BOCA DA MATA de Milena Kalte

Milena Kalte é uma artista alemã residente em Portugal há vários anos. Aprendeu a arte de entrelaçar o esparto com as últimas mestres da aldeia das Sarnadas na zona de Alte e com o Sr. Isidoro de Paderne. Participou no curso de Transmissão de Conhecimento em 2021 e numa Residência Criativa em 2022 ambos promovidos pela QRER – Cooperativa pelo Desenvolvimento dos Territórios de Baixa Densidade e pelo Hugo da Silva Design Studio. Nestas duas formações teve a oportunidade de desenvolver a sua própria linguagem como artesã contemporânea do esparto, dando uma nova expressão às técnicas ancestrais do seu entrelaçado.

Desenvolveu uma coleção de máscaras, que contam também a história do quase desaparecimento desta tradição algarvia e da relação que as pessoas ainda mantêm, por um fio fino mas resistente, com essa planta quase esquecida e a sua cultura. A sua primeira coleção, Boca da Mata, é constituída por três máscaras: uma raposa, uma cabra e uma ave que representam, no seu conjunto, uma criatura que habita o imaginário popular português, mais conhecido no sul do país, que se chama Zorra Berradeira. Sendo que as próximas máscaras serão sobre o Tardo, também conhecido como Corredor de Fado ou em algumas variações como Lobisomem, ou em versão feminina como a Peeira de Lobos. Será uma interpretação de um lobo, que vai ser seguido por um cavalo e eventualmente um porco.

Raposa Encantada, máscara inspirada na Zorra Berradeira, criatura que habita o imaginário popular algarvio, 100% esparto, coleção Boca da Mata de Milena Kalte

Cabra Manchadamáscara inspirada na Zorra Berradeira, criatura que habita o imaginário popular algarvio, 100% esparto, coleção Boca da Mata de Milena Kalte

Ave Imunda, máscara inspirada na Zorra Berradeira, criatura que habita o imaginário popular algarvio, 100% esparto, coleção Boca da Mata de Milena Kalte

Pieira de Lobos, máscara inspirada no Corredor, criatura que habita o imaginário popular português, 100% esparto, coleção Boca da Mata por Milena Kalte.

As suas máscaras são feitas inteiramente em esparto Stipa Tenacissima, uma planta autóctone que cresce nas terras montanhosas do interior do Algarve, no Barrocal, de forma espontânea e selvagem. As folhas do esparto transformam-se, em semelhança ao cânhamo, numa das fibras vegetais mais resistentes e duradouras que não apodrecem, diferentemente da palma, em contacto com água. 
 
Antigamente, para produzir o fio mais resistente possível, cozia-se o esparto durante 21 dias em água a correr, como por exemplo em ribeiras, para fermentar a celulose antes de o bater com um maço em madeira, preferencialmente de Azinheira ou Oliveira, por cima de uma pedra para abrir a fibra. A seguir, transformava-se esta fibra num fio duríssimo chamado de Tamiça ou Baraçinha que se utilizava principalmente na confecção de redes de pesca e de cordas para navios. O Esparto, chegou a ser mais valioso do que a seda já que tinha um papel importantíssimo na expansão marítima na Península Ibérica.

Realização Susana Jacobety, fotografia João Bettencourt Bacelar, video Kate Stratton-Woodward, modelo Joana Hamrol para a A Magazine N9