
POR JOSÉ LUÍS PEIXOTO. IlUSTRAÇÃO RICARDO LADEIRA
Estava nu, estavam todos a olhar para ele, mas não era isso que o incomodava. Havia anos que se tinha habituado aos olhares, a que analisassem cada pormenor do seu corpo, nem demasiado magro, nem demasiado gordo. Tinha alguma gordura na zona da barriga, mas aprendera a aceitá-la desde que reparara na sua existência. Lembrava-se bem dessa descoberta, tinha sido numa manhã como aquela, mas em junho, passavam poucas semanas do seu quadragésimo aniversário. Aceitava essa gordura, como aceitava a idade, o que o incomodava realmente era a corrente de ar que lhe passava rente às costelas, por baixo dos braços, fria, como lixa gelada.

Estava nu, estavam todos a olhar para ele, mas ele só conseguia imaginar os dois pontos por onde aquela corrente de ar circulava. Toda a sua atenção se dirigia para essa abstração. Ali, tentava resolver esse mistério. Provavelmente, aquela corrente de ar era um resto de vento, o mesmo que agita copas de árvores, que vira guarda-chuvas. Talvez a força desse vento ainda fosse suficiente para passar por baixo da porta daquela sala. Nesse caso, teria de entrar pela porta da rua, sempre aberta, avançar sem se deter e chegar à porta daquela sala, que era a última, após vários corredores cruzados. Aparentemente improvável, mas altamente possível. Depois, talvez essa aragem quisesse sair em direção a uma frincha, mesmo que ínfima, das janelas fechadas. Talvez essa fosse a sua última possibilidade de libertação, de voltar a misturar-se com a liberdade da rua.

Estava nu, estavam todos a olhar para ele. E também esses olhares eram linhas invisíveis, como as linhas que imaginava para a corrente de ar, que lhe raspavam a pele, que lhe traziam incómodo e lhe prendiam os pensamentos. E era devagar, sem suspeitarem, que os alunos de pintura continuavam a olhá-lo e a copiar todas as formas do seu corpo para os blocos brancos onde a sua figura surgia, desenhada a carvão.


