nesta casa é ser guia dos turistas, o que cumpre religiosamente. É o ator principal do Paço de Calheiros. A casa recebe muitos grupos, principalmente de estrangeiros e é da praxe tirarem sempre uma fotografia com o Leão, mas tem de ser no momento, têm cinco segundos para o fazer e até faz pose. Se não tirarem logo, vai-se embora e já não conseguem tirar. Anteriormente toda a gente perguntava por mim, se estava bem, agora já só perguntam pelo Leão (risos)”.

FRANCISCO CALHEIROS E MENESES, III CONDE DE CALHEIROS

Chica das Terras de Barroso, Trás-os-Montes, 2012. Fotografia João Bettencourt Bacelar

«O Cão de Gado Transmontano é uma raça inspiradora, fácil de nos apaixonarmos e que já conta com muitos adeptos incondicionais»

Clube Português de Canicultura