
Pedia-me sempre as canetas mais finas. Eu ainda não precisava de óculos para ver os desenhos que fazia no interior de outros desenhos, detalhes emaranhados e ínfimos. Em papelarias, quando lhe comprava as canetas, tomavam-me por profissional. Essa parecia ser a razão evidente para pedidos tão específicos, os bicos mais finos, o ar de entendido. Eu pressentia a ideia dos vendedores na forma como me respondiam, não tinham dúvidas de que estavam a lidar com um profissional. Na hora de darem o troco, era por acaso que não me tratavam por arquiteto. Depois, quando chegava a casa, o verdadeiro especialista, educado pela internet, era um menino de oito, nove, dez anos, que me fazia perguntas difíceis: não tinham caneta zero vírgula qualquer-coisa?

Foi nessas idades que me espantei a sério com um dos muitos desenhos que fazia constantemente. No cantinho de uma folha, desenhou dois bonecos pequenos: um estava a tatuar o outro, tinha o corpo coberto por linhas bem definidas, muitíssimo finas. Esse barroco seria surpresa suficiente, mas o que me deixou abismado foi o espelho que desenhou por detrás dos dois e que os refletia a partir de outra perspetiva, incluindo todas as microtatuagens que se podiam avistar daí, a continuação das que estavam à frente. A maneira como os pais se impressionam com os feitos dos filhos é intransmissível. Na minha vida, nunca esquecerei esse desenho e o detalhe do espelho. Tenho diversas teorias acerca do raciocínio visual de um menino que, antes de fazer dez anos, se lembra de desenhar um espelho e mostrar a perspetiva que a maioria das pessoas ignora ao dar por adquirida. São teorias intrincadas e, quando começo a expô-las, sinto que toda a gente se desinteressa. A exceção, a única pessoa que mantém a mesma atenção do que eu, é a mãe.
Na festa de fim do quarto ano, as crianças queriam correr no pátio da escola. O nosso filho passava por nós, escutava meia palavra, e seguia caminho, mais empenhado nas brincadeiras com os rapazes da sua idade. Nós tentávamos ser pais como os outros, acompanhar a autoconfiança que todos apresentavam, vidas estruturadas, casais vestidos de acordo com a ocasião, senhoras e senhores responsáveis. Num momento que imitava as cerimónias de graduação, as crianças subiram ao palco e, em vídeo, um a um, passaram os nomes, os rostos infantis e a profissão que queriam ter quando fossem adultos: astronautas, futebolistas, professores, médicos e, quando chegou a vez do nosso filho, tatuador.
Quando tinha onze, doze anos, acompanhávamo-lo a lojas que ele descobria na internet, lojas especializadas em sprays de tinta e em marcadores. Comprávamos-lhe algumas latas e, à noite, parávamos o carro em lugares ermos. Enquanto ele fazia tags e grafitti, ficávamos de vigia. Nas nossas costas, o tsss do spray e, às vezes, o som das latas a chocalhar, a bolinha de metal no seu interior. Terminaste? E saíamos com a adrenalina no máximo. No dia seguinte, de mãos nos bolsos, com tempo, voltaríamos para contemplar o trabalho.

Esse era também o caso das etiquetas, compradas em grandes quantidades, desenhadas com todo o cuidado na sua secretária e, depois, coladas à socapa em postes de semáforos, na porta de casas de banho públicas, onde calhava. Agora, parece que havia tantos sinais do que estava para vir. É sempre assim. Mais tarde, quando já se desvendou o principal, parece sempre que havia muitos sinais. Passaram anos, foram maiores para ele do que para mim. Sou o pai e, por isso, esses momentos são ainda tão próximos. O dia em que o vi pela primeira vez, acabado de nascer, é ainda tão próximo. Está marcado na minha memória.
A linha nasce do gesto. Tenho um filho que apresenta imagens. Acredito que, numas vezes, já as conhece, viu-as na imaginação e, ao desenhá-las, revela-as. Noutras vezes, no entanto, são essas mesmas linhas que vão abrindo caminho para o que se vai formando, janelas para mundos, lugares onde vivem personagens, lógicas novas, realidades que passam a existir. Nessas imagens, nós imaginamos porque ele imaginou, porque a sua mão imaginou.
Desculpa falar de ti na terceira pessoa, filho, como se não estivesses aqui. Foi mais fácil assim. Um dia, havemos de recordar este momento com a mesma força com que recordamos agora o tempo em que eras criança. Havemos de ser capazes de encontrar aqui sinais de tudo o que virá, tantos desenhos que irás fazer, tanta vida. Ainda bem que desenhas, filho. Ainda bem que serás sempre um homem que desenha, que não desistirá do olhar. Ainda bem que existes, André.


