POR SUSANA JACOBETTY

Galveias, 2023. Styling Susana Jacobetty com Nuno Gama.
A FORMAÇÃO
José Luís Peixoto frequentou a escola primária de Galveias, onde também fez o 5º e 6º ano, mas em telescola, através da televisão. Este método, que era acompanhado fisicamente por um professor, foi uma realidade para muitas crianças que viviam fora dos grandes centros urbanos no século XX. O liceu já foi feito em Ponte de Sor, mas foi a biblioteca itinerante da Gulbenkian que veio a ser fundamental para a sua formação.


Bilhete enviado à irmã Alzira pelo escritor. Centro de Interpretação José Luís Peixoto, Galveias
“Era muito ansiada e foi muito importante. A carrinha vinha uma vez por mês e parava na praça principal, o bibliotecário era o senhor Dinis, muito famoso na zona, até já foi publicado um livro sobre ele. Nessa época, eu estava convencido que ele também era médico e dentista, mas depois percebi que era só uma pessoa que arrancava dentes. Uma das mais-valias dessa carrinha, era que tínhamos acesso livre, não havia ninguém a dizer-nos que tínhamos de ler este livro ou aquele. Para mim, isso era fascinante.
Podíamos levantar até cinco livros cada um e, depois, trocávamos entre amigos, até porque às vezes havia um livro que todos queríamos ler. Entretanto, fui evoluindo bastante e muito rapidamente, devia ter uns 14 anos, comecei a trazer poesia para casa, que era muito mais estimulante. No Centro de Interpretação José Luís Peixoto é possível encontrar algumas páginas escritas por mim na altura, muito influenciado pelos poemas de Florbela Espanca”.
OS PRIMEIROS LIVROS
“Provavelmente livros infantis e infanto-juvenis. Lembro-me de ler os da Enid Blyton, como Os Cinco ou Os Sete”.
O COMEÇO DA ESCRITA
“A primeira coisa que escrevi foram os sonetos inspirados na poesia de Florbela Espanca, ainda o fiz durante um bom período, entre os 14 e os 16 anos. Escrevia de uma forma continuada e gostava desse lado lúdico. Depois descobri poetas mais contemporâneos, aí comecei a escrever versos livres e a fazer uma escrita muito experimental, mesmo em todos os sentidos da palavra.
Poucos meses depois descobri o DN Jovem onde comecei a publicar, em prosa, e onde, ao todo, publiquei mais de 100 textos, mas os primeiros textos foram poesia. A primeira vez que tive um escrito publicado foi um poema, no suplemento do Jornal de Letras. Também estive presente em algumas publicações na faculdade, através da associação de estudantes”.

Galveias, 2023. Styling Susana Jacobetty com Nuno Gama.
A VONTADE DE ESCREVER ENQUANTO NECESSIDADE VISCERAL
“Sim era. São muitas as pessoas que começam a escrever cedo. Eu acho que a poesia também permite uma certa autoanálise, organização, arrumação de uma série de coisas que estamos a descobrir nessas idades, são anos de grandes mudanças sejam emocionais, físicas, a vários níveis. Escrever é uma forma de encontrar algo, que se procura nessas idades, alguém que nos compreenda, uma voz, mas também está muito ligado a certas emoções, que são intensas por serem novas. A poesia e a escrita eram fundamentais para mim, foi uma grande descoberta, embora também viesse muito associada à música e a outros consumos culturais que tinha”.


Edição romena do livro Morreste-me

Edição tailandesa do livro Galveias

Galveias, 2023. Styling Susana Jacobetty com Nuno Gama.Pinturas do escritor, por vários artistas, Centro de Interpretação José Luís Peixoto, Galveias, 2023. Styling Susana Jacobetty com Nuno Gama.
MÚSICA, VEGETARIANISMO E OS HIPOCONDRÍACOS
“Aos 11 anos, comecei a ouvir heavy metal, como Iron Maiden, Manowar, ACDC, que era o que se ouvia em certos programas de rádio. Depois aos 17 anos, comecei a ouvir música já no domínio do punk, com uma dimensão política, pois também eu, já estava a canalizar mais, digamos assim, as minhas rebeldias. Comecei a ser vegetariano ainda antes de ir para a faculdade. As minhas escolhas permitiram-me estar um bocado à parte, com acesso a um mundo diferente num âmbito cultural e artístico. Em Galveias, as pessoas com quem partilhava os mesmos gostos, eram no máximo duas. Em Ponte Sor, talvez mais quatro. Éramos um pequeno grupo, partilhávamos discos e cassetes, chegámos a criar uma banda, os Hipocondríacos, cujo acervo se encontra no Centro de Interpretação José Luís Peixoto, em Galveias. Foi uma altura mais underground.Enviávamos as cassetes para as produtoras por correioe tínhamos um esquema para aproveitar os selos, que eram usados vezes sem conta”.

Galveias, 2023. Styling Susana Jacobetty com Nuno Gama.
SENSIBILIDADE E BONS GENES
“As minhas irmãs puxaram muito por mim: a Anabela, com mais oito anos e, a Alzira, com mais 13 anos. São as duas muito ligadas às artes, sendo a minha irmã mais velha, professora de português e francês e uma grande leitora, foi, também, a minha primeira leitora, quando eu não mostrava o que escrevia a ninguém e, sempre me encorajou muito. As duas tinham gostos musicais ecléticos e ainda hoje são grandes consumidoras de livros, cinema e teatro”.

Galveias, 2023. Styling Susana Jacobetty com Nuno Gama.
AS REFERÊNCIAS LITERÁRIAS
“Ao longo dos tempos têm sido muitas. Mas no início foi Florbela Espanca, principalmente os seus contos passados no Alentejo e de uma forte ambiência gótica, Fernando Pessoa e os seus heterónimos, porque é uma voz extraordinária que toca praticamente todas as pessoas que falem a nossa língua e tenham a nossa matriz cultural. Mais recentes os poetas Ruy Belo e Herberto Helder; na prosa, António Lobo Antunes, José Saramago. Estrangeiros, um livro que me marcou muito foi La Religieuse do francês Diderot, que li com 12 anos. Muitos autores ingleses e americanos. Tenho uma tatuagem do William Faulkner, que é um autor fundamental para mim. Continuo sempre à procura de autores que me motivem e entusiasmem. Para mim, é extremamente cativante fascinar-me com um autor que não conhecia, como aconteceu para aí há 15 anos quando descobri o Dave Eggers”.

A MAGAZINE N7 Vila Galé de Paço de Arcos, 2024 Styling Susana Jacobetty com camisa MSGM (loja das Meias) fato e sandálias Miguel Vieira
O LIVRO DA VIDA
“Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Márquez, que é uma construção narrativa extraordinária, parece uma catedral de histórias. Fiquei admirado com a capacidade do ser humano enquanto máquina narrativa. Li-o com 19, 20 anos”.
PARA QUEM NUNCA LEU JOSÉ LUÍS PEIXOTO
“Detesto responder a essa pergunta, porque acho que é fundamental que quem lê estabeleça um contrato pessoal com o livro que vai ler. A razão pela qual as pessoas decidem ler um livro são variadas. Ainda assim, aconselhava o romance Galveias. Tenho muito orgulho e sinto-me feliz por o ter escrito. É um feito para mim”.
CONHECER 100 PAÍSES, ESCOLHER O MAIS IMPRESSIONANTE
“O continente que mais me impressionou no seu todo foi a Ásia, o país, a China”.

A MAGAZINE N8. Vila Galé de Paço de Arcos, 2024. Styling Susana Jacobetty com camisa MSGM (loja das Meias) fato e sandálias Miguel Vieira
O QUE AINDA FALTA CONHECER
“Gostava de ir ao Pacífico Sul, para Tonga, Polinésia Francesa e ilhas Fidji”.

Vila Galé de Paço de Arcos, 2024. Styling Susana Jacobetty com camisa MSGM (loja das Meias) fato e sandálias Miguel Vieira
DE GALVEIAS PARA PAÇO DE ARCOS
“Adoro viver ali, já o sinto como meu. Mas vou muitas vezes a Galveias e agora, com o projeto do Centro Interpretativo, ainda terei mais motivos para voltar mais vezes. Neste momento ainda não me imagino a viver aqui, mas no futuro, talvez”.


